Em 2023, cerca de 62% dos postos de trabalho da Administração Pública eram ocupados por mulheres, o que implicaria, e se se mantivesse esta proporção nos cargos de liderança, que a relação “natural” seria de cerca de 163 mulheres dirigentes para cada 100 homens. Mas não é isso que acontece, segundo a mais recente análise do PlanAPP, (Centro de Competências de Planeamento, Políticas e Prospetiva da Administração Pública), organismo do Estado que analisa os dados oficiais para apoiar as políticas e as tomadas de decisão governamentais. Ou seja, mesmo existindo legislação que estipula a relação de feminilidade com os cargos dirigentes, no mínimo em cerca de 40%, esta meta não é cumprida. .A realidade tem ainda maior peso quando se analisa o universo do Serviço Nacional de Saúde (SNS), um setor onde cerca de três em cada quatro trabalhadores são mulheres, mas onde os cargos de liderança máxima (como presidentes de conselhos de administração) ou intermédia pertencem maioritariamente aos homens. .A análise realizada pelo PlanApp, no âmbito de um trabalho que está a ser feito sobre o SNS, desta vez sobre o mote “Trabalho, Liderança e Género no SNS”, vem demonstrar, precisamente, o desfasamento que existe nas lideranças em relação à proporção do género. Segundo se pode ler no documento publicado recentemente na página deste organismo do Estado, “apesar dos avanços legais e socioeconómicos recentes, as mulheres - mesmo formando a maioria da força de trabalho - continuam sub-representadas nos órgãos de decisão e liderança”..Sendo que “o domínio que representa a participação feminina nos espaços de poder é o que apresenta um valor mais baixo no Índice de Igualdade de Género, tanto em Portugal como na União Europeia, embora com intensidades distintas”. .No caso específico do SNS, a análise realizada demonstra também que a probabilidade de um profissional deste setor, independentemente do seu género, assumir uma posição de liderança é ainda menor do que a probabilidade média da generalidade da população ativa. Porquê? Porque, explica o mesmo documento, no SNS existe mesmo “o efeito funil”, menos cargos de liderança intermédia do que em qualquer outro setor do mercado de trabalho. .“A proporção de cargos de liderança no SNS é bastante inferior à da média do mercado de trabalho, evidenciando um desajustamento relativo no número de posições de chefia no SNS, que apresenta uma estrutura de gestão intermédia mais escassa”, lê-se no documento. .Ora esta realidade também “afeta a razão de probabilidade de ocupar um cargo de chefia para as mulheres, em relação aos homens”. Por exemplo, enquanto na população em geral (entre 0 a 1 de hipóteses) as mulheres têm cerca de 0,57 das hipóteses de um homem para ocupar um cargo de liderança, no SNS essa possibilidade desce para 0,47..O documento explica que “a força de trabalho do SNS é esmagadoramente feminina - cerca de 3 em cada 4 trabalhadores são mulheres -, mas no caso da liderança máxima das organizações - o equivalente a Presidente do Conselho de Administração ou Diretor-Geral -, o limiar mínimo de 40% de representação por género, previsto na lei, em 2022, ainda não foi alcançado”. .As razões para que tal aconteça parecem estar associadas a “obstáculos culturais e estruturais”, embora na análise disponível não haja mais detalhes sobre esta questão, bem como em relação à percentagem efetiva de mulheres em cargos de liderança. .No entanto, é destacado que, mesmo a lei não estando a ser cumprida, têm existido alguns progressos, nomeadamente “entre 2018 e 2022, com uma tendência de crescimento na participação relativa das mulheres na liderança do SNS, sobretudo nos cargos de dirigentes intermédios. Nos cargos de topo, a relação de feminilidade estabilizou no período pós-2019, fenómeno conhecido como a existência de um ‘teto de vidro’”.