Os serviços de informações estão novamente sob escrutínio político. Um artigo da Visão afirma que está na forja um terceiro serviço, para lá do SIS e do SIED, submetido ao controlo estrito do primeiro-ministro. O Governo desmentiu, mas o secretário-geral dos serviços, o magistrado do Ministério Público Júlio Pereira, vai ter de prestar esclarecimentos no Parlamento..Para lá desta questão, que a confirmar-se seria de enorme gravidade, importa que seja esclarecida a reestruturação dos serviços. A lei-quadro que dá as balizas legais à reestruturação resultou de um consenso entre PSD, CDS e PS e foi publicada há mais de um ano. Está, portanto, na hora de produzir a adequada regulamentação. Júlio Pereira - que se seguiu no cargo a Domingos Jerónimo, ex-secretário de Estado no Governo de Durão Barroso, mas verdadeiramente sucedeu ao general Pedro Cardoso, que esteve mais de duas décadas no lugar - tem em mãos uma difícil tarefa..A reorganização administrativa está a passar pela extinção de estruturas duplicadas (bibliotecas, centros de documentação, serviços de segurança, etc.) e pela reinstalação num edifício único, deixando o SIS o prédio da Rua Alexandre Herculano. Nas actuais circunstâncias de contenção é óbvio que também aos serviços chegaram perdas de regalias em matéria de reformas e bonificações salariais..Num outro plano, estão a ser reactualizadas as competências do secretário-geral que implicam a perda de poder dos directores de serviços, já que será o primeiro e não estes a relacionar-se com a tutela política. E não há coisa que faça mais sentido do que essa reactualização de competências do secretário-geral depois de um tão longo consulado como foi o do general Pedro Cardoso e da manutenção de uns serviços que trabalhavam em função de ameaças à segurança do Esta- do que hoje não existem ou subvertiam mesmo os princípios do regime democrático. O patético caso do SIS durante os anos 80, na vigilância a movimentos estudantis e sindicais, ou mesmo dirigentes de partidos de esquerda, é um triste exemplo..Os serviços de informações viveram um longo ciclo de indefinição estratégica ou mesmo de crise em que todas as tentativas de reestruturação falharam. Agora, com o mundo que o 11 de Setem- bro de 2001 redesenhou, ou as secretas se credibilizam e se tornam verdadeiramente úteis ou não fazem sentido. É essa a tarefa que Júlio Pereira tem pela frente e que sempre contará com enormes resistências.