Uma manhã a descobrir os segredos da Lisboa autêntica

Roteiros de animação turística têm vindo a crescer, com ofertas que também piscam o olho aos lisboetas. O DN juntou-se a uma dessas viagens pelos becos e ruelas de Alfama
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Ainda não passam cinco minutos das dez e o grupo já está reunido no Largo das Portas do Sol, junto à estátua de São Vicente, em Alfama. A luz matinal irrompe sem cerimónia num dos muitos pontos afortunados para se apreciar a cidade, ainda suficientemente livre e espaçosa àquela hora. E agradecemos a hora marcada de um dos primeiros percursos do Lisboa Autêntica, uma empresa de animação turística que tem vindo a crescer, de ano para ano, com ofertas para todos os gostos. O horário é escolhido para se poder andar mais à vontade, entre o bombear do coração do bairro, entre ruelas e vielas, becos e escadinhas, num regresso à autenticidade da história e das memórias da velha Lisboa.

O propósito é descobrir e conhecer os pequenos segredos de um dos bairros místicos da capital, local de estivadores e marinheiros no século XVI. O nome Alfama deriva da palavra al-hamma que significa banhos ou fontes, começa por explicar a guia depois de se apresentar ao grupo de dois portugueses e três franceses que chegam pontualmente ao Alfama Autêntica, um dos muitos passeios temáticos da empresa. "Em Alfama havia água, muita água, termal ou mineral", começa por narrar Rita Azevedo, que conhece Alfama como a palma da mão e que uniu a paixão de Lisboa à utilidade do curso de História de Arte para conduzir curiosos, locais e estrangeiros que queiram conhecer um pouco mais desta zona da cidade. "O Lisboa Autêntica é isso mesmo, revelar a autenticidade da cidade, é o nosso objeto de trabalho que serve todos os pedidos. Nesta tarde, por exemplo, vou fazer um peddy paper que começa em São Pedro de Alcântara com um grupo de noivas duma despedida de solteira."

Rita concorda que o maior fluxo de turistas veio aumentar o número de passeios - "Há dias em que estou oito horas a falar inglês" - e o Lisboa Autêntica dispõe de vários guias com idiomas que vão do russo ao polaco, mas ainda assim aponta para o grande interesse dos que moram e trabalham em Lisboa, mas que aos fins de semana e nas férias querem conhecê-la melhor.

Visita ao coração de Alfama

Hoje Alfama é a razão para duas horas e meia de passeio. "Continua a ser um dos percursos mais populares e cada guia dá-lhe sempre um novo ar, é bom haver várias visões sobre a cidade", explica Rita, que escolhe como ponto de partida o mural do ilustrador Nuno Saraiva que conta a história da cidade numa espécie de banda desenhada, um símbolo de arte e cor na entrada da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior. Outros símbolos e simbolismos surgirão, à medida que entramos no coração do bairro.

"Alfama era lamacenta e estreita, imaginem o que é passarem dois coches ou liteiras, um em cada sentido, por estas ruelas, às vezes, as disputas entre nobres acabavam em duelos", acrescentando que a prioridade era cedida a quem tivesse maior estatuto social. A guia explica que para evitar aborrecimentos e contratempos entre os aristocratas que se moviam por Alfama, o primeiro sinal de trânsito data de 1686, segundo ordem do rei. E ainda se percebem algumas palavras da inscrição, mas depois de várias tentativas por parte do grupo, Rita decifra a mensagem régia: "Sua Majestade ordena que coches, liteiras e seges, que vêm da portaria do Salvador, recuem à mesma parte." Ordem cumprida e o grupo recua ainda mais dentro do coração de Alfama para seguir viagem entre a história e a memória dos que vivem ali desde sempre.

A caminho das Escadinhas das Escolas Gerais, três idosas põem a conversa em dia, à janela. Rita regressa ao presente. "Há uma grande faixa de população envelhecida em Alfama, é costume terem cestos que sobem e descem com os básicos de mercearia, conheço o caso aqui de uma senhora que já não sai de casa há 15 anos, a escada do prédio é muito íngreme, ainda se sente um espírito comunitário nas ruas." Hostels e muitas casas de alojamento local têm dado, nos últimos tempos, um novo retrato a Alfama, com muitos estrangeiros a entrar e a sair a cada semana. Paramos num deles onde se lê, na entrada, nas letras a azulejo gastas pelo tempo, Páteo dos Quintalinhos, e paramos para ouvir mais uma história. "Este pátio hoje transformado em hostel, no século XIII chegou a albergar os terrenos da universidade aqui em Lisboa, lá dentro ainda se encontram também vestígios de uma vila operária", mostra a guia, apontando para a chaminé do prédio. Ali bem perto, no Largo do Salvador, é agora onde ensaiam as marchas de Alfama, no antigo convento.

Seguimos até à Morgadinha de Alfama, na Rua da Regueira, para saudar o papagaio à porta que vai dizendo olá a quem passa. "Estamos com sorte hoje, ele costuma usar outro tipo de vocabulário!", assinala Rita, que, entre risos, já vai falando do Beco do Alfurja e do Carneiro que ficaram bem mais "apertados" depois do terramoto. "Reparem bem como a parede está bem mais inclinada aqui, e mais uma vez, o nome da rua, a dar-nos indicação de que aqui havia uma regueira, esta era a única colina de Lisboa com água boa para se beber, já vamos lá abaixo ao chafariz para perceberem onde se abastecia o povo da cidade e onde tomava banho, Alfama tinha muitos balneários." Junto ao Largo do Chafariz de Dentro, onde os edifícios da ponte ainda se unem pela muralha, ficamos a saber que se tomava banho em Alfama por 400 réis, nas alcaçarias, onde funciona hoje o balcão de um banco. "As alcaçarias eram geridas por famílias que alugavam os banhos a quem estivesse disposto a pagar. Lê-se aqui que os indigentes podiam optar por tanques e que a água estava nos 24 graus. Nada mau!" Mais saberemos no Chafariz dos Paus, outrora chamado Chafariz dos Cavalos, possivelmente pelas bicas de bronze em formato de cabeça de cavalo. Na Fonte das Ratas, parece que a água tinha múltiplas virtudes terapêuticas. "Há relatos de que o ritmo de encher garrafões só abrandava entre as 03.00 e as 05.00, toda a gente vinha aqui buscar água."

Depois de vários becos e antigos lugares, o passeio já termina na Sé, onde ainda sobra tempo para a história do Beco do Quebra-Costas, chamado assim devido às muitas quedas que as pessoas davam, sem escadas, quando vinham por aqui. "Imaginem isto em dias de chuva, tudo em lama e terra e porcaria, era mesmo escorregadio. Até ao século XIX, o nome do beco era outro, mas tenho de dizer baixinho, vamos mais para ali." Segredos para outras visitas.

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