A cadela mongol e o português que atravessa o mundo para a salvar

Na Mongólia, os cães são caçados para fazer sapatos e chapéus. Seria o destino de Muxima se Bruno Neto não a tivesse adotado. Agora, vai atravessar o mundo para a ir buscar, porque Portugal não deu visto à amiga mongol que a ia trazer.

Já aconteceu a toda a gente que gosta de cães. Vamos na rua, passamos por um, ele olha-nos nos olhos. Falamos-lhe, fazemos-lhe festas, ele a nós, brincamos. Às vezes vem connosco até casa, a cabriolar, sorridente, crendo que encontrou finalmente a sua pessoa. Hesitamos, imaginamos levá-lo para dentro: somos capazes de mudar a vida toda por este cachorro? Podemos ficar com ele? Temos amor que chegue para a responsabilidade? Vamos amá-lo e cuidá-lo para sempre, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe, como tem de ser e ele merece?

Muitas vezes - quase sempre - a história acaba com uma porta fechada e o cão do outro lado, desapontado, incrédulo, a cauda agora quieta enquanto espera, espera, espera até desistir. Não foi assim com Muxima e Bruno Neto. Nada assim. "Estava a ir para casa a pé e vi a cadela nos escombros de uma demolição, a fazer um ninho no meio do lixo. Olhou para mim com uns olhos todos melosos mas resisti. Sou doido por cães mas era uma complicação, estava num país estrangeiro, do outro lado do mundo. E fui para casa. Cheguei lá e vi que tinha uns restos de comida. Resolvi levar-lhos. E ela, apesar de estar cheia de fome, em vez de comer preferiu brincar comigo. Foi isso que me conquistou." Amor à primeira vista, escreveu no Facebook.

"Estava a ir para casa a pé e vi a cadela nos escombros de uma demolição, a fazer um ninho no meio do lixo. Olhou para mim com uns olhos todos melosos mas resisti. Sou doido por cães mas era uma complicação, estava num país estrangeiro, do outro lado do mundo."

Isto foi em fevereiro-março, em Ulan Bator, a capital da Mongólia. Bruno, 40 anos acabados de fazer, é trabalhador humanitário há 15 e estava no país desde outubro de 2017, como chefe de uma missão da Caritas Internacional para formar agricultores e ajudar em projetos de agricultura, em microcrédito e gestão de resíduos de demolição.

"Estava baseado na capital, mas tinha trabalho noutras províncias. Foi a primeira vez em que trabalhei num país em que não havia nada que nos ligasse, nenhuma língua em comum. Trabalhei na África lusófona, na francófona, na América do Sul, no Médio Oriente. Mas na Mongólia praticamente ninguém fala inglês, porque até agora não precisaram. Para trabalhar tinha tradutor, mas quando estava na vida normal, às compras, por exemplo, era linguagem corporal. E quando ia ao supermercado, estava tudo escrito em cirílico e muitas vezes comprava coisas que não era nada do que queria. Eles têm muito peixe fumado e uma vez comprei uma coisa que estava ao lado do peixe fumado, com muito bom aspeto, para o jantar. Quando abri era gordura de ovelha." Ri. "É um país que vive sobretudo da pastorícia, da exportação de carne. Exportam muita carne de cavalo. Estão a começar com agricultura, mas há grandes dificuldades, por causa das temperaturas. No verão têm quatro meses em que é possível plantar e colher alguma coisa. É muito duro - é o sítio em que as pessoas são mais resilientes de todos os que já visitei." Mas também, de todos os 32 nos quais trabalhou, "o mais bonito em termos de beleza natural. Tem paisagens fabulosas. As estepes... É lindo. E as pessoas que vivem ali no meio de nada de uma hospitalidade extraordinária."

"Ia ser estripada viva"

Hospitalidade, precisamente. Voltemos àquele dia em que Bruno se cruzou com a bola de pelo que fazia o ninho no lixo. "Estive uma hora ali com ela a pensar na vida. Liguei a uma colega mongol que gosta de cães e perguntei se ela poderia ficar com ela se eu não a pudesse trazer para Portugal. Sou muito racional - apesar de ter impulsividade sou extremamente consciencioso, não podia estar a brincar com a vida de uma cadela. Se a minha colega dissesse que não dava, ter-me-ia ido embora. Mas ela disse que sim, que ia ter comigo para ver o cão. E aí levei a cadela para casa e dei-lhe um banho - tomámos um banho juntos."

E a cadelinha cinza - de um bonito tom de cinza claro, capturado numa das fotos que postou no Facebook, metamorfoseou-se: "Ficou linda, entre o branco e o dourado", escreveu no post, publicado a 4 de abril. "É muito meiguinha e brincalhona. Dei-lhe o nome de Muxima, que significa coração em kimbundo [uma das línguas nacionais de Angola]."

O nome tem uma história. "Quando estive em Angola trabalhei para uma organização espanhola. Quando eu ia a Luanda ficava no complexo dessa organização. E havia lá uma cadela abandonada a que chamei Muxima. Tinha sido engravidada pelo cão do embaixador, e quando teve os cachorrinhos tiraram-lhos e deram-lhe um pontapé, só não a punham na rua porque não a apanhavam, ela fugia sempre. Sempre que lá ia dava-lhe comida e água, e mesmo assim ela não se chegava a mim: de tão maltratada que era não podia confiar. Mas um dia cheguei e não a vi. Perguntei e os guardas disseram que os espanhóis tinham conseguido livrar-se dela: deram-lhe um pontapé na cabeça, ficou atordoada e conseguiram pô-la na rua. Foi logo atropelada."

"Estes cães são caçados para fazer botas e chapéus. É horrível. Tiram-lhes a pele com eles ainda vivos, porque têm uma teoria qualquer de que se não for assim a pele estraga-se. São estripados vivos."

A segunda Muxima teria como provável um fim ainda mais terrível. "Quando a encontrei, parecia uma ursa. Tinha um pelo incrível. Não sabia na altura, era totalmente ignorante, mas estes animais perdem-no todo na estação quente. Porque a Mongólia tem uma amplitude térmica dos menos 50 aos mais 35. E ela é cruzada com cão tradicional mongol, por isso tem este pelo extraordinário no inverno. Adora neve, gosta de estar na rua com menos 40 graus." O pelo tão bom destes cães, porém, é o seu azar: "São caçados para fazer botas e chapéus. Tudo o que é casaco de pele lá tem pele de cão, é a pele usada pelos pobres. Quando fui para lá já tinha visto um documentário sobre isso. E no mercado perguntava sempre de que animal eram as coisas, porque tinha medo de que fosse de cão. É horrível. Eles tiram-lhes a pele com eles ainda vivos, porque têm uma teoria qualquer de que se não for assim a pele estraga-se. São estripados vivos."

"Quando ia na rua com a Muxima havia gente a dizer: "Esse cão é espetacular para fazer botas, não queres vender?" Na Mongólia não há nenhuma paixão pelo cão. É visto como mais um animal."

A imagem impossível para a conversa. A voz de Bruno volta noutro tom: "Quando depois ia na rua com a Muxima havia gente a dizer: "Esse cão é espetacular para fazer botas, não queres vender?" Na Mongólia não há nenhuma paixão pelo cão. É visto como mais um animal. Quando vi a cadela foi na altura em que os caçadores iam para a cidade caçar os cães. Não tinha grandes hipóteses de sobreviver. Ainda por cima gostava de pessoas. Uma das coisas divertidas é que lá ensinam as crianças a ter medo de cães, pelo que era de chorar a rir ver mongóis de dois metros, enormes, que iam na rua a olhar para o telemóvel e de repente a Muxima ia a correr para eles para brincar e eles desatavam aos gritos histéricos."

"Pediram 5700 euros para a trazerem"

Gostar de pessoas. Como Bruno. Natural do Tramagal, Santarém, fez o curso de animação sociocultural com especialização em desenvolvimento comunitário. Em 1998, fundou uma associação de voluntários, a Cistus, na terra natal. "Começámos a trabalhar com programas da UE através do Instituto da Juventude e fui para a Jordânia como voluntário. Fiquei lá dois anos a trabalhar com refugiados e depois fui contratado pela fundação do rei para um programa de liderança." Casou-se com uma jordana e vieram os dois para Portugal. "Tentei ser uma pessoa normal mas passado um ano percebi que não era e parti para as Honduras, onde estive um ano. No regresso tentei ser normal de novo e estive três anos a gerir a campanha pobreza zero." Mas lá voltou ao mesmo; dessa vez para África, onde esteve seis anos. "Primeiro em Angola, depois no Congo, na zona este, numa cidade - Goma - rodeada por 43 grupos armados e ao lado de um vulcão que em 2002 destruiu metade. Foi considerada a cidade mais perigosa do mundo pela National Geographic." Daí para a Serra Leoa, para trabalhar com uma organização médica no combate ao ébola. E depois da Serra Leoa, a Mongólia.

"Tenho estado a pensar nisto tudo e acho que ter a Muxima é também uma forma de ficar agarrado a uma coisa, é querer parar, não querer mais ir para países esquisitos. Acho que é a crise dos 40." Dá uma gargalhada. "Desde que cheguei, no fim de agosto, já tive convite para ir para a Somália, para a República Centro-Africana e para o Iraque. Mas eu digo: não posso, tenho uma cadela. Quero ficar cá. A minha vida tem sido um caos. Todos os anos estou a começar do zero, vou sempre para sítios complicados onde aprendo imenso mas que desgastam emocionalmente. Estou com vontade de ficar cá - mas não sei se o país me quer."

"Acho que ter a Muxima é também uma forma de ficar agarrado a uma coisa, é querer parar, não querer mais ir para países esquisitos. Acho que é a crise dos 40. Desde que cheguei já tive convite para ir para a Somália, para a República Centro-Africana e para o Iraque. Mas eu digo: não posso, tenho uma cadela."

Para já este país que o condecorou como Cavaleiro da Ordem da Liberdade, em 2015, pelas mãos do então presidente Cavaco Silva, fez-lhe cara feia. "A Muxima não pôde vir comigo porque eu não sabia que era tão complicado viajar com um cão de fora da UE e não comecei a tratar das coisas a tempo. É preciso vacinar para a raiva, fazer duas análises a seguir, etc. Como não dava para a trazer quando vim, porque ainda não tinha o resultado da segunda análise - que tem de ir aos EUA para ser certificada, por qualquer razão - combinei com uma ex colega que ela traria a cadela, a minhas expensas. Ainda pensei que podia mandá-la vir através de uma transportadora mas pediram-me 6500 dólares [5700 euros], um disparate. Então, para a minha amiga poder tirar visto, apresentei tudo e mais alguma coisa como prova de responsabilização. Até pediram o saldo da minha conta bancária dos últimos seis meses. Nem os meus pais sabem quanto tenho na conta mas tive de mandar tudo para a embaixada da Alemanha na Mongólia, porque como Portugal não tem lá representação é através deles que se processa, em conjugação com a embaixada de Portugal na China." Embaixada essa sobre a qual tem uma história cómica para contar. "Liguei para lá e a senhora que me atendeu perguntou se era mesmo português, porque se não fosse ela não me podia ajudar. E insistia. A ponto de de perguntar como queria ela que lhe provasse ser português, se queria que lhe cantasse uma canção. É com cada uma, realmente."

"Toda a gente goza comigo"

Conseguir um visto para uma pessoa de fora da UE e de um país "estranho" é uma coisa complicada - muito mais complicado do que obter autorização do ministério da Agricultura para trazer a cadela. "Juntei ao pedido informação sobre o que sucede a cães como ela na Mongólia, com links. E foram muito simpáticos e eficientes. Explicaram tudo o que era preciso fazer, as quarentenas, etc." Já a amiga de Bruno, apesar de não ser possível veículo de raiva, foi tratada como muito mais perigosa. Para começar, ele teve de assumir que a jovem de 24 anos, que estudou dois anos na Europa, onde fez o mestrado, e que tem contrato de trabalho na Mongólia, ficaria em sua casa, que seria ele a alimentá-la e a assegurar as despesas durante os 10 a 12 dias que ela permaneceria no país. Teve para tanto de provar ter casa em seu nome, enviando cópia da escritura para a Mongólia, assim como documentos originais, em papel, por si assinados, um atestando ser o dono da cadela e autorizando a amiga a tratar de tudo o que respeitava ao animal, outro com a declaração de responsabilidade para o visto. "Até enviei a minha condecoração, para mostrar que sou uma pessoa respeitável." Ri. Não serviu de nada, porém.

"A Muxima deveria ter chegado na semana passada. A minha amiga vive com os pais e a cadela é grande, não dá para pedir para ficar mais tempo com ela. Sinceramente, não me apetecia nada viajar agora, mas vou lá eu buscá-la. Já comprei a viagem."

"Não deram o visto à miúda - jamais pensei que ia ter estes problemas. Já trouxe a Portugal iranianos, iraquianos, todo o pessoal do Magreb, malta do Curdistão - e consegui vistos para toda a gente." A resposta negativa ao pedido veio em alemão. Bruno não fala a língua, pelo que teve de pedir ajuda para a tradução. "Recusaram por três motivos. Primeiro, porque segundo eles "não foram apresentadas provas suficientes de que a pessoa terá condições para garantir a sua estadia no país, alimentação, capacidade de transporte entre cidades, capacidade de regresso ao país de origem, capacidade de sustentação..."; segundo, porque "as informações apresentadas sobre as condições e o objetivo da estadia não são credíveis"; terceiro, "a sua intenção de sair do território soberano dos Estados membros, antes do visto acabar, não pôde ser determinada/comprovada." Ou seja, a minha palavra não serviu de nada."

Inconformado, enviou uma exposição, acompanhada de todo o processo, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Nela, conclui: "Não posso estar mais desapontado, não apenas pelo transtorno desta minha colega não poder viajar, mas sobretudo porque sinto que valho nada para o Estado português (...). Questiono de igual forma os valores e ideais europeus, que sempre tenho defendido, porque esta coercividade passiva é pobre e pequena."

"Estou excitado com esta viagem. Não por me apetecer viajar, mas porque tenho saudades dela, saí de lá há dois meses e tal. Isto é uma novela, não é? Acho que a alegria dela quando me vir vai ser igual à minha."

O MNE não respondeu até agora e Bruno não vai esperar mais. "A Muxima deveria ter chegado na semana passada. A minha amiga vive com os pais e a cadela é grande, não dá para pedir para ficar mais tempo com ela. Sinceramente, não me apetecia nada viajar agora, mas vou lá eu buscá-la. Já comprei a viagem."

São 1300 euros, ida e volta (o mesmo que pagaria pelo bilhete da amiga). O transporte da cadela é muito barato - na Aeroflot, custa cerca de 60 euros. "Toda a gente goza comigo pelo dinheiro que já gastei. Contando com as vacinas e a papelada para o visto, foram uns 2500 euros." É muito dinheiro, mas Muxima só há aquela.

"Viajo a 30 e regresso a 10 de novembro. São 5.35 horas até Moscovo, com uma escala de quatro e mais seis horas para Ulan Batar. No regresso, a escala será de 10 horas." Não é pera doce, nem para ele nem para a cadela, mas vai aproveitar para passar uns dias com os nómadas mongóis. "Estou excitado com esta viagem. Não por me apetecer viajar, mas porque tenho saudades dela, saí de lá há dois meses e tal. Estava ontem a falar com a minha amiga por Skype e ela disse "vamos lá a ver se ela se lembra de ti". E chamou-a. Comecei a falar com a Muxima, como se fala com os cães, e a minha amiga disse-me que ela ficou louca, à procura de mim por todo o lado."

A voz enrouquece. "Isto é uma novela, não é? Acho que a alegria dela quando me vir vai ser igual à minha."

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