São Miguel

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Esta manhã até as casas de Santo Amaro do Pico se viam. Que digo eu? Até São Miguel se via, do miradouro das Veredas que se debruça sobre o Posto Santo.

Foi a primeira vez que vi São Miguel.

Começámos a subir a Canada da Serra e avistei logo os feixes de luz rasgando as nuvens. Um estava mesmo sobre Santo Amaro. Foi curioso porque São Jorge, bem mais perto, se escondia numa penumbra.

Ao chegar ao Charcão detive-me a olhar o mar, cristalizado como um espelho, ou um espectro. Havia uma corveta ao largo de Angra. Ergui o telefone para tirar uma fotografia e ouvi um carro parar atrás de mim:

- E ali do miradouro de cima vê-se São Miguel! - exultou um rapaz. - Vê-se mesmo bem, apesar de ficar a mais de 400 quilómetros.

Sorri, porque o primeiro sinal da falta de mundo é sempre a desproporção. São Miguel não fica sequer a metade. Mas não deixei de registar que nem quando vão de carro para o trabalho, atrasados, acelerando pelos atalhos do mato, os homens da minha terra deixam de procurar o belo. Provavelmente, isso diz tanto sobre ela como sobre eles.

Pelo meio, distraí-me com uma ave que não consegui identificar. Não era um milhafre nem uma gaivota, e a dada altura mergulhou sobre um animalzinho num cerrado, o que me tirou ilusões sobre ser um cagarro atrasado também. Um cagarro tão atrasado na sua viagem para Sul mereceria a minha comiseração - já não chegaria ao seu destino.

Ao aproximar-me do miradouro de cima, lembrei-me de conferir. E, de repente, lá estava ela: São Miguel, a ilha grande. Longe, quase invisível, bem por cima da metade mais baixa do Ilhéu das Cabras - uma pequena silhueta de terra contra o sol matinal.

Comoveu-me. Talvez nunca, como hoje, tenha feito tanto sentido para mim aquilo da ilha em frente. Consagrou Nemésio, se preciso fosse, e com isso digo tudo em defesa deste dia.

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