António Araújo

Congo, mal d"Afrique

Opinião

Congo, mal d"Afrique

Raramente um lugar foi tão devastado como aquele. Adolf Hitler ocupara-o desde 1933, tendo mandado construir aí, no subsolo do grande salão de recepções, o seu Vorbunker, a que depois acrescentou, ainda mais fundo, o Führerbunker. Toneladas e toneladas de bombas, lançadas pelos morteiros dos exércitos que cercaram a capital do Reich em 1945, reduziram a cinzas o que outrora fora o Palácio Radziwill, adquirido em 1869 pelo Estado da Prússia, por intervenção de Otto von Bismarck. Num sábado, dia 15 de Novembro de 1884, reuniram-se lá, vestidos de fraque e a rigor, os plenipotenciários de diversos países, na sessão de abertura da Conferência de Berlim. Contrariamente ao que muitos julgam, a cimeira não se destinava a partilhar o "continente negro" pelas potências europeias da época ou a definir os limites fronteiriços de cada quinhão colonial. Visava, isso sim, definir, sob invocação de Deus Todo-Poderoso, "as condições mais favoráveis ao desenvolvimento do comércio e da civilização em certas regiões de África". Foi a liberdade de comércio, mais do que qualquer outro tema, que deu o mote às várias sessões da conferência - mais de uma dezena -, que se prolongaram durante meses, terminando em Fevereiro de 1885.

António Araújo

O macaquinho de Atenas, entre outros monos

Às vezes, até o macaco faz História. Mas, antes de falarmos do macaco histórico, surgiu esta semana outro episódio animalesco, merecendo honras de grande destaque no sempre informado Politico: no final de 2016, Cecilia Bonefeld-Dahl, a mais poderosa lobista de Bruxelas para os assuntos do digital, consultora da NATO e da Comissão Europeia, vendeu um pónei a uma senhora dinamarquesa, para que a filha desta pudesse entrar no restrito e muito elitista mundo das competições de póneis que, caso não saibam, ocorrem em grande estilo por essa Europa fora. Acontece que, em 2018, o dito pónei, de seu nome Spartacus, foi barrado de uma competição na Alemanha pelo singelo e trágico motivo de não ser pónei, mas cavalo. São draconianas as regras internacionais na matéria equina, alvo de regulação milimétrica: um pónei, para ser dado oficialmente por pónei, tem de ter por altura entre 141cm e 148cm e tudo o que seja acima disso já é considerado cavalo. Não é questão de somenos, pois um pónei, só por ser pónei, vale bem mais do que um cavalo, mesmo de raça: Spartacus custou cerca de 76 mil euros, mas se fosse considerado cavalo valeria uns 11 mil, não mais. Aqui o tamanho conta, conta muitíssimo, faz a diferença de muito dinheiro e, apesar de ter 148 cm de estatura averbados no seu passaporte de pónei, Spartacus é um cavalo, proclamou-o o mais alto tribunal da Dinamarca, condenando a lobista de Bruxelas por venda defeituosa, ou no mínimo enganosa, e obrigando-a a pagar à compradora danesa qualquer coisa como 126 mil euros por perdas e danos (no fundo, por ter um cavalo em casa, julgando que era dona de um pónei). O caso está longe de se encontrar encerrado, na Justiça e fora dela, e certamente iremos ter novas equestres num futuro próximo.

Opinião

Os sinos de Bled

Na Eslovénia há um lago fundo e belíssimo, dizem, que eu nunca o vi. Tem dois quilómetros de comprimento, um quilómetro e meio de largura, situa-se nos Alpes Julianos, na fronteira com a Itália e a Áustria. Entre densas florestas e altas montanhas, é uma paisagem assombrosa, a perder de encanto, com grandes formações de calcário e dolomite cujas origens, glaciares e tectónicas, remontam a mais de 15 mil anos. No centro do lago, uma pequena gema, uma ilha que já era habitada 800 anos antes de Cristo e onde os arqueólogos desvendaram um cemitério neolítico com mais de 100 sepulturas. Por ela passaram povos eslavos, invasores francos, reis e bispos germânicos: Henrique II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, construiu o castelo de Bled em 1004 e, no mesmo ano, cedeu a posse da região ao bispo de Brixen, em reconhecimento pela ajuda dada pela Igreja ao fortalecimento do poder imperial a norte de Itália. Durante 800 anos, Bled pertenceria aos bispos-príncipes de Brixen, passando para a suserania da Áustria nos alvores do século XIX, logo a seguir para o domínio de Napoleão, retornando depois aos austríacos, de novo para os bispos de Brixen, e, com a dissolução do Império Austro-Húngaro após a Primeira Guerra, para o rei da Jugoslávia.

António Araújo

Pelos Santos Populares

Antes de comer uma sardinha, convém saber ao menos o que é uma sardinha. E talvez saber que, por causa dela, ou de uns peixes como ela, estivemos à beira de uma guerra mundial, ou quase. Não foi assim há tanto tempo como isso e envolveu dois países que agora se enfrentam surdamente, Suécia vs. Rússia. Passou-se isto em 1982, um ano depois do naufrágio de um submarino russo, então soviético, ao largo de Estocolmo. Após o naufrágio, a Marinha sueca, claro está, entrou de imediato em prevenção intensa e a imprensa do país noticiou amplamente os perigos de uma invasão soviética, aguardada a todo o instante. Alarmismo, dirão uns, sensatez, obtemperarão outros, mas o certo é que os sonares suecos começaram a detectar nos mares um sinal sonoro estranho e inexplicável, que emitia na gama de frequência do ruído das hélices dos motores. Sem outro inimigo à vista, a coisa só poderia ser vinda dos soviéticos, operação em larga escala. O Estado-Maior da Suécia, convencidíssimo de que havia marosca grossa no fundo dos seus oceanos, mobilizou submarinos para o sector de onde vinham os sons, tentou estabelecer contacto com a fonte sonora, andou às voltas e voltas para detectar a origem dos ruídos. Foram afanosas as buscas, mas não deram em nada, nada de nada.

António Araújo

Eu & Margarida (onde se fala de limões sicilianos, plantas de vidro, cartas de amor)

Uma vez, Eu & Margarida fomos visitar uma fabriqueta de limoncello na Costa Amalfitana, dessas a atirar para os turistas que somos, e quem ali nos recebeu era um português, é óbvio, de Benfica e do Benfica, que falava pelos cotovelos e nos mostrou a coisa toda. Na hora de abrir a cuba onde se maceravam os limões em álcool, os vapores que dali vinham deixaram-nos a ambos os dois, Margarida & Eu, mais para lá de etilizados, e por horas estonteados, episódio de somenos, só íntimo nosso, mas que me veio à lembrança ao ler um encanto de livro chamado The Land Where Lemons Grow, o qual, como o subtítulo indica (The Story of Italy and Its Citrus Fruit), é um périplo por Itália através dos seus citrinos. A autora, Helena Attlee, tem uma profissão daquelas, especialista em jardins italianos, e começa por nos falar dos limões dos Médicis, na Toscânia, cultivados como maravilhas raras que são, sem dúvida.

António Araújo

Um lago com cisnes (e alguns patinhos)

Em 26 de Fevereiro de 1917, Mathilda Kschessinskaya recebeu uma chamada urgente do chefe da polícia do bairro onde morava, uma das mais elegantes zonas de Petrogrado, ou não fosse ela prima ballerina assoluta do Mariinsky, antiga amante do czar Nicolau II e actual amante do grão-duque Andrei Vladimirovich. Não muito antes, a 2 de Fevereiro, tivera uma actuação memorável, mal sabendo que era a última, em que dançara como Columbina em Carnaval e depois o primeiro acto de Don Quixote. Os bolcheviques consideravam-na um dos símbolos maiores da decadente ordem czarista, circulavam caricaturas horríveis e panfletos sobre ela, e agora o chefe da polícia avisava-a para fugir da cidade quanto antes. Uma decisão difícil: as melhores jóias estavam guardadas nos cofres de Fabergé, mas havia um mundo de coisas, acumuladas em 27 anos de carreira e de glória, que era impossível levar às pressas. A revolução estava no auge, e à noite, quando se sentou para jantar com o seu filho, com o tutor deste e com duas bailarinas do Mariinsky, ouviam-se já os gritos, os tiros na rua. Decidiu partir de imediato, saindo com o mais modesto dos seus casacos, um veludo preto debruado a chinchila, a cabeça coberta por um lenço, quase se esquecendo do fox terrier de estimação, da mala com alguns haveres. Ficou ainda uns meses em Petrogrado, até Julho, vivendo na semiobscuridade. Um dia, ao passar ao longe pela antiga casa, viu uma mulher a apanhar sol no seu jardim: era Alexandra Kollontai, uma das mais proeminentes bolcheviques, lenda da revolução vermelha, teórica do marxismo, e estava vestida com um dos seus mais belos e opulentos casacos de peles, de arminho, símbolo por excelência dos tempos imperiais czaristas.

António Araújo

Vermeer, hoje

Soprou-me um anjo que, na Primavera do próximo ano, o Rijksmuseum de Amesterdão vai levar a cabo a maior exposição de sempre da obra de Johannes Vermeer, com quadros vindos de todo o mundo. Oportunidade única, irrepetível, para admirar a obra do mestre de Delft, o qual, sendo famoso no seu tempo (ao contrário do que muitos julgaram, como Proust), morreu cravejado de dívidas, caiu na obscuridade e só seria redescoberto em meados do século XIX, em larga medida por acção de um homem, o jornalista e crítico de arte francês Théophile Thoré-Bürger, que em 1866 notou e disse o essencial: a qualidade ímpar das pinturas de Vermeer, aquilo que as distingue de todas as outras, é a luz, uma luz que, em vez de se projectar sobre o quadro, a partir de fora, parece vinda do interior das próprias telas, num efeito que mais nenhum pintor conseguiu alcançar até hoje.

António Araújo

O acaso e a necessidade

É dos castelos mais estranhos do mundo, mas belo como poucos. A planta octogonal, com torres também elas octogonais em cada uma das oito extremas ainda intriga os especialistas, surpreendidos com um edifício que, pela pequenez, chegou a ser tido como um pavilhão de caça, não mais. Sabe-se hoje que em seu redor existia uma muralha e que, portanto, aquele era mesmo um castelo, ainda que bizarro e estranhíssimo, mas belo como poucos. Tem uma geometria única, toda assente no número oito: um prisma octogonal com oito torres, um pátio interior com oito faces, cada um dos pisos com oito divisões. Diz-se que o octógono é um símbolo intermédio entre o quadrado, representativo da terra, e o círculo, evocativo dos céus, mas nem esta tese cabalística permite explicar por inteiro a singularidade arquitectónica de Castel del Monte, que o imperador Frederico II fez edificar na Apúlia por volta de 1249, porventura inspirado no Monte do Templo de Jerusalém, que vira no decurso da Sexta Cruzada à Terra Santa. Um dos homens mais cultos do seu tempo, Frederico era fluente em várias línguas, autor de um tratado de falcoaria e, não por acaso, os cronistas coevos chamavam-lhe Stupor mundi ("maravilha do mundo").

António Araújo

Os bisontes da Torre Branca

O Inverno, dizem, é a melhor altura para vê-los no seu ambiente natural. Mas quem se aventura ao rigor do Inverno na densa floresta de Białowieza? Classificados pela UNESCO como património mundial, os 150 mil hectares de Białowieza (em polaco, "Torre Branca") estendem-se entre a Polónia e a Bielorrússia, naquela que é uma das maiores áreas florestais virgens da Europa. Provavelmente a maior, certamente a última, derradeiro vestígio da imensa mancha verde que há muitos séculos cobria a Planície Europeia, um território vastíssimo que vai dos Urais ao Atlântico, integrando, no lado ocidental, os Países Baixos, a Dinamarca, o Norte da Alemanha e da França. Sob a vegetação frondosa, com freixos de mais de 50 metros de altura, nas sombras de Białowieza vivem 20 mil espécies diferentes de animais selvagens.

António Araújo

Um estranho fruto

Quando a cantou pela primeira vez, numa festa privada no Harlem, ninguém disse palavra, ninguém ousou o aplauso. A plateia ouviu-a em total silêncio, e em silêncio ficou depois de a canção terminar. No mutismo dos presentes percebia-se o alcance do que haviam escutado, o quanto aquela música os perturbara, recordando-lhes um passado que teimava em não passar. No ano seguinte, início de 1939, apresentou-a no Café Society, clube progressista da baixa da cidade, poiso habitual de Charlie Chaplin, Lauren Bacall, Sarah Vaughan ou Nelson Rockefeller, um dos poucos locais nocturnos de Manhattan que não segregavam brancos e negros. Mesmo aí, tinha receio todas as vezes que entoava aquela letra, tanta era dor que ela lhe causava, tantas as lembranças que aquela canção lhe trazia do seu pai, um homem que mal conhecera, músico como ela, que morrera das sequelas da Grande Guerra, com os pulmões desfeitos pelo gás mostarda, sem que os hospitais sulistas aceitassem tratá-lo - pelo simples motivo de que era negro.