Bruno já tem Muxima, a cadela mongol, a cheirar a casa

Milhares de quilómetros feitos, perto de 2500 euros gastos. Mas Bruno, trabalhador humanitário, conseguiu. A cadela mongol pela qual se apaixonou já está em sua casa a "cheirar tudo" e a receber "mimos".

Esta é mesmo uma história de amor. De um humano por um animal, que foi resgatado de um destino ingrato. Bruno Neto já tem em casa, a "cheirar tudo" a cadela que encontrou na Mongólia numa lixeira. As fotos que colocou no Facebook mostram o quanto ambos estão felizes: "Hoje fomos passear e ela sentava-se para snifar todos os cheiros que vinham com o vento. Agora acho que já se sente em casa e está confortável".

Bruno foi buscar Muxima, depois de não a ter conseguido trazer quando saiu da primeira vez da Mongólia, onde esteve a trabalhar como chefe de missão da Caritas Internacional. A história foi avançada pelo DN e produziu centenas de mensagens de apoio. O que Bruno agradece: "A pergunta que sempre fazemos é: no fim, quem adotou quem? Obrigada do coração todo o amor que têm enviado e que têm partilhado".

A história do amor à primeira vista pela cadela mongol e a saga que foi trazê-la para Portugal, foi acompanhada no Facebook e pela imprensa.

"Estava a ir para casa a pé e vi a cadela nos escombros de uma demolição, a fazer um ninho no meio do lixo. Olhou para mim com uns olhos todos melosos mas resisti. Sou doido por cães mas era uma complicação, estava num país estrangeiro, do outro lado do mundo. E fui para casa. Cheguei lá e vi que tinha uns restos de comida. Resolvi levar-lhos. E ela, apesar de estar cheia de fome, em vez de comer preferiu brincar comigo. Foi isso que me conquistou", escreveu Bruno na rede social.

Isto aconteceu em fevereiro-março, em Ulan Bator, a capital da Mongólia. Bruno, tinha 40 anos acabados de fazer e era desde outubro de 2017, chefe de uma missão da Caritas Internacional para formar agricultores e ajudar em projetos de agricultura, em microcrédito e gestão de resíduos de demolição.

Bruno ainda hesitou em resgatar a cadela, mas não conseguiu deixar de pensar o que lhe aconteceria se a deixasse na rua. É que o pelo deste cão tradicional da Mongólia é usado para fazer casos e botas. Muito provavelmente Muxima, o nome que lhe deu, seria caçada para depois ser estripada viva. As imagens de terror perseguiram Bruno, que acabou por a levar para casa.

Mas quando terminou a sua missão na Caritas, na hora de regressar a Portugal, percebeu que não se conseguia despedir dela apesar de tencionar deixá-la entregue a quem a cuidasse bem. Como o processo para a trazer foi complexo e demorado acabou mesmo por partir sem Muxima, sem nunca desistir de a conseguir adotar.

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