"Um animal nunca pode ser um presente-surpresa"

Do trabalho que faz junto dos animais de rua, Maria Pinto Teixeira não nota qualquer diminuição no abandono de cães e gatos em Portugal. Se não é possível adotar, apela a que seja apadrinhada a esterilização

Estamos a aproximar-nos do Natal. Esta é uma altura em que são oferecidos muitos animais de estimação?

Sim, sem dúvida. E notamos um grande aumento no abandono nesta altura. É quase tanto como nos meses de férias, em agosto e setembro. Como é um período de solidariedade e compaixão, é sempre uma altura excelente para adotar um animal, mas que seja um presente de família. Um animal nunca pode ser um presente-surpresa. A adoção deve ser uma decisão consciente de toda a família. Por vezes, há um membro que quer, leva o animal para casa e no início corre tudo bem porque o animal é pequeno e fofinho. Mas depois cresce, dá trabalho e daí o abandono nos meses de janeiro e fevereiro. É muito cruel. Além disso, toda a gente deve pensar em adotar e não em comprar. Há muitos animais a precisar de ser adotados. Ao comprar, estamos a impedir esses animais de terem uma família feliz.

Como é que a Associação Animais de Rua se apercebe desse aumento do abandono após o Natal?

Nós não temos um abrigo, o que fazemos é a esterilização de animais de rua. É nas colónias de gatos silvestres que nos apercebemos desse abandono. Por vezes, as pessoas limpam a sua consciência a abandonar um gato numa colónia, porque acham que fica protegido. Mas abandonar um gato numa colónia é uma sentença de morte. Eles não ficam bem, porque não estão preparados para escapar ao trânsito, para fugir dos cães, para lutar pela comida e, além disso, são atacados pelos residentes. Duram muito pouco tempo na rua.

Qual é o trabalho desenvolvido junto dessas colónias?

Temos vários protocolos municipais e há autarquias que já deixaram de abater os animais. Da nossa parte, há captura, esterilização, tratamento de eventuais patologias e desparasitação. Depois, os animais são devolvidos ao meio. Há um cuidador que alimenta, verifica se há um novo elemento e avisa a associação. É tão violento para um gato silvestre ser obrigado a viver numa casa como o contrário. Também temos um programa de adoções, através do qual entregamos cerca de 300 cães e gatos por ano para adoção.

Sabe-se quantos animais abandonados existem em Portugal?

Estima-se que exista um milhão de animais a viver na rua. Desde 2005, já esterilizámos cerca de 18 mil animais em todo o território nacional. É um número que nos orgulha, mas é apenas a ponta do icebergue. Temos sete núcleos a funcionar no país e é aí que atuamos, tanto a esterilizar animais como a ajudar famílias carenciadas que têm animais.

Aquilo que acontece com os gatos também se passa com os cães...

Sem dúvida. As pessoas estão a abandonar os cães nos canis municipais com a ideia de que foi aprovada a lei que põe fim ao abate, mas a lei ainda não está em vigor e continuam a ser abatidos muitos animais. Não há espaço. Os cães estão em jaulas sobrelotadas. Entre aqueles que vão para a rua, raros são os que têm oportunidade de ser acolhidos por associações. Os abrigos estão sobrelotados, daí tentarmos atuar na raiz do problema. Ao ritmo que os animais se reproduzem, é impossível encontrar acolhimento para todos.

O que é que leva as pessoas a abandonar os animais?

Muitas vezes a adoção é feita por impulso, principalmente porque os animais muito novos são muito queridos e é muito fácil a pessoa se apaixonar. Mas depois começam a dar trabalho. Quando o encanto inicial começa a desvanecer-se, ou as pessoas têm noção que têm um ser vivo aos seus cuidados ou facilmente se descartam do "brinquedo novo". Daí o acompanhamento que damos às famílias que adotam animais.

Que tipo de acompanhamento é feito?

Quando adota um animal, a pessoa assina um termo de responsabilidade, através do qual se compromete com esterilização, idas ao veterinário para vacinas e para colocar o microchip. São dados conselhos, que vão desde os cuidados de alimentação às necessidades de passeio. Além disso, a pessoa permite visitas domiciliárias. Nós entramos em contacto, pedimos fotografias do animal, fazemos visitas.

De que forma é que as pessoas podem ajudar?

A primeira coisa a fazer é adotar, mas há muita gente que gosta de animais e por diversas razões não pode adotar. Podemos apadrinhar. Fazemos uma diferença estrondosa na vida de um animal se apadrinharmos a sua esterilização, porque este não vai gerar mais animais para viver na rua, torna-se mais saudável, mais sedentário. A nossa associação tem também uma loja virtual com artigos solidários e um número solidário (760300161). Qualquer pessoa pode ser voluntária. Se tiver horas livres, pode dedicá-las a ajudar estes animais.

A crise fez aumentar o abandono de animais. Qual é a situação neste momento?

Não há números oficiais. O que notamos empiricamente é que não há um decréscimo no abandono. Todos os verões e nos meses a seguir ao Natal há muitos animais abandonados. Mas o que também notamos é que há muitos contactos de pessoas que não têm dinheiro, mas que não querem abandonar os animais. Prestamos apoio ao nível de cuidados médico-veterinários a animais que vivem com famílias carenciadas e sem-abrigo, permitindo que os mantenham consigo. Já se nota que esgotam todas as possibilidades antes de abandonar.

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