António Araújo

António Araújo

Uma baleia na sala

Miss P. foi ao Porto e trouxe de lá uma baleia. Um bicho enorme, portentoso de gigante, quase tão grande como a minha ignorância, que desconhecia ao completo que Sophia escrevera um conto inspirado no seu bisavô. Sophia com ph é Sophia de Mello Breyner Andresen, o conto chama-se "Saga" e está incluído no livro Histórias da Terra e do Mar, e o bisavô é, ou foi, Jann Hinrich Andresen, um homem que em jovem rumou ao sul, contra a vontade paterna, a bordo de um navio-veleiro vindo das Frísias, ilha de Förh. Jann fez fortuna na Invicta e, com ela, comprou uma quinta bela, com vistas de mar e tudo, onde existia uma casa enorme, portentosa de gigante, bem maior do que uma baleia. Nessa casa, diz Sophia na saga (ou a saga de Sophia), tudo era "desmedidamente grande", "desde os quartos de dormir onde as crianças andavam de bicicleta até ao enorme átrio para o qual davam todas as salas e no qual, como Hans dizia, se poderia armar o esqueleto da baleia que há anos repousava, empacotado em numerosos volumes, nas caves da Faculdade de Ciências por não haver lugar onde coubesse armado".

António Araújo

A questão dos animais

Nas vésperas do Dia de Acção de Graças de 2014, a senhorita Rachel Boerner, modelo ou aspirante a sê-lo, entrou num avião com um animal de estimação. O avião pertencia à companhia US Airways e saía do aeroporto de Hartford, no Connecticut, e o animal de estimação chamava-se Hobey e era um porco macho, já grandote, com 36 quilos. As coisas complicaram-se quando a aeronave se preparava para descolar: assustado com o barulho dos motores ou por outra razão, o porco desatou a gritar como se o matassem, "três vezes mais alto do que uma criança", descreveria mais tarde um passageiro aturdido. Não contente, Hobey, o porco, pôs-se a defecar abundantemente no chão alcatifado (e no assento). Com falinhas mansas, a dona ainda tentou levá-lo às boas até à casa de banho da aeronave, como se fosse um menino, mas o bicho torceu o rabo, recalcitrou, guinchou, defecou mais um pouco e, ao fim de dez minutos de berreiro e chiqueiro, o comandante e as hospedeiras acharam por bem evacuar dali para fora a senhorita Boerner e o porco do seu porco.

António Araújo

No mundo da Lua

Agora, que um licitante anónimo acaba de pagar 23 milhões de euros para acompanhar Jeff Bezos ao espaço, começou a contagem decrescente para a sideral viagem. A partida será a 20 de Julho e, num leilão online realizado há dias, bastaram sete lances e breves minutos para encontrar o terceiro passageiro, que terá o privilégio de se sentar ao lado do multibilionário da Amazon e do seu irmão para uma excursão-relâmpago que durará não mais do que onze minutos, sem que aos tripulantes seja sequer concedido o direito de levantar-se do assento para ir à casa de banho. Feitos os cálculos, dá qualquer coisa como dois milhões de euros por minuto e o mais estranho de tudo é terem existido cerca de sete mil ofertas, vindas de 160 países do planeta, para embarcar numa viagem que é astronómica a vários títulos. Mas compreende-se: os que forem até aos céus irão afastar-se, nem que seja por escassos momentos, de um mundo em que Bezos, o milionário-astronauta, tem uma fortuna estimada em 196 biliões de dólares e em que, ao mesmo tempo, metade da humanidade sobrevive com menos de seis dólares por dia.

António Araújo

Coisas de loucos

Estranhezas da capital: em Lisboa, é a partir das necrópoles que se têm algumas das melhores vistas da cidade e do rio, como se quiséssemos dar aos mortos o que lhes negámos em vida, horizontes largos, de esperança e luz. Durante anos a fio, passei à porta do Cemitério da Ajuda e, não sei porquê, fui adiando a entrada, à espera do dia certo, que tarda. Nunca vi nem senti nos pés, portanto, as ondulações de uma rua que por lá existe, com seu quê de sinistro e mórbido. Nessa rua, o asfalto tem altos e baixos, como uma cobra a serpentear ao sol, o que se deve, soube-o agora, às sucessivas vagas de enterramentos colectivos que por lá se fizeram.

António Araújo

As mãos pelos pés

Este subiu a pulso, literalmente. E chegou ao topo sempre a olhar para baixo, o que é estranho. Como estranho é pensar na misteriosa centelha de génio que o levou até lá, ao tecto do mundo, contra tudo e contra todos, contra todas as probabilidades, contra um destino inscrito na data e no local onde nasceu, uma aldeola de 4500 almas a cem quilómetros de Nápoles, na pobreza entranhada do Mezzogiorno. Viu a luz em Junho de 1898, em Bonito, assim se chamava a terrinha santa, e era o décimo primeiro filho de uma prole de catorze, sendo os pais dois camponeses pobres, paupérrimos. Cultivavam vinho, mas não o bebiam, porque as melhores colheitas eram para vender; semeavam trigo, mas nunca comiam pão branco, luxo reservado para as raras ocasiões de festa. Tudo quanto se ganhava era para pagar as dívidas contraídas no amanho dos campos e também, ou principalmente, para custear os estudos de Agostino, o menino-prodígio da família, que conseguira passar todos os anos sem nunca chumbar, e que os pais, com tremendos sacrifícios, enviaram para a Universidade de Nápoles, onde se formou espantosamente aos 19 anos, tendo logo sido convidado para dar aulas em Florença, também na universidade. Regressou a Bonito meses depois, pálido e emagrecido, mas por lá não havia médicos para tratar a pneumonia que contraíra no Norte. Morreu ao fim de dias, prostrado na cama. Os gritos de dor da mãe ecoaram muito tempo nas paredes daquela casa.

Exclusivo

António Araújo

Se Veneza morrer

"Não se pode morrer sem se ver Veneza", escreveu um tio meu num postal para casa, há muitos anos, em embriaguez total de Sereníssima. As circunstâncias da vida acabariam por me dar, a dada altura, o grato encargo de ter de ir regularmente até lá, o que, sem jamais me ter permitido decifrar a cidade e o seu enigma (coisa de que nem os próprios venezianos se podem orgulhar), me aperceber, horrorizado, do ritmo em que a sua degradação tem vindo a ocorrer.