António Araújo

António Araújo

Holodomor

Em Abril de 1933, Georges Simenon visitou Odessa. Quando iniciou o seu périplo pela "Europa em crise", já tinha ganho fama com as histórias policiais do comissário Maigret, surgidas pouco antes, com um alucinante ritmo de publicação. Agora, nas vestes de repórter, entrevistará gente famosa - Gandhi, Hitler, Mussolini, Trotsky - e conhecerá ambientes e lugares que lhe servirão de matéria-prima para os seus romances, entre os quais Les Gens d'en Face, cuja personagem feminina principal, Sonya, se inspirou quase a papel químico numa Sonya de carne e osso, a agente da Intourist que os soviéticos colocaram como sua controleira, a vigiar-lhe os passos e a tentar impedir que o escritor-jornalista testemunhasse as tragédias em curso naquela república. Sonya falhou a missão e, nas páginas do Le Jour, Simenon acabou por publicar 23 reportagens a que deu o título "Peuples qui ont faim", onde descreveu a situação dramática dos pequenos camponeses, os kulaks, aos quais, segundo ele, "nada mais restava senão morrer".

António Araújo

Across the 110th Street

Há vidas e vidas, mas a deste foi qualquer coisa. Não existirão, na verdade, muitas autobiografias que comecem com a descrição de um homicídio ou, melhor dizendo, de uma tentativa de homicídio, em que o autobiografado teve a mulher a apontar-lhe uma arma à cara, olhos nos olhos, e a disparar o gatilho, em fúria. A bala raivosa falhou o alvo por um triz, mas, segundo ele diz, deu-lhe um penteado novo, uma auto-estrada aberta no alto do couro cabeludo, quase da testa à nuca. Barbara, a mulher em fúria, era viúva do melhor amigo dele, Sam, que fora baleado no peito - e à queima roupa - pela gerente de um motel em Los Angeles, tendo as autoridades concluído que o homicídio fora justificado, porquanto, segundo garantiu a gerente, Sam tinha entrado pelo escritório do motel dentro, enfurecido e nu, em busca de uma mulher que conhecera nessa noite numa boate e que levara para o seu quarto, onde a despiu e tentou violar. A mulher conseguiu saltar por uma janela e fugir rua fora, seminua, espavorida, mas Sam, julgando que ela se abrigara no escritório do Hacienda Motel, foi até lá, em fúria, e acabou morto.

António Araújo

Filide, nome de guerra

Morreu, enfim, rodeada da maior piedade. Deixou expresso que queria ser enterrada na igreja da sua paróquia e, à medida que o fim se aproximava, fez vários legados a instituições religiosas dedicadas à Virgem, para que, quando partisse, lhe rezassem missas pela alma impura. Na penúltima cláusula do testamento, atestado por um notário diligente, ordenou que um quinto dos seus bens fosse deixado às Convertidas (assim se chamavam aquelas que largavam o meretrício e a má vida) e o facto é tanto mais curioso quanto fora junto à casa dessa irmandade, encostada ao muro, que, durante anos, vendera o corpo em mortal pecado.

Péssima Companhia

Are you talkin' to me?

Se Taxi Driver acumula uma enorme informação cinéfila, não é menor a presença de outros elementos e influências, desde logo da religião. Nascido numa família católica de Nova Iorque, Martin Scorsese teve uma infância atormentada e, a dada altura, chegou a pensar abraçar a vida sacerdotal. Paul Schrader, por sua vez, é oriundo de uma família alemã estritamente calvinista, de Grand Rapids, Michigan. O pai estudara para pastor, tendo de abandonar essa carreira devido à Grande Depressão de 1929, e Paul foi educado numa rigidez tal que, até aos 17 anos, nunca teve autorização para ver filmes ou ir ao cinema.

António Araújo

Are you talkin' to me? (1.ª parte)

Paul estava no hospital a recuperar de uma úlcera gástrica, em resultado dos excessos dos últimos tempos. Tinha 26 anos, batera no fundo. O casamento terminara há pouco, o affaire que levara ao divórcio também terminara, fora despedido de fellow do American Film Institute. Agora, dormia no automóvel e passava os dias afundado no álcool. Quando deu entrada no hospital, apercebeu-se de que as enfermeiras das urgências eram os primeiros seres humanos com quem falava há semanas. Não admira que se tenha deixado fascinar pelas notícias dos jornais sobre um homem solitário como ele, Arthur Bremer, que em Maio de 1972 tentara matar com cinco tiros de revólver George Wallace, governador do Alabama e candidato à presidência do país.