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Naturalmente, numa terra pequena é mais difícil fingir que não se viu uma pessoa na rua. Desse ponto de vista, Lisboa tem a dimensão perfeita: é pequena o suficiente para encontrarmos conhecidos e grande que chegue para, se não nos apetecer socializar, fazermos de conta que não os vimos.

Aqui, não. Já experimentei, mas saiu-me mal. "Estás cego, ou quê?!", gritou sempre a vítima, mudando de passeio com ar de venham-daí-esses-ossos. Felizmente, a tendência é para condescenderem connosco. Essa malta das artes, já se sabe, é meio maluca. E, de qualquer maneira, foram situações excepcionais. Eu gosto de me encontrar com pessoas.

Já nem sequer me preocupo com aquilo com que de início me preocupava, aliás. Houve um tempo em que ponderava até os gestos que fazia, a roupa que vestia, o tom de voz que usava. Queria pertencer, creio - queria pertencer e ser reconhecido como pertencendo. Freud também poderia ser uma metáfora geográfica. Mas passou.

É verdade que, pelo meio, tive de aprender algumas regras. E de estabelecer outras. Pessoas aparecendo para conviver a meio do dia ou da noite, sem avisar, não dá jeito a quem trabalha em casa. Aqui é normal: aparece-se e pronto. Conheço jovens pais que, face à gracinha das crianças, tiveram sogros, cunhados e até vizinhos diariamente em casa durante anos - sempre sem conseguirem pedir-lhes sequer que avisassem.

Nós nunca tivemos de dizê-lo à família ou aos amigos. Dissemo-lo a conhecidos, mas poucos. E, no fim, todos nos deram uma segunda oportunidade. O sentimento de culpa é a maior fragilidade de quem se mude para o campo. Se não aprendermos mais nada, ao menos que aprendamos isso: há que saber dizer não. O resto é fácil.

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