"Todos os maçons se devem assumir como maçons. Faço um apelo aos meus irmãos para que se assumam" 

O grão-mestre cessante do Grande Oriente Lusitano assume ao DN que teria preferido que o seu sucessor fosse o jovem Carlos Vasconcelos e não o sénior Fernando Cabecinha, a bem do rejuvenescimento da organização. E pede mais exigência no recrutamento

Dez anos à frente do Grande Oriente Lusitano (GOL). A liderança de Fernando Lima Valada da mais antiga obediência maçónica portuguesa foi a mais duradoura na organização desde o 25 de Abril - e hoje chega ao fim, com a tomada de posse do seu sucessor, Fernando Cabecinha. Entrevistado pelo DN na sede da organização, no Bairro Alto, em Lisboa, o grão-mestre cessante, Fernando Lima Valada, faz um balanço dos seus três mandatos. Do que correu bem - mas também do que correu mal.

Nunca sentiu que era tempo de mais, nomeadamente quando se candidatou a um terceiro mandato (2017-2021)?
Não, não senti isso. Quando me candidatei a um terceiro mandato foi por um conjunto de circunstâncias e pediram-me isso. Portanto, não, não senti isso.

Admite que se legisle internamente para limitar mandatos ou isso é um falso problema?
É preciso sabermos bem o que é a Maçonaria. Se isto fosse uma associação, um partido político, isso faria sentido, do ponto de vista democrático. E também faria sentido na Maçonaria. Mas a sua natureza interna e a forma como nos regemos faz com que, por vezes, tenhamos de misturar a democraticidade dos processos com a vontade genérica que nos vem empurrando. E portanto existe esta mescla entre democraticidade e a natureza própria da nossa instituição.

Em que é o GOL ficou melhor depois do seu longo consulado como grão-mestre?
Nas instituições, como na vida, há momentos em que estamos melhor e momentos em que estamos pior. Apesar de tudo, apesar de tudo nem sempre ter sido perfeito - nunca o será -, acho que hoje o GOL está melhor do que estava no passado. Está melhor na autonomia das suas lojas, na sua localização física, está melhor em termos de organização e em termos administrativos, financeiros e patrimoniais, está melhor na solidariedade interna e está melhor na comunicação - ou seja, no conhecimento da Maçonaria fora da Maçonaria.

A organização está hoje mais bem vista do que estava, antes de chegar a grão-mestre (2011)?
Está mais conhecida e mais bem vista. Mas como em todas as situações, uns veem melhor e outros veem pior. E tem mais exposição. Temos alguns estudos de notoriedade, que mandamos fazer mas que não são públicos, onde isso é evidenciado.

Há alguma coisa que assuma que falhou?
Naturalmente que sim. Houve duas coisas que eu gostaria que tivessem acontecido e que não aconteceram. Em primeiro lugar, sou apologista da ideia - aliás defendida por António Arnaut ["pai" do SNS e grão-mestre do GOL de 2002 a 2005] - de que todos os maçons se devem assumir como maçons. Naturalmente, com liberdade de consciência, ninguém pode obrigar ninguém. Não há razão nenhuma para o mito de que os maçons não assumem essa qualidade. Em segundo lugar, uma questão interna: gostaria muito que todo o edifício legislativo interno tivesse sido revisto e isso não aconteceu. São documentos notáveis mas para o período em que foram feitos, logo após o 25 de Abril. Mas hoje o momento é diferente e apesar de eu ter sugerido essa revisão várias vezes, acho que não consegui sensibilizar os maçons.

Consegue dar algum exemplo ao mundo profano de uma mudança nessa arquitetura legislativa que poderia ter repercussão na ação do GOL?
Consigo dar uma ideia genérica: temos regulamentos a mais, constituições a mais, normas a mais. O que se quer é homem livre em loja livre e as obediências subsidiárias das lojas e não haver aqui tentações em sentido contrário.

Já falou da questão do sigilo das filiações na Maçonaria. Faz sentido nos dias de hoje uma organização assim? Não é algo que acaba por fragilizar mais a Maçonaria do que a defender?
Há um equívoco nessa matéria, é um mito urbano. O GOL não é secreto. Está na rua do Grémio Lusitano nº 25, a nossa organização é conhecida, o património é conhecido, a nossa relação institucional com outras organizações é conhecida. Não é verdade que sejamos uma sociedade secreta. Esse argumento terá servido alguns interesses mas não é verdade. O segredo maçónico é um segredo íntimo de cada, como nós temos os nossos segredos nas nossas famílias, os seus segredos internos. Este é que é o verdadeiro segredo e por isso defendemos a liberdade de consciência e não queremos violações da liberdade de consciência. Seja como for, faço um apelo a todos os meus irmãos para que se assumam como maçons, aqueles que entenderem com isso não haverá nada que os prejudique.

"Há um grão-mestre eleito e eu respeito-o totalmente, é o meu grão-mestre. Mas não escondo que tinha uma preferência pelo candidato mais novo, o Carlos Vasconcelos. Acho que a Maçonaria também tem de se rejuvenescer."

Tirando o covid, que foi e é obviamente um momento difícil para toda a gente, que é o outro momento mais difícil que regista nestes dez anos de grão-mestre?
Quem esteve à frente de várias organizações, durante mais de 45 anos, como é o meu caso, tem sempre alguma dificuldade de dizer que este ou aquele foram os momentos mais difíceis. Não consigo fazer isso. Passamos por momentos mais fáceis e por momentos mais difíceis mas o resultado final positivo é o que importa.

Houve escândalos na Maçonaria nos últimos dez anos mas na verdade os maiores foram noutras obediências maçónicas, não no GOL. Como é que o GOL se pode defender de escândalos que atingem a Maçonaria no seu todo mas que na verdade ocorrem noutras obediências?
Eu não vejo as coisas assim. Costumo dizer que não acuso a Igreja Católica por ter padres pedófilos. Não sou católico mas respeito a Igreja Católica e acho que não é afetada no seu todo por isso...

...Mas pode achar que a Igreja Católica, enquanto estrutura e hierarquia, não sabe lidar com esse problema...
...Eventualmente. A Maçonaria é uma instituição humana constituída por centenas de pessoas, milhares no mundo inteiro. Se existem dois ou três ou quatro casos que podem ser escândalos, é uma minoria das minorias. Não se pode julgar uma instituição por isso.

Mas pode considerar-se que esses escândalos - como aliás também os da pedofilia na Igreja - resultam da própria natureza da organização e, neste caso, da sua natureza secreta.
Não, não de forma nenhuma. Fui presidente de empresas com milhares de pessoas e também houve comportamentos menos corretos e situações menos corretas. Mas não foi isso que as marcou profundamente e por isso continuaram a pagar salários, a gerar emprego, a darem o seu contributo para a economia.

Temos também a questão da misoginia. Já há neste momento a funcionar em Portugal obediências que são mistas. Porque não abrir o GOL a mulheres? Esta não será mais uma característica que, em vez de defender a organização, na verdade só a prejudica.
É preciso conhecer um bocadinho a história da Maçonaria para perceber isso. E nosso caso concreto, as nossas relações com as mulheres maçons são as mais profícuas. É preciso dizer que nós fomos sempre os defensores da iniciação das mulheres, foi o GOL que deu a mão às mulheres para que elas fundassem a sua loja feminina, as nossas lojas são frequentadas por mulheres nos seus trabalhos, nós frequentamos as lojas femininas...

...mas continua a funcionar uma lógica de separação...tipo escola de rapazes e escola de raparigas...
...Não sei se as coisas podem ser vistas assim. Se quisermos filosofar sobre psicologia das organizações, sobre sexismo e sobre feminismo e coisas desse género, provavelmente estaremos a entrar por um debate errado. O que seria profundamente errado era não admitirmos que as mulheres fossem maçons. E também podemos admitir obediências mistas. Mas não significa que não sendo uma obediência mista, constitucionalmente, isso faça de nós retrógrados ou uma organização que cheira a bolor do século XVIII. É ligeiro dizer-se que as lojas mistas são um progresso. O progresso é admitirmos que haja lojas mistas, lojas masculinas e lojas femininas, cada qual com a sua idiossincrasia e que todas se possam relacionar e visitar. Isto respeita a identidade de cada um e a consciência de cada um. Isso é que importa: o respeito pela diversidade.

"Temos de ser mais exigentes [no recrutamento de novos maçons], não só na probidade moral como também na formação. Isto tem de ser democrático mas também tem de ter algo de elitista. Vamos ser verdadeiros: isto não é uma organização popular de base. Temos de ser mais exigentes."

Reconhece que hoje o GOL tem um problema de "literacia maçónica"? Ou seja, que muitos membros da organização não a conhecem suficientemente bem, não conhecem os seus textos nem a sua história nem verdadeiramente entendem os seus rituais? Haverá um problema de falta de catequismo maçónico?
Eventualmente nem todos [os membros do GOL] terão um conhecimento desejável do que são os nossos textos, as nossas normas, os nossos ritos e rituais.

Mas sente que o recrutamento relaxou na exigência?
Há sempre erros de casting em todas as organizações. Por vezes não há trabalho - e esse é um dos princípios fundamentais da Maçonaria, o trabalho. Nem sempre nos dedicamos ao estudo e ao trabalho e por vezes não nos entendemos muito bem.

Há medidas concretas que se podem tomar para atenuar esse problema?
Pode haver formação mais intensa. Pode haver divulgação maior das nossas "pranchas" e algumas são notáveis.

Mas especificamente em relação ao GOL: acredita que tem de ser mais exigente no recrutamento dos seus membros?
Tem, tem. Temos de ser mais exigentes, não só na probidade moral como também na formação. Isto tem de ser democrático mas também tem de ter algo de elitista. Não vamos sofismar sobre, vamos ser verdadeiros: isto não é uma organização popular de base. E portanto temos de ser mais exigentes.

Há um novo grão-mestre eleito [Fernando Cabecinha, um histórico da organização]. Reconhece que nesta eleição foi derrotada uma linha de continuidade em relação ao seu mandato (visto que o candidato derrotado, Carlos Vasconcelos, é seu vice-grão-mestre).
​​​​​​​Somos inteiramente democráticos no momento da eleição. Seja qual for o resultado, aceitamos o resultado. Não posso sentir-me dececionado. Se o povo maçónico resolveu adotar estas ideias só tenho de aceitar. Mas sou um homem livre - posso não concordar com todas. Há um grão-mestre eleito e eu respeito-o totalmente - é o meu grão-mestre. Mas não escondo que tinha uma preferência pelo candidato mais novo, o Carlos Vasconcelos. Acho que a Maçonaria também tem de se rejuvenescer, tem de ter uma cara jovem à frente, tem de mostrar que se renova a si mesma, por si mesma e dentro de si mesma. E reconheci no Carlos Vasconcelos as qualidades maçónicas e profanas para isso.

Foi criticado por ter sido pouco vocal quando o Governo de Passos Coelho extinguiu o feriado do 5 de Outubro. Como responde a essas críticas?
O GOL não é nenhum clube, não é nenhuma associação, não é um partido político. Tem uma natureza própria. Dentro do GOL há a maior das diversidades. Aqui só não cabem racistas e xenófobos. De resto, temos cá de tudo, de esquerda, de direita, católicos, ateus, muçulmanos. Sendo tanta a diversidade, não compete ao grão-mestre falar em nome de todos. Se o grão-mestre toma uma posição política está a ferir a diversidade da organização. Essas críticas só mostram que há pessoas que não entenderam o que é a Maçonaria. Em assuntos correntes, não compete ao grão-mestre tomar posições.

joao.p.henriques@dn.pt

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