"A comida sempre foi o meu escape". Cirurgias da obesidade que mudam vidas

O bypass gástrico e a gastrectomia vertical são as cirurgias de obesidade mais praticadas em Portugal. A banda gástrica caiu em desuso porque provou ser "a menos eficaz de todas e a mais perigosa". Mas o tratamento cirúrgico da obesidade é a especialidade com maior nível de incumprimento nos tempos máximos de espera no SNS. Este sábado é dia de luta contra obesidade.

"Não tinha autoestima, nem vontade sequer de sair de casa, de conviver. Não gostava de me ver e nem pensar em comprar roupa. Caí no poço mesmo". Foi assim, "completamente arrasada" psicologicamente, que Vanda Quitério chegou ao cirurgião Carlos Vaz em 2017, ano em que fez uma revisão do bypass gástrico que tinha realizado em 2003. Uma das cirurgias de obesidade mais praticadas em Portugal e que lhe mudou a vida.

Mas a história desta mulher, de 49 anos, que vive em Corroios, não começa aqui. Em 1996, pesava 170 quilos, submeteu-se a uma banda gástrica e perdeu mais de 90. A sua luta contra os quilos a mais estava, no entanto, longe de terminar. Em criança sempre foi "cheiinha", recorda ao DN Vanda Quitério, que nos conta a sua história em vésperas do Dia Nacional de Luta contra a Obesidade, que se assinala sábado. O problema vem da infância e à medida que os anos passavam o peso aumentava. Não escapou às críticas e aos comentários maldosos. "Aquilo que hoje se chama de bullying eu sofria na escola. Nunca fiz educação física porque tinha vergonha de vestir o fato de treino", confessa.

Aos 18 anos decidiu "partir para a vida sozinha". "Casei cedo, divorciei-me uma primeira vez com 20 anos, voltei a casar. Estive casada 17 anos e divorciei-me há 8", resume Vanda Quitério que agora tem "estabilidade emocional e familiar" com um novo casamento.

Anos depois de se submeter à banda gástrica aumentou 16 quilos na gravidez do segundo filho. Problemas pessoais agravaram o excesso de peso. "Quanto mais comia mais me apetecia comer. Acabava de almoçar e sentia que me faltava algo que eu ia preencher com chocolate". Devorava uma tablete inteira de uma só vez. "A comida sempre foi um escape. Há quem ande com ansiedade e toma um comprimido e eu comia", resume.

Em 2003, Vanda Quitério submete-se a um bypass gástrico. Tinha cerca de 120 quilos e chegou a perder peso, mas não foi suficiente. Andava entre os 85 e os 90 quilos, sempre com oscilações. "Surge um divórcio e volto a não cumprir nada do plano alimentar". Andava a ser seguida no hospital em Coimbra, mas abandonou as consultas. "Foi uma reviravolta muito grande na minha vida. Deixei tudo para trás e a situação complicou-se imenso. A engordar, a engordar". Desta vez, além do excesso de peso tinha anemia.

Uma cirurgia no privado pode custar 16 mil euros

O desconforto que sentia e as dores de estômago levaram-na a uma consulta de gastroenterologia. Fez tratamentos à anemia, mas sem sucesso. Foi a uma nutricionista, fez um plano alimentar, perdeu cinco quilos, mas depressa os recuperou. Meses depois, a médica de gastroenterologia encaminhou-a para Carlos Vaz, cirurgião da CUF Infante Santo, Lisboa, por desconfiar que estava a passar por complicações devido ao bypass gástrico que tinha feito. Antes, Vanda Quitério ainda recorreu ao Serviço Nacional de Saúde, onde, aliás, tinha realizado as cirurgias, mas não obteve resposta. Teve de ir para o privado, onde uma cirurgia de obesidade, dependendo dos casos, varia entre os 8 e os 16 mil euros, conta-nos o cirurgião Carlos Vaz, coordenador do Centro de Tratamento Cirúrgico da Obesidade e Diabetes Tipo 2 da CUF Infante Santo.

Pesava 116 quilos quando expôs a sua situação ao médico. Fez um esforço financeiro e acabou por fazer a revisão do bypass gástrico no hospital privado. Dois anos depois da operação, pesa 59 quilos. Perdeu peso, cumpre à risca o plano alimentar e faz caminhadas. Ganhou saúde e recuperou a autoestima. Mas mais do que isso "renasceu das cinzas", como gosta de dizer Vanda Quitério, que antes da operação "não vestia calças nem calções". "Hoje, sinto-me à-vontade em qualquer lado e não tenho aquele problema de saber se caibo na cadeira. Sinto-me outra mulher, com mais agilidade e energia".

Para Vanda Quitério, a cirurgia é o passo que os obesos precisam "para seguirem em frente no processo, para mudarem de vida". E não esquece o papel que o cirurgião teve nesta mudança. "O doutor Carlos Vaz chegou-me como médico, mas hoje tenho o mais como amigo", afirma, em tom de agradecimento.

Obesos esperam em média 16 meses entre consulta e cirurgia

Mas esta solução ainda está muito longe no horizonte de muitos doentes - em Portugal são cerca de 1,9 milhões de obesos e há 5,9 milhões com excesso de peso. O tratamento cirúrgico da obesidade é a especialidade que regista uma maior percentagem no incumprimento nos Tempos Máximos de Resposta Garantidos (TMRG) nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS), de acordo com a análise divulgada recentemente pela Entidade Reguladora da Saúde (ERS).

Já antes o regulador tinha mostrado dados que refletem a gravidade do problema. O estudo "Cuidados de saúde prestados no SNS na área da obesidade", divulgado em março deste ano, revela que o tempo médio de espera para uma consulta de obesidade foi de oito meses em 2017, tendo o utente esperado em média 16 meses desde a indicação para a consulta até à cirurgia.

"É um problema, porque é muito tempo", considera o cirurgião Carlos Vaz. Reconhece que os números podem até ser maiores. "Se no Estado fossem aceites para serem operados todos os doentes com obesidade de grau 2 e com comorbilidades esses tempos ainda seriam maiores", analisa o médico.

Mas afinal quem são os doentes elegíveis para a cirurgia de obesidade ou bariátrica, como também é conhecida? "Todos os doentes com obesidade grau 3 ou mórbida, desde que não haja contraindicações, ou doentes com obesidade grau 2 e que tenham, pelo menos, duas doenças associadas", responde. Mas a realidade é diferente. "O que acontece é que no nosso SNS tendem a estar doentes com obesidade de grau 3 e os doentes com obesidade de grau 2 ficam mais atrás nas listas de espera ou nem chegam a entrar. Isso é uma realidade que não vem sequer refletida nesses números", constata o cirurgião.

São tempos de espera demasiado longos e um acesso difícil ao tratamento cirúrgico da obesidade, uma doença crónica que a Organização Mundial de Saúde classifica como uma epidemia global do século XXI. É um problema de "tesouraria" do nosso Estado, diz Carlos Vaz. Na opinião do médico, para reverter esta realidade seria necessário "haver mais recursos, cirurgiões a operar e blocos operatórios disponíveis".

E tendo em conta que as estruturas de saúde pública estão sobrecarregadas, a solução mais prática e "menos onerosa" para o Estado seria "convencionar estes serviços a instituições fora do SNS", defende o cirurgião. "São muitos doentes para os recursos que temos no SNS", justifica.

E resolver o problema significaria uma mudança de vida para milhares de portugueses, não só pelos ganhos na saúde, na redução do peso, a resolução ou redução de diversas doenças associadas à obesidade, como a hipertensão arterial, a diabetes ou a apneia obstrutiva do sono. Sem falar na qualidade de vida que estes doentes perderam e através da cirurgia conseguem recuperar. "Não conseguem fazer ou têm muitas dificuldades nas coisas do dia-a-dia, começando pela sua higiene, atar os atacadores ou o simples cruzar de pernas quando se sentam", especifica Carlos Vaz. "Há um aumento da esperança de vida, a mortalidade diminui", acrescenta.

Melhorar o acesso e reduzir os tempos de espera também traria benefícios para o próprio Estado. De acordo com cálculos efetuados por um estudo espanhol, quando se comparam os custos da cirurgia de obesidade ao tratamento não-cirúrgico, a operação está associada a uma poupança esperada de 7742 euros por doente ao final de 10 anos. Ao fim de 30 anos, estima-se que a poupança por doente poderá chegar aos 35 mil euros, devido à redução das doenças associadas à obesidade. "Aqui o grande problema em Portugal e em outros países, quer do Estado quer das seguradoras, está na capacidade financeira em investir no futuro", argumenta Carlos Vaz que há cerca de 18 anos faz cirurgias de obesidade.

"Temos muitas pessoas que vejo que acabam por não ser operadas porque o seu hospital da área da residência do SNS não lhe dá resposta ou porque a sua seguradora não inclui a operação e eles não podem pagar", lamenta o médico.

"Temos muitas pessoas que vejo que acabam por não ser operadas ou porque o seu hospital da área da residência do SNS não lhe dá resposta e porque a sua seguradora não inclui a operação e eles não podem pagar"

E quando se fala em cirurgia de obesidade há atualmente quatro opções, sendo que a colocação da banda gástrica é uma intervenção que "foi muito abandonada". "Faz-se muito pouco, porque é a cirurgia que provou ser a menos eficaz de todas e é a mais perigosa", explica Carlos Vaz. Inicialmente, pensava-se o contrário, que era a mais segura. "Como implica a colocação de um corpo estranho que depois vai ficar no doente, sabemos hoje que é a cirurgia que dá mais complicações", acrescenta. As que se fazem mais no nosso país e que revelam ser mais eficazes são a gastrectomia vertical e o bypass gástrico.

Banda gástrica: "É uma operação em que é colocado um anel por fora do estômago". Atua de forma restritiva, ou seja que limita a quantidade de alimentos que são ingeridos. é uma intervenção que é pouco usada atualmente pelos cirurgiões uma vez que esta técnica provou ser a menos eficaz e a que implica mais complicações ao doente.

Gastrectomia vertical, ou de manga: O cirurgião corta parte do estômago. O corte é feito numa linha vertical, "de maneira a que o estômago, que era uma bolsa, um saco, passa a ser quase como se fosse um tubo na continuidade do esófago". O estômago fica mais pequeno e recebe menos comida. E há um efeito adicional, explica o médico Carlos Vaz. Ao retirar-se uma parte do estômago é reduzida a produção de determinadas substâncias, como a hormona que regula o apetite, conhecida por grelina. "O que ajuda no processo de perda de peso", uma vez que além da redução do estômago há uma redução do apetite. Obtêm-se as duas coisas numa só cirurgia.

Bypass gástrico: Também nesta operação faz-se uma redução do estômago, mas este permanece na sua totalidade. "Separa-se o estômago em duas bolsas: uma muito pequenina e outra bolsa maior". E é a bolsa mais pequena que fica no circuito dos alimentos e a outra fica excluída neste processo. A bolsa maior continua a funcionar e a "produzir sucos digestivos". No bypass gástrico faz-se também "a derivação intestinal". "Para que o intestino não absorva tantas calorias e nutrientes". Ou seja, esta cirurgia reduz também a extensão do intestino em cerca de 20%.

Desvio biliopancreático: Esta operação significa "uma derivação grande" quando comparada com o bypass gástrico."Enquanto que no bypass há uma derivação de cerca de 20% do intestino", num desvio biliopancreático os valores podem atingir cerca de 60% do intestino.

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