António Araújo

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António Araújo

Ex-votos

No Estio de 1736, em dia que se ignora, saiu em sua mulinha o beneficiado Manuel Antunes, natural de Barbacena. No caminho das Portas da Esquina para a Horta dos Passarinhos havia uma ladeira pedregosa e íngreme, onde se lhe espantou a mula, por razões desconhecidas. Uma e outra vez caiu ao chão o clérigo, ficando muito ferido, e em muita aflição. Naquele aperto, suplicou aos céus, salvou-se. Em cumprimento da promessa feita, mandou reparar a tosca cruz que por lá havia, campos da Torre das Arcas. O lugar rapidamente ganhou fama de milagreiro. Fez-se então a romaria que ainda hoje perdura. E ergueu-se a ermida que tem o nome de Igreja do Senhor Jesus da Piedade de Elvas.

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António Araújo

O lagarto da Penha 

É história antiga, a do lagarto da Penha. Mas antes de o bicho entrar em cena diga-se que a Penha, a de França, deve o seu nome a António Simões, santeiro e dourador lisboeta que escapou à justa de morrer em Alcácer-Quibir. Salvou-o da morte certa Nossa Senhora da Penha, cujo santo nome António invocou nos areais africanos, quando estava à rasca. Mal chegado a Lisboa, e a sugestão de um padre jesuíta, espetou um estandarte com a figura da Senhora num terreno arrabaldino chamado Cabeça de Alperche, que desde a época muçulmana, pelo menos, era lugar de olivais e vinhedos, pomares e hortas. Mais tarde, António mandou edificar aí um templo que deveria albergar a imagem até então alojada na Ermida da Vitória, na Caldeiraria, actual Baixa. A primeira pedra foi colocada em 1597 e, dois anos depois, por causa da peste que na altura castigava muito a cidade, o povo de Lisboa oriental, a mando do presidente da autarquia D. Gileanes da Costa, decidiu sair em procissão, todo alinhadinho em busca do auxílio protector da Virgem da Penha, padroeira dos mareantes. Começava assim a Procissão do Ferrolho, devendo esse nome à circunstância de os fiéis mais fiéis, desde madrugada alta, irem batendo às portas das casas das pessoas em repouso, chamando-as para dar forma e espessura ao cortejo processional. A procissão fazia-se todos os anos a 5 de Agosto, mas a tradição foi interrompida em 1833 e nunca mais voltou. Continuam, porém, as solenes festas em honra de Nossa Senhora da Penha de França, e no passado mês de Junho ali tivemos eucaristia, devoção mariana, arruada, arraial - e pregação do padre Fernando.

António Araújo

As virtudes da censura

Louvores, muitos louvores, à veneranda instituição censória. Graças a ela, temos hoje entre nós, vivaz e faceto, Monsieur de Chimpanzé, opereta em um acto que, a muito custo, Júlio Verne conseguiu levar à cena nos Bouffes-Parisiens, em Fevereiro de 1858. Foi um desastre. O único exemplar que se conhece dessa "macacada musical", como a define o manuscrito, foi encontrado mais de um século depois daquela fatídica representação em Paris, sendo publicado apenas em 1980, imagine-se. A descoberta foi feita nos arquivos do gabinete da Censura, a quem todas as peças teatrais deveriam ser submetidas. Ignora-se se os censores levantaram qualquer objecção à opereta de Verne, uma vez que o processo administrativo desapareceu, só restando o original da peça. Até o libreto musical se esfumou, crê-se que para todo o sempre. É pena.