Comer fast food contribui mesmo para morte prematura, dizem investigadores

Há dois novos estudos que provam o impacto que os maus hábitos alimentares têm na saúde humana. Um alerta para uma perfeita ligação causa-efeito. Outro aponta os alimentos processados apenas como aceleradores do risco.

Duas novas investigações vêm dar corpo às suspeitas cultivadas ao longo dos anos, provando que ingerir alimentos altamente processados e com ingredientes industriais afeta gravemente a saúde. Um estudo de uma equipa de cientistas franceses, outra de espanhóis. Mostram que quem faz uma alimentação à base de refeições rápidas, desde cereais matinais a bolos e gelados, é mais suscetível de sofrer um ataque cardíaco ou um derrame, contrair cancro e ter uma morte prematura, segundo o The Guardian.

Durante cinco anos, a equipa de cientistas franceses da Universidade de Paris procurou saber mais sobre os hábitos alimentares de 105 mil pessoas e a relação com a sua saúde. Embora o estudo não prove que é a ingestão destes alimentos que causa as doenças, mostra que está relacionada com o risco de as contrair. Aqueles que consumiram alimentos mais processados estavam sob maior risco de acidente vascular cerebral, ataque cardíaco, entre outros problemas cardiovasculares, concluiu a investigação.

Por exemplo, quando a quantidade de alimentos ultra processados na dieta aumentou de 10% para 20%, o risco de sofrer alguma destas patologias aumentou 12%. Os resultados mostram que haverá 277 casos de doenças cardiovasculares registados em cada ano por cada 100 mil consumidores de alimentos ultra processados. E 242 casos nos consumidores mais saudáveis.

"Precisamos de voltar às dietas mais básicas."

"As pessoas devem evitar estes alimentos tanto quanto puderem", disse Mathilde Touvier, membro da equipa de cientistas. "Precisamos de voltar às dietas mais básicas." A cientista diz que há evidências suficientes dos efeitos nefastos deste tipo de alimentação para que as autoridades de saúde pública aplicam mais estratégias de prevenção.

Uma outra equipa da Universidade de Navarra, em Espanha, estudou a saúde e os hábitos alimentares de quase 20 mil diplomados espanhóis, entre 1999 e 2014. No decorrer da investigação, 335 destes morreram. Mas aqui a ligação entre o que ingerem e o seu estado de saúde foi bem mais clara. Segundo as conclusões deste estudo, os consumidores de comida processada tinham mais 62% de hipótese de morrerem comparativamente aos que comiam menos. Os primeiros comiam mais de quatro porções por dia de fast food, os segundos menos duas doses por dia. Por cada porção a mais, o risco de morte aumentou 18%.

Ao contrário dos investigadores franceses, a coordenadora desta investigação disse que o facto de a taxa de mortalidade aumentar ao mesmo tempo que o aumento deste consumo sugere que os alimentos ultra processados são realmente os culpados pelas mortes prematuras.

"Estes alimentos são feitos predominantemente ou inteiramente de substâncias industriais e contêm pouco ou nenhum alimento integral. Estão prontos para serem aquecido e ingeridos", alertou Maria Bes-Rastrollo.

A diretora de política alimentar da City University London diz que é "fundamental" procurar fazer "mais pesquisas sobre a conexão entre alimentação e saúde" e pede mais ação do Governo

Se há algo em que ambos os estudos concordam na totalidade é que este tipo de alimentação é prejudicial e deve estar na agenda dos governos. A diretora de política alimentar da City University London e uma das principais investigadoras da unidade britânica de estudo sobre política de obesidade diz que grande parte da ação está nas mãos dos governantes.

"Os governos devem fazer mais para reduzir de forma abrangente a disponibilidade, acessibilidade e apelo de alimentos processados, gorduras, açúcares e sal", frisou Corinna Hawkes. E diz mesmo que é "fundamental" procurar fazer "mais pesquisas sobre a conexão entre alimentação e saúde". "Há muita coisa que sabemos, mas também temos muito a aprender. Precisamos de mais e mais estudos para construir um quadro maior."

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