António Araújo

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Reinaldo, ainda e sempre 

Que os leitores de um jornal o disputassem a murro é algo que faz pensar, tamanha é hoje a crise da imprensa. Que esse jornal tivesse começado em Barcelos ainda mais impressiona. Que se chamasse Jornal do Repórter X é mesmo coisa bizarra. Mas verídica. Junto dos ardinas ou nas bancas de jornais, a freguesia chegava a vias de facto para comprar o periódico dirigido por Reinaldo Ferreira, o mais inventivo repórter português de todos os tempos.

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Ex-votos

No Estio de 1736, em dia que se ignora, saiu em sua mulinha o beneficiado Manuel Antunes, natural de Barbacena. No caminho das Portas da Esquina para a Horta dos Passarinhos havia uma ladeira pedregosa e íngreme, onde se lhe espantou a mula, por razões desconhecidas. Uma e outra vez caiu ao chão o clérigo, ficando muito ferido, e em muita aflição. Naquele aperto, suplicou aos céus, salvou-se. Em cumprimento da promessa feita, mandou reparar a tosca cruz que por lá havia, campos da Torre das Arcas. O lugar rapidamente ganhou fama de milagreiro. Fez-se então a romaria que ainda hoje perdura. E ergueu-se a ermida que tem o nome de Igreja do Senhor Jesus da Piedade de Elvas.

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Meninos, decoro

Há coisas que não se entendem. Só há poucos meses, imagine-se, é que França decidiu declarar Sade tesouro nacional. Nas vésperas de ir à praça o manuscrito original de Os Cento e Vinte Dias de Sodoma ou Escola da Libertinagem, avidamente disputado por tarados do mundo inteiro, o Estado francês classificou e impediu a venda do mítico rolo de papel de doze metros de comprimento em que Donatien Alphonse François de Sade, preso nas masmorras da Bastilha em 1785, deu vazão às suas pulsões mais íntimas, escritas numa caligrafia minúscula, quase imperceptível. Doravante, o libidinoso papiro terá muitas dificuldades em sair do país, à semelhança de outro clássico da luxúria, as memórias de Casanova, que a Biblioteca Nacional de França adquiriu em 2010 pela bonita soma de sete milhões de euros. Calcula-se que, leiloados, Os Cento e Vinte Dias de Sodoma iriam atingir um valor superior, de oito ou mais milhões, o que não está nada mal para uma obra escrita de jacto, em trinta e sete dias, por um artista que passou quase trinta anos da sua vida encravado em penitenciárias húmidas e asilos de loucos. Já em 2014 o Presidente Hollande, outro melro, tentara comprá-la para a República, acabando por desistir com receio de críticas moralistas a uma aquisição milionária feita em tempos de austeridade. Segundo se diz, os coleccionadores mais interessados no sádico libelo são norte-americanos, o que se compreende num país presidido por Donald J. Trump, e turcos, o que também não admira se tivermos presente que o grotesco L"origine du monde foi pintado por Courbet a encomenda de um diplomata turco otomano, que teve de se livrar dele para pagar dívidas de jogo; o óleo pornográfico, como se sabe, andou em bolandas até ir parar à casa de campo de Lacan, que o teve pudicamente escondido dos olhares do mundo até que, por sua morte, a família o doou ao Estado francês para pagar os direitos sucessórios do histórico psicanalista. Está hoje no Musée d"Orsay, à vista de todos.