COP 25. Duas semanas de trabalho para preparar o futuro

A capital espanhola vai receber, entre 2 e 13 de dezembro, a conferência anual contra as alterações climáticas das Nações Unidas. Decisores políticos e ambientalistas preparam-se para traçar novas metas para o Acordo de Paris (2015).

"Como pode contribuir, através de ações concretas, para um planeta neutro em carbono em 2050?" A pergunta será feita a todos os participantes na zona verde da 25ª Cimeira das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, em Madrid, explicou o Ministério para a Transição Ecológica espanhol. Mas por certo será repetida na zona azul - onde decorrerão as negociações entre decisores políticos. É por isso que os mais de 190 países que subscreveram o Acordo de Paris, há quatro anos, marcam presença neste encontro: para apresentar metas ecológicas e investimentos na luta pelo futuro do planeta.

O relógio continua a contar e o documento assinado na capital francesa atinge em 2020 o momento (previsto no próprio acordo) em que têm de ser definidos novos ajustes às promessas iniciais, como a neutralidade carbónica até 2050 (ausência de produção de gases de efeito estufa que não podem ser absorvidos).

A COP25 [Conference of the Parties], como é conhecida, só será bem-sucedida se no recinto da Feira de Madrid, entre 2 e 13 de dezembro, ficarem estabelecidos os cortes de emissões de carbono que cada país terá de apresentar obrigatoriamente daqui a um ano na cimeira que se realizará em Glasgow, no Reino Unido.

"Em 2014, a China assinou um acordo com os Estados Unidos relativamente às emissões e em dezembro [do mesmo ano] aconteceu a Cimeira do Clima no Peru, que abriu as portas ao Acordo de Paris. Agora, não vai haver nenhuma reunião entre a China e os Estados Unidos - porque os Estados Unidos estão fora [do acordo] -, mas haverá entre a União Europeia e a China. E esta cimeira [que acontece em Madrid] pode ser comparável à do Peru: não se prepara um novo acordo, mas é preciso preparar a revisão das metas, como pede o Acordo de Paris", diz o presidente da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira.

Perante cerca de 25 mil políticos, jornalistas, peritos e outros participantes, esperam-se ainda anúncios de investimento em políticas ambientais, uma vez que o Acordo de Paris já previa um fundo de cem mil milhões de dólares para o Fundo Verde do Clima até 2020. E deverá voltar à mesa das negociações o tema do "sistema de seguros", um apoio para países que sofrem com catástrofes climáticas.

No entanto, o clima em que acontece a conferência deixa já antever algumas dificuldades políticas. "A União Europeia está numa situação complicada: tem um compromisso de redução de 40% das emissões, mas isto é muito pouco. Idealmente seriam 65%, segundo as organizações não governamentais, mas a comissão só tomará posse a 1 de dezembro, praticamente em cima da conferência, o que dará pouco tempo para as negociações", aponta Francisco Ferreira.

O ambientalista refere ainda que tem algumas desconfianças em relação "à forma como vai ser feita a transição entre esta cimeira e a de 2020". Com as eleições legislativas britânicas, agendadas para 12 de dezembro, fica a dúvida sobre que tipo de acompanhamento dará o governo inglês à última semana da reunião em Madrid.

Alertas multiplicam-se

As emissões globais de dióxido de carbono atingiram em 2018 os níveis mais altos de que há registo, tendo aumentado 2,7%. Se não forem tomadas medidas para aumentar a utilização dos transportes públicos, a diminuição das emissões resultantes da indústria ou da agricultura, a saúde das crianças estará cada vez mais ameaçada. Esta é a tese do estudo "Contagem decrescente para a saúde e as alterações climáticas", da revista The Lancet em conjunto com 35 entidades, entre elas a Organização Mundial da Saúde, publicado antes da cimeira. O risco de asmas, doenças cardíacas, infeções e subnutrição é maior com a poluição atmosférica.

O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) das Nações Unidas junta-se ao coro dos alertas com uma análise, divulgada em setembro, sobre as consequências do elevado nível dos oceanos, um volume sem precedentes. No ano passado, o mesmo organismo relembrava o aumento da temperatura do planeta e terminava com uma nota de esperança: ainda é possível que a subida da temperatura não exceda os 1,5 graus em relação à era pré-industrial. Mas isso exige uma ação rápida, concertada e global.

Greta Thunberg está a caminho

A ativista sueca de 16 anos está a atravessar o Atlântico para marcar presença na COP25. Chegará a bordo do um catamarã, que pertence aos australianos Riley Whitelum e Elayna Carausu, um casal que viaja pelo mundo com a filha de 11 meses, Lenny, filmando e colocando no YouTube as suas aventuras. A boleia pediu-a via Twitter, aquando da mudança de anfitrião da conferência sobre as alterações climáticas. Greta encontrava-se nos Estados Unidos, de onde tinha planeado viajar para o Chile, que teve de renunciar à organização do evento mundial, por não conseguir garantir
segurança numa altura em que o país é assolado por protestos.

Espanha chegou-se à frente para receber a cimeira e trocou as voltas à jovem mentora das greves estudantis em nome do planeta, que se recusa a viajar de avião, por causa dos níveis de poluição. Greta Thunberg segue no La Vagabonde, um barco movido a energia solar, que tem uma turbina de água, e ruma agora em direção a Madrid, com uma paragem previstas para Portugal, em Lisboa.

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Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

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Maria do Rosário Pedreira

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