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As excessivas simplificações levam sempre uma água a um moinho bem preciso. É o caso do denominado Dia da Libertação dos Impostos (DLI). Transforme-se a percentagem da carga dos impostos e contribuições sociais face ao produto final em cada ano, em dias de calendário, e chegaremos à data X, a partir da qual cada um de nós já não estará a trabalhar "para o Estado", mas para si próprio. Lido o Orçamento para 2006, conclui uma faculdade de Economia da capital que essa data calhou a 17 de Maio. Um índice com esta crueza baralha várias coisas e lança uma ideia. Reparte o rendimento pelos 365 dias do ano, quando o esforço para o atingir se concentra em 220 dias de trabalho efectivo. Se só a partir do DLI estamos "livres" para trabalhar em nosso proveito, então os direitos sociais que vamos amealhando com a Taxa Social Única são, afinal, para quem? Tudo isto serve apenas para concluir que os impostos devem descer, para que cada um possa "libertar-se" mais cedo e dispor do seu próprio rendimento. A parte cativa corresponderia a andar a trabalhar para o boneco. Ao divulgar este "estudo", o comendador Rocha de Matos, em nome da AIP, disse-o com ar contristado: a carga fiscal e parafiscal tem vindo a crescer nos últimos anos e fez votos que as medidas em curso para redução da despesa pública permitam, "quanto antes, reduzir os 137 dias actuais para o Estado para 100 ou 90." Coisa pouca: uma quebra de 12 pontos percentuais face ao PIB, um descontozinho de 19 550 milhões de euros na carga fiscal. O país modelo deste discurso é a Lituânia! Confesso que me preocupa a ausência de valor acrescentado dos serviços face ao dinheiro que os contribuintes entregam aos poderes públicos. Preocupa-me que ainda haja 235 mil doentes à espera de operação, 1 milhão de processos à espera de ser julgados, 4 em cada 10 jovens a abandonar a escola antes de tempo. Progressos nestes campos é que permitem dar por bem empregue o dinheiro dos impostos. Do qual só me "libertarei" este ano no próximo dia 27... C

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