200 anos de Florence Nightingale. "O que nós andámos para aqui chegar"

O DN desafiou Maria Augusta Sousa, vice-presidente da primeira Ordem eleita em Portugal, e depois eleita duas vezes bastonária, para escrever sobre a evolução da profissão, a propósito dos 200 anos do nascimento da mulher que tornou a enfermagem uma profissão da atualidade.

Tem 73 anos e mais de 50 de profissão. Tantos quantos os de luta pela valorização e pelos direitos dos enfermeiros. Maria Augusta Sousa conheceu as lutas sindicais ainda no Antigo Regime, continuou no pós-revolução até conseguir, juntamente com outros, a criação de uma Ordem para a profissão. Hoje, neste 12 de maio, que diz ter uma relevância ainda maior, em tempos de pandemia, cita José Mário Branco, para dizer à classe, neste Dia Internacional dos Enfermeiros:

"...O QUE NÓS ANDÁMOS PARA AQUI CHEGAR!"

Estamos a 200 anos de distância do nascimento de Florence Nightingale, considerada a pioneira da enfermagem moderna.

Há razões para esta afirmação. A data de hoje, 12 de maio, Dia Internacional do Enfermeiro, assumido pelo Conselho Internacional dos Enfermeiros (ICN) é celebrada em todo o mundo por cerca de 20.000.000 de enfermeiros em homenagem e reconhecimento àquela que marcou, desde o sec XIX, o percurso de profissionalização que conduziu ao que hoje é a enfermagem como disciplina do conhecimento e profissão de saúde.

Tem sido um percurso longo e os marcos que permitem identificar a sua evolução não são uniformes em todos os países e contextos. Os condicionamentos poíiticos e sociais dos vários contextos permitiram chegar em tempos distintos ao que significou a rutura na ideia social da Enfermagem nos finais do sec XIX ligada à figura e obra de Florence Nightingale (1) onde assumem particular relevo a criação, em 1860, da primeira escola secular de enfermagem no Hospital de St. Thomas, em Londres, e o livro "Notes on Nursing: what it is and what it is not" (1969) (2) assim como a criação de gráficos multicoloridos, facilitando a compreensão da necessidade de se adotarem medidas sanitárias nos hospitais de guerra, demonstrando pelos gráficos os efeitos estatistificados de salvar muito mais vidas dos feridos. (3)

Em Portugal, é bom relembrar que na década de 1870, "falar de Enfermagem era falar de um grupo indiferenciado de pessoal hospitalar ou dos asilos, só no sec. XX a enfermagem emerge como grupo socio-profissional" (4) .

Desde então foi desenvolvido um percurso de lutas pelo reconhecimento social que culminou no final da década de 80 com a integração do ensino de enfermagem no sistema educativo a nível do ensino superior e na década de 90: (i) como profissão intelectual e científica na Classificação Nacional das Profissões; (ii) a consagração da autonomia no exercício profissional (com o REPE); e (iii) a delegação do Estado na profissão para a sua auto-regulação como instrumento de melhor salvaguardar os interesses dos cidadãos no que aos cuidados de enfermagem diz respeito (criação da Ordem).

Hoje é reconhecida a imprescindibilidade dos cuidados de enfermagem para a saúde dos cidadãos, em todos os contextos, assim os enfermeiros serem um dos pilares essenciais nos sistemas de saúde, seja na prestação dos cuidados seja na gestão das organizações, ou ainda nas funções de assessoria.

Este quadro de reconhecimento só é possível porque o exercício profissional assenta num elevado nível de formação, ministrada nas instituições de ensino superior por enfermeiros com a qualificação académica requerida e pela responsabilidade ética e deontológica partilhada que a todos é exigida.

Este 12 de maio de 2020 assume particular relevância pelo contexto de saúde que a pandemia covid-19 tem colocado, de exigência aos profissionais de saúde em geral e aos enfermeiros em particular. Espera-se que o poder político transforme o reconhecimento social em reconhecimento da importância dos profissionais para a garantia do nosso SNS. Tal reconhecimento tem de passar pela valorização do trabalho multidisciplinar e multiprofissional, pela dignificação das carreiras profissionais e consequente revalorização salarial.

Essa será a melhor homenagem que a sociedade pode fazer à pioneira da enfermagem moderna 200 anos após o seu nascimento mas também, e fundamentalmente, por essa via aos enfermeiros de hoje.

Bibliografia

1) Nunes, Lucilia, Um Olhar sobre o Ombro - Enfermagem em Portugal (1881-1998), Lusociência - 2003, pag 19

2) Tradução livre dos títulos dos capítulos: " ventilação e aquecimento"; " saúde nas casas"; pequena gestão (como as coisas são feitas pelos outros quando não se está lá)"; " variedade de ruído (ambiente)"; levar comida e que tipos de alimento"; "limpeza leve"; "limpeza dos quartos"; " Limpeza pessoal"; "conversar sobre esperanças e conselhos (as falsas garantias e recomendações de familiares e amigos para os doentes)"; "observação dos doentes"

3) Costa, Roberta e altri, O legado de Florence Nightingale: uma viagem no tempo, Texto contexto - enferm. vol.18 no.4 Florianópolis Oct./Dec. 2009 - https://doi.org/10.1590/S0104-07072009000400007

4) Ibden: Nunes, Lucilia, pag 20

Enfermeira, vice.presidente e bastonária da Ordem dos Enfermeiros por duas vezes, (2004-2007) e (2008-2011). Especializou-se em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica em 1992, na Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende, e possui ainda uma pós-graduação em Sociologia de Saúde, pelo Instituto Superior de Saúde.

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