André Macedo

André Macedo

Interesse público, interesse púbico

Há 1500 milhões de anos houve uma imensa explosão de luz na Terra. O mundo foi inundado por um manto de claridade extrema que obrigou a natureza a adaptar-se a esta luminosidade sem precedentes. Este choque desencadeou um processo de evolução biológica com vítimas e ganhadores. Houve organismos que sucumbiram perante a inevitabilidade do impacto. Mas também houve quem se adaptasse às novas condições de vida, abrindo um novo capítulo na evolução das diferentes espécies.

Opinião

As cartas secretas de Centeno

Comecei por escrever sobre a carta que António Domingues enviara a Mário Centeno - notícia de ontem. Desenvolvi três parágrafos bem cheios e depois apaguei sem remorso. Não valiam um caracol. Lembrei-me do que Henry Kissinger escrevia na capa das primeiras versões dos relatórios que lhe apresentavam: você pode fazer melhor. Kissinger nem sequer lia esses documentos, não passava os olhos sequer por eles ao de leve, mas sabia que o sentido de exigência deve ser incentivado e que isso dá bons resultados.

André Macedo

A irresponsabilidade das PME

O PCP detesta as grandes empresas, despreza as multinacionais, chama-lhes devoradoras e oportunistas, embora isso na verdade seja um pouco bizarro. São raras as grandes companhias internacionais presentes em Portugal que escolhem pagar o salário mínimo. Pagam quase sempre acima, muitas definem os mil euros brutos como patamar mínimo aceitável. E fazem muito bem. São também elas que mais proteção social oferecem no dia-a-dia; e também são as que melhor formação dão aos seus trabalhadores, procurando incentivar as pessoas para o esforço individual e para os objetivos comuns da empresa, mobilizando as equipas para a necessidade de trabalhar melhor e assim talvez ganhar um pouco mais.

Opinião

Um país menos complexado

1. As vezes em que eu me enganei neste ano foram várias. Na política, escrevi um editorial aqui, neste magnífico periódico, contestando com alguma violência o acordo que conduziu António Costa à liderança do governo. Continuo a pensar que o atual primeiro-ministro não abriu espaço suficiente para que Pedro Passos Coelho, o vencedor da noite eleitoral, pudesse tentar um acordo político fosse de que espécie fosse. Na verdade, pouco depois ficou claríssimo que o líder do PSD também não desejava esse entendimento. Aliás, essa possibilidade repugnava-o. Portanto, ele nunca o quis. A sorte que lhe calhou foi a sorte que fez por merecer. De certa forma, Passos parou no tempo. Lembra-me aquele soldado japonês da Segunda Guerra Mundial que foi descoberto na ilha de Guam, em 1972, desconhecendo que o conflito acabara 27 anos antes. Nunca é bom ficar preso ao passado. O líder do PSD tem de acelerar, mostrar que percebe o ar do tempo.

Opinião

A piscina de Costa, a jangada de Passos

António Costa levou o governo inteiro até à Aula Magna para que ele e os ministros respondessem às perguntas de um grupo de pessoas escolhidas pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS). Podia ter corrido bem. Podia ter sido uma boa iniciativa. A ideia de expor o primeiro-ministro a reclamações concretas faz sentido e até pode tornar-se uma rotina democrática saudável. Nem tudo precisa de mediação jornalística, até porque os nossos interesses - isto é, o ângulo escolhido pelos media - muitas vezes, tantas vezes não está alinhado com o que acontece na rua, na casa das pessoas ou nas empresas; pelo contrário, dobra-se, molda-se às agendas partidárias ou aos interesses específicos de outros (legítimos) grupos de interesse. Não há nada de errado na voz que é dada a estes protagonistas da nossa vida coletiva (partidos, sindicatos, associações), mas o debate público acaba por ficar com menos textura se a discussão não for alargada.

Opinião

Lisboa: a cidade proibida

Fernando Medina talvez ame perdidamente Lisboa e isso o tenha levado a abrir todos os estaleiros ao mesmo tempo, freneticamente, como se de repente a vida dele tivesse entrado em obras profundas e essa dinâmica fosse tão inevitável como a queda das folhas no outono. Ou então o presidente da câmara quer apenas ganhar as eleições autárquicas, a hipótese mais provável e banal, e acredita que deve mostrar obra - muita obra, obras em ruas de pernas para o ar -, antes das eleições chegarem, para impressionar os lisboetas e assustar os adversários.

Opinião

As fatwas de Marques Mendes

Dizem por aí que o ministro da Economia vai ser corrido, deflacionado, vai ser deslocalizado, afastado por António Costa. Deve ser um problema da Economia, poucos lhe sobrevivem muito tempo, tenham ou não currículo para mostrar e algum trabalho feito no entretanto. Álvaro tinha apelido (Santos Pereira), não tinha era partido, não era militante do PSD, e então foi rapidamente chutado para França com a autoconfiança abalada. Felizmente, Paris opera maravilhas em qualquer alma, podia ter-lhe calhado destino pior.

André Macedo

A RTP: o que mudou

Dentro de alguns dias vou começar a trabalhar na RTP. Nunca pensei que este dia chegasse. Nunca me passou pela cabeça que me convidassem e que eu aceitasse trabalhar numa empresa pública - ainda por cima ligada aos media. Não se trata de preconceito - ou talvez apenas em parte o fosse. Eu venho dos jornais e nos jornais a presença do Estado como patrão deixou de fazer sentido há muitos anos, é arqueologia. Esta presença tornou-se estranha a partir do momento em que os privados ocuparam esse espaço nas diferentes latitudes - servindo públicos mais ou menos exigentes, leitores que procuravam informação especializada, financeira ou desportiva, etc., etc. -, e fazendo-o competentemente, embora também aqui com inevitáveis erros e distorções. Na verdade, na imprensa o capital privado revelou-se mais capaz e livre do que a condução pública.

Editorial

Até já

Talvez seja um pouco paroquial ou vaidoso escrever na primeira pessoa do singular este meu último editorial no Diário de Notícias. Escrevi tantos ao longo dos últimos dois anos e em nenhum deles fui por esse caminho. Procurei até despessoalizar os textos com um objetivo assumido desde o primeiro momento: o importante seria posicionar o jornal, mostrar aos leitores como lemos o mundo à nossa volta, evitando a demagogia e o simplismo que tudo vê a preto e branco. É evidente que não o consegui nalgumas ocasiões e os leitores, em boa hora, fizeram-mo saber, levando-me a moderar o que antes me parecia um assunto de interpretação única e inequívoca.

Editorial

As curvas do Orçamento

Portugal dedica-se a duas bizarrias informativas quase sem paralelo no mundo inteiro. A primeira: as televisões e as rádios generalistas acompanham o sobe e desce diário da bolsa, o célebre PSI 20, apesar de já quase não existir capitalismo popular, de o mercado ser um forte depressor nacional e de este ser um indicador absolutamente epidérmico. A segunda bizarria: seguindo uma dieta parecida, todos os meses as notícias enchem-se com a chamada execução orçamental, isto é, com o relatório de impostos cobrados e despesas feitas pelo Estado até esse momento, isto apesar de a interpretação destes números ser tudo menos linear. Os primeiros meses do ano estão sempre contaminados pelas decisões do ano anterior - para o bem ou o para o mal. E no segundo trimestre, quando a poeira começa de alguma maneira a assentar, é preciso depurar o efeito de medidas avulsas, pagamentos a fornecedores que podem ser adiados, além de alterações estatísticas que acabam por perturbar a comparação com o mesmo período do ano anterior. Em 2016, além desta complexidade natural, juntou-se o facto de o Orçamento só ter sido posto a andar em abril por causa das eleições, o que torna ainda mais complexa a sua leitura. Como é sabido, o aumento de despesa com salários na função pública vai acontecer progressivamente e não de uma só vez, o que torna o seu efeito orçamental escorregadio. O resultado da redução do IVA na restauração sofre do mesmo problema, já que a medida só entrou em vigor em junho. Perante tantos obstáculos e jogos de espelhos, além da terrível incerteza económica que nos rodeia, o mínimo que se pode dizer é que todos os resultados devem ser lidos com prudência. Ainda assim, até agora podemos concluir que para compensar o pior desempenho da receita (a receita efetiva aumentou 2,9% contra uma meta anual de 5%), o governo tem esmagado algumas das principais rubricas da despesa, que até junho aumentou 0,2% em termos homólogos, quando a meta anual é de 5,6%. Chega para atingir um défice abaixo de 3% do PIB e um crescimento sofrível - e já revisto em baixa - de 1,4%? Talvez, embora lá para setembro o quadro se torne finalmente mais claro, menos partidarizável.

Editorial

Os burocratas

Todos os anos ou quase a chanceler alemã reúne-se com os funcionários europeus alemães. Talvez se possa chamar "agradecimento" a esta boa iniciativa. Uma manifestação pública de respeito pelo trabalho que eles desenvolvem em todos os níveis da máquina europeia. Politicamente, este gesto assume ainda outro significado: mantém e cultiva os laços, cria espírito de corpo com estes milhares de pessoas expatriadas. Não significa isso que estes funcionários europeus - que depreciativamente chamamos de burocratas - estejam nos seus postos de trabalho apenas a defender os interesses alemães. As hierarquias de Bruxelas implicam um cruzamento de nacionalidades que neutralizam ou pelo menos tentam reduzir em parte esta tentação nacional, além de que o peso específico político da Alemanha entre os 27 (sem Reino Unido) já é suficiente para que no topo da pirâmide a influência de Angela Merkel se faça sentir naturalmente. Ainda assim, este impulso permite que a informação circule mais depressa e faz com que talvez se negoceiem melhores decisões na ótica de Berlim. A colocação de pessoas de certas nacionalidades em lugares-chave da tecnocracia faz parte da anatomia da União Europeia, bem como a localização dos serviços. Por exemplo, a sede do Banco Central Europeu fica em Frankfurt, o que torna este poderoso regulador e emissor de moeda mais sujeito a ouvir o que dizem os políticos alemães. Mario Draghi já tem as orelhas quentes de tanto escutar críticas sobre a atual condução da política monetária - e ainda assim não tem hesitado, apesar de isso o condicionar. Em 2019, quando terminar o seu mandato, talvez a Alemanha consiga fazer eleger um seu nacional para esse lugar - Schäuble já verbalizou essa perturbante intenção. E Portugal, como fica? A desilusão relativa a Durão Barroso já está digerida ou quase. O comissário europeu Carlos Moedas é agora o representante nacional com mais poder - e não tem defraudado. É reconhecido o esforço que tem feito dentro da Comissão para contextualizar o difícil caso financeiro e económico português, além de que tem revelado a justa disponibilidade para vir a Portugal (ontem esteve numa conferência organizada pelo DN) explicar o labirinto da UE, desfazendo mitos e trazendo alguma claridade. Mas é preciso mais: a reunião anual ou quase anual promovida por Angela Merkel é uma boa política, é uma ótima rotina que talvez pudesse inspirar o governo de António Costa. Não era mal visto. Europeus, sim - mas também portugueses.

Editorial

Um assunto vital

O sentido das proporções é talvez a característica mais importante de quem avalia seja o que for. O FMI não acredita nisso. Uma inundação grave numa cidade com a dimensão de Beja será para o Fundo Monetário Internacional o mesmo do que uma inundação numa capital com o tamanho de Lisboa. As características são de facto semelhantes - água por todo o lado, entupimentos, lojas e casas alagadas, pavimento levantado, pessoas assustadas, alguma desorientação, a obrigação pública (política) de intervir depressa. Do ponto de vista formal, sim, uma inundação é uma inundação é uma inundação. Como um problema no sistema bancário é isso mesmo, aconteça ele em Chipre, em Roma ou no coração de Wall Street. Haverá nos três casos uma montanha de crédito malparado, que acaba reconhecido nos balanços das instituições financeiras com a designação de "imparidade" - isto é, dinheiro emprestado que só será recuperado em parte ou não o será de todo. Por exemplo, a Ongoing pediu ao BES, ao BCP e ao Montepio (a este último, apenas um bocadinho...) 790,5 milhões de euros, mas só se dispôs agora a devolver 17,4 milhões num confortável prazo de 15 anos. A proposta foi recusada por todos os credores. Imparidade é este bonito serviço. É o contrário de uma inundação de capital, é uma carestia de tal ordem que os balanços dos bancos ficam em risco de vida (na pior das hipóteses) ou vivem com dificuldades, não só porque não chega a liquidez que era suposto entrar, mas também porque os reguladores, para assegurar a solvência (segurança) do banco, forçam a gestão a pôr de parte uma outra fatia de dinheiro. E aqui chegamos ao FMI. Com a delicadeza do costume e a memória de elefante (estiveram por cá entre 2011 e 2014, não foi?), o fundo coloca o buraco no sistema financeiro italiano (360 mil milhões, um terço do malparado contabilizado na zona euro) ao nível dos 20 mil milhões que se assume estarem em apuros na banca portuguesa. Ora, se em relação ao PIB de cada país a conta já está errada, a história ainda muda mais de figura quanto ao impacto europeu. Se a Itália rebenta, é o armagedão; se Portugal estoura ou vai estourando devagarinho, a hipótese de contágio na zona euro, existindo, é proporcionalmente mais pequena. A diferença entre um murro e uma chapada. Dito isto, dois pontos apenas: 1) é evidente que o resgate de 2011 subavaliou o problema nos bancos, embora se tivesse sido emprestado mais dinheiro na altura hoje a dívida pública estaria talvez mais próximo dos 150% do PIB e não nos 130%, o que traria problemas de sustentabilidade; 2) apesar da má consciência do FMI neste assunto e da sua absoluta falta de sentido político (relatórios como o de ontem agravam logo a perceção do risco-país) é essencial que o governo tenha sangue-frio e, mais do que nunca, fale para os mercados e os convença com números e factos, o que é muito diferente de negociar e arengar com Bruxelas. O que está em jogo é, de facto, muito importante. É vital.