"Uma rapariga simpática, educada e de poucas falas"

Família de Sónia chegou ao bairro social, na Amadora, quando ela era muito pequena. Nasceu em Angola e é a mais nova de três irmãos

As bermas da longa Estrada Militar na Amadora encobrem muitas famílias e realidades. Alcatrão a cobrir um monte numa zona que já foi conhecida por Carenque e que agora passou para a freguesia da Mina. Muitas barracas e habitação clandestina. Só quem conhece entra no bairro onde moram os pais de Sónia, sexagenários reformados e que há 30 anos emigraram com os três filhos pequenos para Portugal. Ontem, dia de chuva, mais inóspito parece, com os vizinhos a recolherem-se atrás das janelas. A mãe não abre a porta. O pai chega por volta as 18.00 e não fala. Vem buscar a mulher para a levar ao hospital. Ela está a passar mal.

Carla Costa, 41 anos, empregada de mesa, toca à porta dos pais da amiga. Regressa sem lhes dar o abraço de apoio que trazia e para lhes dizer: "Podem contar sempre comigo." Não lhe abrem a porta.

"Éramos três, onde estava uma estavam as outras", recorda. Ao grupo, além de Sónia, juntava-se a Susana, dois anos mais nova do que Carla e dois anos mais velha do que Sónia, 37 anos. Embora em anos diferentes, acompanharam-se na primária na escola da Venteira, passaram para os 2.º e 3.º ciclos na Francisco Manuel e Melo, concluíram os estudos na secundária da Siomara da Costa Primo, onde a amiga terá feito o 12.º ano.

Iam ao café, muitas vezes se sentaram numa espécie de pátio em frente à casa dos pais de Sónia a conversar. "É uma amiga, uma miúda calma, muito calada, era preciso 500 anos para lhe arrancar uma palavra. Ainda não acredito no que aconteceu", repete Carla. Acrescenta que a amiga teve uma depressão antes de se juntar com Nélson e que ela terá pensado que a sua vida iria ser melhor. "Enganei-me, não ajudou!"

Sónia Lima é a mais nova de três irmãos. A irmã mora em Londres e o irmão em Portugal. Na terça-feira, na sua página do Facebook, "Lima Fuzileiro" partilhou a foto do pai das crianças, pedindo ajuda para o encontrar e levar à justiça o homem que denominou de animal", acusando-o de ser o responsável pelo que aconteceu às sobrinhas. E, já ontem, partilhou uma publicação com a mensagem: "RIP meus lindos anjos. Vocês vão estar no meu coração para sempre." As publicações sugerem comentários tanto de apoio como de indignação pelas palavras.

Sónia estava desempregada e o único emprego que lhe conhecem no bairro foi o de revendedora de produtos da Avon. "Comprava-lhe perfumes, cremes para a cara, falava com ela. Boa rapariga e educada, nem acredito que tenha feito aquilo. Devia estar num grande desespero", comenta Maria Garcia, 63 anos, reformada.

Simpática, educada, reservada, introvertida são os adjetivos que lhe atribuem. Não têm queixas da menina que cresceu no bairro e que se tornou menos presente nos últimos anos. Poucos querem falar e quem o faz é para tecer elogios à família e dizer como ficaram consternados. Ultimamente não viam muito a rapariga. Souberam que estava a viver com um rapaz, Nélson Ramos, 35 anos, técnico de audiovisuais, cuja família era do Norte, onde vivem os pais. Algumas vezes, Sónia terá aparecido pelo bairro da Amadora, quando se zangava com o ex-companheiro, conta-se. A última em novembro, depois de se ter separado. Há quem diga que lhe perguntaram: "Então, por cá?" Ao que a mulher respondeu: "É, são umas férias."

Viveu durante algum tempo no bairro e mais recentemente mudou-se para a casa da madrinha em Castanheira do Ribatejo. Foi lá que Nélson Ramos viu pela última vez as meninas, sábado dia 6. Uma visita em que estavam acompanhadas pela mãe e outras pessoas, como sempre acontecia. Também não correu bem desta vez. E foi devido a essas dificuldades que procurou um advogado. Em comunicado diz que "procurou ser um pai presente" e que as visitou sempre que lhe foi permitido". Este ano passou a dar uma pensão de alimentos de 200 euros. Promete "esclarecimentos" para "quando se sentir capaz".

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