Joana Amaral Dias

Joana Amaral Dias

Contos de fadas

A guerra acabou com a covid e a rainha acabou com a guerra. Melhor que a sua longevidade só mesmo esta jogada de mestre post mortem. Bem que agora, até ao London Bridge, podia acabar com a subida das taxas de juro. Memes parte: o mundo em colapso pára e suspende-se para se transformar numa colossal revista cor de rosa que engole tudo à sua passagem, reduzindo a saúde pública, a inflação, Putin e Zelensky ou Taiwan a infidelidades conjugais, traições, invejas, dúvidas de paternidade e condutas sexuais duvidosas. Entre o big brother e a hagiografia, silêncio e esquecimento sobre as Malvinas, os irlandeses, os mineiros, Quénia, Nigéria, Vietname, Afeganistão, Iraque, Líbia ou Síria, nem gota ou sombra de espírito crítico pelos órgãos de comunicação social que tingem de purpurinas tudo o que diga respeito a sua majestade. 24/7 e a durar até dia 20 de setembro, ressaca incluída.

Joana Amaral Dias

O ranking do triciclo

Então, as crianças pobres perderam e as ricas ganharam, não foi? Uau! Que grande novidade. Parabéns à prima. E um amendoim, vai? A comunicação social que amplifica e reproduz estas patranhas devia cobrir a cara de vergonha, o corpo de alcatrão e sair da cidade. A sério? Prestarem-se a ser meros braços armados de interesses particulares e fazerem-lhes propaganda descarada? Ainda por cima, pisando no trabalho duro de tanto professor e guetizando ainda mais tanto miúdo.

Joana Amaral Dias

Quem tem medo do SNS?

Infelizmente, hoje em dia só confia no Serviço nacional de Saúde quem não tem alternativa. Este fim-de-semana, morreu mais um bebé. Mas haverá quem pense que assim se salvou um pouco mais do SNS. Porventura, até o planeta. O mesmo se pode dizer da mortalidade materna, que agora atingiu o nível mais alto dos últimos 38 anos. A DGS diz que está a investigar - têm morrido muitas mulheres devido a complicações da gravidez, parto e puerpério. Estes números já estavam a deteriorar-se antes da louca gestão da covid, piorando em 2020. Note-se que se trata dos mais importantes indicadores da qualidade das respostas públicas neste sector.

Opinião

Corrida para a morte

Biden pede menos armas em casa enquanto despeja jorros delas na Ucrânia. Contraditório? Pior é que em casa, o presidente dos EUA apenas finge que faz -- já que, no essencial, mais escola-matadouro menos matadouro-escola, tudo permanecerá na mesma. The National Rifle Association of America (NRA) controla grande parte da elite norte-americana, inclusive o Congresso. Já Obama tinha prometido "nunca mais" e a verdade é que nada aconteceu. Agora será mais do mesmo. À máfia lobista fabricante, junta-se uma história e uma cultura de violência ímpares.... De resto, a facilidade com que se adquirem armas de fogo em território estado unidense é comparável à de outros países, ainda que as cifras negras sejam bem diferentes. Portanto, embora não seja líquido que os tiroteios nos EUA apenas se resolvem com menos armas, a sua aquisição disparou após mais um massacre no Texas. Digam o que disserem os políticos -- mesmo os com meio século de carreira.

Opinião

Mentes radioactivas

O povo russo em geral - e a comunidade russa em Portugal em particular - estão a ser discriminados e ostracizados. Os seus atletas paralímpicos foram impedidos de participar, por exemplo. De que forma é que alguém no seu perfeito juízo pode achar que excluir estes desportistas de uma organização criada, precisamente, para promover a inclusão poderá contribuir para a paz? Também se pode ler que a Federação Felina Internacional baniu os gatos russos da competição. Anedótico, mas, sendo verdade, onde mora o contributo para a paz? Em Portugal, somam-se as denúncias de bullying contra esta nacionalidade ou os relatos dos pequenos comércios e restaurações às moscas. Como é que essa atitude promove a paz?! Estes comportamentos revelam, afinal, como o ser humano continua sendo um bicho tribalista, facilmente animado por um espírito de pertença e de lealdade a um grupo fechado, resistente a qualquer pensamento crítico. O amor tribal, aquele que galvaniza os hooligans e outros adeptos radicais, cujos circuitos cerebrais de recompensa activados são semelhantes aos estimulados na experiência do amor romântico, persiste como combustível das massas manipuladas. A mente primitiva soma e segue, anula dissonâncias cognitivas, aniquila qualquer dúvida e tudo arde na fogueira das certezas e da via única. Contributo para a paz nem sombra, fermenta o ódio contra quem não é cheerleader, levedam toneladas de bílis e há até quem clame por acrescentar guerra à guerra. Berram por força, mais vexames. Sonham com actos heróicos, babam por mártires. Os tribalistas, equipados com o uniforme a rigor, ignoram que em qualquer guerra só ganham os fabricantes de armas e as funerárias, como disse alguém, e que na terceira guerra mundial não ganha ninguém. Não é um videojogo nem paintball, um comando remoto, coisa à distância limpinha, inodoro e incolor, lúdico e de ovação. A escolha é matar ou morrer, a coisa é suja; o fim dos tempos, o adeus ao futuro. A quarta guerra será a paus e pedras, como disse Einstein. E se a narrativa do dividir para reinar medrou na era covid, achavam que o vírus ficava na China? Só que não. O ódio é a variante que dissemina mais rápido, fogo em palha seca, é mortal e persiste nos cadáveres, perdura depois da morte, como no pessoano O Menino da Sua Mãe.

Joana Amaral Dias

Cândidos falsários

Inocentes! Absolvidos! A deputada conhecida como a Emilinha das passwords só entrou no computador do colega José Silvano para apanhar uns documentos. Apenas isso e nada mais. O parlamentar disse que assim foi e o tribunal validou. Amém. Provou-se que aconteceu mas não se provou que foi de propósito. Fumou mas não inalou. Portanto, não houve falsidade informática (a justiça até considerou que se tratava de um anti-hacker; um ignaro em informática), logo a postiça presença do deputado foi acidental. Depois, o dito Silvano Camiliano ainda exigiu um pedido de desculpas à comunicação social, fingindo que não percebia que a questão nunca foi criminal mas política. Tanto quanto a justiça nos pede que finjamos crer nesta versão delicodoce cinderela. Ou isso ou temos fé no deputado Schrodinger que consegue estar ali e, simultaneamente, estar aqui. Ou o contrário até- como poderia Silvano cometer o ilícito se nem sequer estava no parlamento? Vale tudo. Já pensarmos que a assembleia da república é hoje uma casa do degredo na qual o comportamento amoral é tolerado e ocultado inter-pares num insuportável caciquismo, é que não. Já percebermos a gravidade do que foi feito pelo braço direito do Rio- Banho-d"Ética quando o seu partido tinha o maior grupo parlamentar, é que nunca. Nem pensar. Cruzes canhoto. Vade retro.