O consumo de cafeína previne a neuroinflamação no hipocampo e protege a memória contra o impacto de dietas hipercalóricas e que propiciem o ganho de peso, demonstra uma nova investigação desenvolvida na Nova Medical School. O projeto pioneiro, da equipa de investigadores coordenada por Sílvia Conde, em modelo animal traz nova luz sobre a forma como o cérebro lida com o envelhecimento metabólico, a obesidade e a diabetes.No centro desta descoberta, está o hipocampo, a região cerebral encarregada da memória, e as suas células de defesa, a micróglia, como explica ao DN a coordenadora do projeto, cujos resultados foram publicados na revista científica Pharmacological Research, em fevereiro deste ano, mas que a equipa decidiu agora tornar públicos fora do meio científico. “As micróglia, normalmente, funcionam como células, vamos dizer, de limpeza”, explica Sílvia Conde, mas quando “expostas a estímulos inflamatórios, como é o caso destas dietas obesogénicas, elas ficam ativadas e alteram-se para um padrão inflamatório”.A equipa da Nova Medical School – que além de Sílvia Conde, ainda conta com Adriana Capucho, a estudante de doutoramento que assina o projeto, e também José Leão – conseguiu demonstrar que uma dieta rica em gorduras e açúcares, promotora de obesidade, gera resistência à insulina e intolerância à glucose. E que, por sua vez, o peso em excesso provoca piores desempenhos cognitivos devido ao aumento da inflamação cerebral, sobretudo no hipocampo, região crítica para a memória e aprendizagem.. É aqui que a cafeína entra em ação como uma equipa de socorro: “O que a cafeína produziu foi prevenir o desenvolvimento deste padrão inflamatório”, sublinha a cientista, “bloqueando os recetores de adenosina” para evitar o curto-circuito na regulação metabólica e na memória.Traduzindo a ciência de laboratório para o balcão do café, a dose necessária para ativar este “escudo protetor” não exige consumos excessivos. “A dose que nós aqui testámos, foi de três a quatro cafés por dia e por um período, nos animais, que foi bastante longo, a que equivale, no homem, um período considerável”, esclarece Sílvia Conde.A descoberta ajuda a desconstruir velhos preconceitos sobre a bebida, com a investigadora a notar que isto não é novo. Hoje, “já se pode saber que este mito de que a cafeína não seria benéfica, até mesmo do ponto de vista cardiovascular, já se está a perder”.Apesar dos resultados promissores, a cientista faz questão de alinhar expetativas e impor uma distinção rigorosa quanto à aplicação clínica da descoberta. “Isto é uma estratégia preventiva e não, evidentemente, uma estratégia terapêutica”, avisa Sílvia Conde, salientando que a cafeína atua como uma barreira protetora precoce e não como um remédio curativo. Em fases avançadas de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, a margem de manobra dos tratamentos torna-se drasticamente reduzida.É precisamente por isso que a verdadeira utilidade desta descoberta reside na intervenção atempada, muito antes de surgirem falhas de memória gravosas. Ao combater a neuroinflamação logo nas etapas em que a obesidade, a resistência à insulina e a diabetes começam a perturbar silenciosamente o ecossistema cerebral, a cafeína consegue travar a cascata de estragos no hipocampo logo na origem. “Nós aqui estamos a ver um efeito preventivo”, reforça a investigadora, transformando o consumo moderado de café numa janela de oportunidade vital para proteger a longevidade cognitiva de populações expostas ao stress metabólico dos estilos de vida modernos.Olhando para o futuro, as próximas etapas passam por levar estes conhecimentos dos modelos animais aos humanos. Entre as metas da equipa está a possibilidade de “poder correlacionar o consumo de cafeína com testes, do ponto de vista cognitivo, em pessoas com obesidade e com diabetes e pessoas sem obesidade, para perceber realmente o impacto que o café poderia ter”, avança Sílvia Conde.Até lá, a habitual pausa para o café ganha um argumento reforçado: o de ser um pequeno gesto diário com grande potencial na proteção da memória.