António Araújo

António Araújo

Ex-votos

No Estio de 1736, em dia que se ignora, saiu em sua mulinha o beneficiado Manuel Antunes, natural de Barbacena. No caminho das Portas da Esquina para a Horta dos Passarinhos havia uma ladeira pedregosa e íngreme, onde se lhe espantou a mula, por razões desconhecidas. Uma e outra vez caiu ao chão o clérigo, ficando muito ferido, e em muita aflição. Naquele aperto, suplicou aos céus, salvou-se. Em cumprimento da promessa feita, mandou reparar a tosca cruz que por lá havia, campos da Torre das Arcas. O lugar rapidamente ganhou fama de milagreiro. Fez-se então a romaria que ainda hoje perdura. E ergueu-se a ermida que tem o nome de Igreja do Senhor Jesus da Piedade de Elvas.

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António Araújo

Colóquio das drogas para os simples

Há vícios bem virtuosos. A tara coleccionista, por exemplo. Graças a ela, podemos admirar hoje em Lisboa, no Centro Cultural e Científico de Macau, um assombroso acervo de objectos do ópio. Cachimbos e lamparinas, fornilhos e agulhas, contentores de estanho, caixas de marfim, escarradores hediondos, camas de chuto e relaxe, são às dezenas os artefactos que o coleccionador António Sapage reuniu pacientemente durante décadas, estando agora à disposição de quem os queira admirar e estudar. Foi o caso de Alexandrina Costa, que lhe dedicou a sua tese de mestrado na Faculdade de Letras de Lisboa, publicada numa bela e muito ilustrada edição conjunta do Centro Cultural de Macau e da Fundação Jorge Álvares. Explica-se nesse livro que a interdição mundial da "droga da primavera", como os chineses lhe chamavam, levou à destruição de muitos milhares de utensílios para o consumo de uma substância que, dizia-se, tinha propriedades afrodisíacas e até gastronómicas mas sobretudo medicinais. Nas suas Confissões de Um Opiómano Inglês, escritas em 1821, Thomas de Quincey revela ter-se iniciado no vício ópio devido às suas virtudes terapêuticas, que lhe valeram curar-se de uma terrível dor de dentes; daí ao uso recreativo foi um passo...

António Araújo

Meninos, decoro

Há coisas que não se entendem. Só há poucos meses, imagine-se, é que França decidiu declarar Sade tesouro nacional. Nas vésperas de ir à praça o manuscrito original de Os Cento e Vinte Dias de Sodoma ou Escola da Libertinagem, avidamente disputado por tarados do mundo inteiro, o Estado francês classificou e impediu a venda do mítico rolo de papel de doze metros de comprimento em que Donatien Alphonse François de Sade, preso nas masmorras da Bastilha em 1785, deu vazão às suas pulsões mais íntimas, escritas numa caligrafia minúscula, quase imperceptível. Doravante, o libidinoso papiro terá muitas dificuldades em sair do país, à semelhança de outro clássico da luxúria, as memórias de Casanova, que a Biblioteca Nacional de França adquiriu em 2010 pela bonita soma de sete milhões de euros. Calcula-se que, leiloados, Os Cento e Vinte Dias de Sodoma iriam atingir um valor superior, de oito ou mais milhões, o que não está nada mal para uma obra escrita de jacto, em trinta e sete dias, por um artista que passou quase trinta anos da sua vida encravado em penitenciárias húmidas e asilos de loucos. Já em 2014 o Presidente Hollande, outro melro, tentara comprá-la para a República, acabando por desistir com receio de críticas moralistas a uma aquisição milionária feita em tempos de austeridade. Segundo se diz, os coleccionadores mais interessados no sádico libelo são norte-americanos, o que se compreende num país presidido por Donald J. Trump, e turcos, o que também não admira se tivermos presente que o grotesco L"origine du monde foi pintado por Courbet a encomenda de um diplomata turco otomano, que teve de se livrar dele para pagar dívidas de jogo; o óleo pornográfico, como se sabe, andou em bolandas até ir parar à casa de campo de Lacan, que o teve pudicamente escondido dos olhares do mundo até que, por sua morte, a família o doou ao Estado francês para pagar os direitos sucessórios do histórico psicanalista. Está hoje no Musée d"Orsay, à vista de todos.

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Opinião

Rilke em Ronda

Agora estou aqui, em Ronda, desde há uma semana." Foi esta carta, dirigida à princesa Thurn und Taxis, sua anfitriã no castelo de Duíno, que permitiu determinar a data da chegada do poeta à cidade, dia 7 de Dezembro de 1912. Vindo de Sevilha pela estrada de Marchena, hospedou-se previsivelmente no melhor hotel da cidade, o Victoria (no Cairo, estivera no Shepheard"s, como Eça), "bastante caro", que "o diabo sugeriu aos ingleses que construíssem aqui", tendo por clientela os britânicos da vizinha Gibraltar. Depois, mais apaziguado, descrevê-lo-á como "um hotel confortável e familiar em que estou completamente sozinho". Decidira ir até Ronda, terra de bandoleiros célebres, a conselho da família do conde de Vilallonga, que conhecera em Sevilha. Ainda lhe ocorre viajar até Marrocos, não longe, mas acaba vencido pelo temor que "este tom vermelho-escuro seja ofuscado por um manto de luz branca". Apaixonara-se pela tonalidade sombria de Espanha, não queria perder-lhe o rasto nem atraiçoar-lhe a memória.