Tudo começou às 19 horas do dia 26 de Outubro de 2014. Por essa altura, Aécio Neves, do PSDB, liderava as projeções eleitorais à frente de Dilma. Mas numa hora, o resultado inverteu-se e a candidata do PT reelegeu-se. Aécio, a quem Lula (PT) chamou de “filhinho de papai”, não gostou e exigiu recontagem, apesar da diferença ser de 3,5 milhões de votos (mais ou menos metade dos eleitores portugueses) e mesmo tendo em conta que o sistema de votação eletrónico brasileiro é dos mais fiáveis do mundo. Além de fazer Aécio passar por uma figura triste, a recontagem não deu em nada..Uma das primeiras medidas de Dilma, que passara a campanha a chamar a oposição de pessimista, foi convidar para ministro da Fazenda um dos mais pessimistas membros da equipa de Aécio – um sinal de que o seu otimismo de campanha era uma farsa. De resto, compôs um executivo assustador com quase 40 ministérios, para abrigar toda a sorte de oportunistas, incluindo um titular da educação que não gostava de professores, um chefe da ciência contrário a inovações tecnológicas e um ministro dos transportes escolhido na prisão pelo líder do seu partido condenado no Mensalão..Com a economia em frangalhos e uma Câmara dos Deputados disposta a sabotar qualquer tentativa de a recuperar através das manobras de Eduardo Cunha, psicopata político do PMDB, a oposição e a própria situação começaram a ver brechas para derrubar Dilma. Faltava um detalhe: motivo. Encontraram-no nas pedaladas fiscais. O expediente foi usado por todos os antecessores dela e, no limite, pode levar ao impeachment de dezenas de governadores e centenas de prefeitos pelo país que também o usam ou usaram, incluindo alguns dos que a condenaram, mas os meios não importam, apenas o fim..Em paralelo, a Operação Lava-Jato chegou a Lula. Depois de no Mensalão, o ex-sindicalista ter alegado aquilo a que os anglosaxónicos chamam de idiot defense (não sei de nada, não fazia ideia, não tenho conhecimento), do Petrolão não conseguiu fugir. Mas tentou: Dilma nomeou-o à última hora ministro para escapar das garras do juiz de primeira instância Sergio Moro..Entretanto, Moro, num ato de completo desvario pelo qual mais tarde pediu perdão compungido, resolveu divulgar à imprensa diálogos de Lula, incluindo com a presidente, e dos seus familiares, incluindo conversas pessoais da mulher e da nora..Pelo meio, o derrube de Dilma prosseguia a todo o gás, conduzido por Cunha, às claras, e pelo vice-presidente Michel Temer (PMDB), na sombra. Comparado a um mordomo de filme de terror por um colega, enfrentando boatos de que é satanista e devendo assumir a presidência já nesta sexta-feira 13, Temer fez até hoje duas comunicações ao país: uma por carta, outra por whatsapp e ambas tornadas públicas, para quem acreditar nele, por engano..Entretanto o Supremo resolveu, enfim, afastar Cunha, tendo em conta um pedido da procuradoria que datava de 2015, antes, portanto, dele conduzir o impeachment da presidente. Na sessão de votação do impeachment, em que Cunha foi chamado de gangster, corrupto e ladrão, houve elogios a um torturador, cuspidelas e manifestações de terceiro-mundismo a rodos..Enterrado Cunha, que de útil passou a embaraçoso, entrou Waldir Maranhão (PP). Maranhão é alguém que consegue defender Deus e o Cunha ao mesmo tempo e que se submete à oposição e ao governo em simultâneo. Este último, aproveitou a vulnerabilidade patológica de Maranhão para pressioná-lo a anular aquela votação do impeachment, numa espécie de golpe do golpe. Sem sucesso, porém. Até ver....Esta forma de fazer política só podia existir no mais extraordinário país do globo, para o bem e para o mal. O país onde se inventou um desporto como o Vale Tudo, que reúne todas as formas de luta, e um género cinematográfico como a Pornochanchada, meio comédia, meio erótico. A diferença é que até no Vale Tudo há regras e até na Pornochanchada há vergonha.