Ter casa é o maior problema dos estrangeiros que fazem "o que os portugueses não querem"

Atravessamos a Rua do Benformoso de ponta a ponta, no bairro mais cosmopolita de Lisboa. Os imigrantes não falam português e relatam ter dificuldades em encontrar um sítio para morar. Alguns já passaram por outros países europeus, mas garantem que aqui é mais fácil a legalização. Por detrás disso estarão máfias que, a troco de dinheiro, os apoiam com "os papéis".
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Os passos são apressados. Muitos homens empurram carrinhos de mão com bens alimentares em direção às mercearias do bairro. Por ali há produtos de origem asiática que não se encontram em mais nenhum local da cidade. Há talhos de carne halal - preparada de acordo com os preceitos muçulmanos -, muitos barbeiros e bazares com artigos de todos os géneros e feitios. Na Rua do Benformoso, na Mouraria, em Lisboa, não se ouve falar português. Os imigrantes não dominam a língua e falam nos seus próprios idiomas, uns com os outros.

Abordados pelo DN alguns respondem em inglês. É o caso de Ziaul Dure, 48 anos, que sem trabalho vende noz de areca - um alimento tradicional do sudeste asiático - na rua. "Cheguei a Portugal há dois anos, sou do Bangladesh", começa por dizer o homem, amistoso, com a saliva avermelhada a manchar-lhe os dentes, ao mesmo tempo que mastiga uma noz de areca enrolada na folha da planta, responsável pela coloração do sorriso. "É o meu modo de vida, não tenho outro emprego", lamenta.

Ainda assim conta que todos os meses consegue enviar dinheiro para a família que ficou no Bangladesh e que o seu principal problema, em Portugal, tem sido a habitação. Aluga uma cama, por 200 euros, numa casa com dois quartos onde vivem dez pessoas. "É muito difícil arranjar casa em Portugal, porque é tudo muito caro. Gostava que a minha família pudesse vir para cá, mas é complicado porque não há casas com preços que possamos pagar", assegura o vendedor ambulante. Apesar de não ter trabalho, já está legalizado e não pensa ir embora de Portugal. "Em termos legais será muito difícil conseguir alguma coisa noutro país", garante o homem, ao mesmo tempo que vai cortando as nozes de areca com uma tesoura enferrujada.

À sua volta juntam-se clientes. Compram a noz por um euro, mascam e cospem os restos para um caixote que Ziaul Dure arranjou, depois dos protestos da vizinhança portuguesa. "Eles cuspiam para o chão. É uma coisa cultural", conta Pedro Damásio, 56 anos, dono de uma loja de marroquinarias e o único português que encontrámos no nosso percurso. "São bem-vindos, mas temos de lhes dizer que aqui não se cospe para o chão, nem se deixam copos de plástico na montra do vizinho", queixa-se.

Ao mesmo tempo, Pedro Damásio é senhorio de alguns estrangeiros. E confirma que os imigrantes desta nova vaga, vindos do sudeste asiático, de países como o Bangladesh - que neste momento são a quinta nacionalidade com mais residentes em Lisboa, segundo os últimos dados do extinto SEF, de 2022, com 5951 pessoas - querem ficar no nosso país. "Temos muitos inquilinos indianos e do Bangladesh. No nosso caso, temos o cuidado de avisá-los que as casas são só para as famílias e posso dizer-lhe que tenho inquilinos há vários anos".

Ao mesmo tempo, o português denuncia o que é público, e chocou o país, quando em fevereiro houve dois mortos e 14 feridos, num incêndio, num rés-do-chão na Mouraria, onde viviam 22 pessoas. "Isso não acontece nas minhas casas, mas, noutros casos, é verdade que eles põem beliches nos quartos, tipo camarata, é uma lástima".

A Associação Renovar a Mouraria dá conta, ao DN, dos problemas com a habitação para os que chegam de fora. "Há sobrelotação de quartos, o uso de lojas e vãos de escada para dormitórios, a falta de condições de habitabilidade e a situação crescente de pessoas em situação de sem-abrigo", avança Filipa Bolotinha, da direção desta associação, que tem um Centro Local de Apoio ao Imigrante (Claim).

Por aqui, desde 2015, foram feitos cerca de 2000 atendimentos por ano a estrangeiros com ligação à Mouraria. Este ano, mais de 60% desses utentes têm sido de origem asiática, principalmente do Bangladesh, mas também do Nepal, Paquistão e Índia, entre muçulmanos, hindus e até sikhs. Só que ainda há muitos problemas no caminho destas pessoas. "Há muita dificuldade para atendimento nas finanças, é difícil ter emprego nas suas áreas de formação e a falta de informação sobre como funciona o SNS é um fator inibidor de acesso aos serviços de saúde", completa Filipa Bolotinha.

Foyjul Amin é outro bengali que chegou a Portugal há dois anos. No dia em que se cruzou com o DN estava feliz, tinha conseguido resolver a sua situação legal e mostrava, orgulhoso, os tão desejados "papéis". Tem 22 anos e não fala outro idioma que não o seu, por isso é o vendedor de rua, Ziaul Dure, que serve de tradutor. Explica que o rapaz trabalha num restaurante, também de um cidadão do Bangladesh, e que por esse motivo "não sente necessidade de falar português ou inglês". Foyjul também aluga uma cama, num quarto onde dormem 10 pessoas. Ainda assim, o conterrâneo garante que Foyjul "está feliz e quer ficar aqui, onde já tem os "papéis"".

Só que por detrás desta aparente facilidade em obter a legalização em Portugal estarão redes organizadas que, a troco de dinheiro, ajudam estes cidadãos asiáticos em todo o processo. Quem o denuncia é Timóteo Macedo, da Associação Solidariedade Imigrante. "Portugal não dá vistos, é difícil. Só se for através de máfias instaladas lá [nos países de origem] e aqui, em Portugal", diz o presidente desta associação.

"Essas máfias fazem contratos com empresas fictícias. E quem faz esses contratos não são os imigrantes, são pessoas que sabem fazer os contratos e que conhecem a legislação", denuncia. "Há uma corrupção enorme à volta dos consulados, das embaixadas, nesse mundo. Já alertámos para isto no Conselho das Migrações e no Conselho Económico e Social".

Todos os imigrantes com quem o DN falou deram conta da facilidade em conseguir a legalização mas nenhum falou em máfias. Algo que é visto como natural para Timóteo Macedo, que tem uma explicação. "As pessoas têm alguns medos instalados e não dizem tudo. Quando vão às associações só depois de muitos contactos é que se vão abrindo. Eles não podem falar de tudo mas as máfias sofisticadas têm grandes escritórios por aí fora", assevera.

De facto, pelas ruas da Mouraria, em vários comércios, há anúncios a serviços de apoio à legalização. E será nesse passa-palavra que os imigrantes vão conseguindo agilizar os seus processos, junto do Estado Português. Mohammad Rubel, 34 anos, passou primeiro por Inglaterra e instalou-se em Portugal há três anos. "Em Inglaterra é muito difícil conseguir os "papéis". Pesquisei e descobri que em Portugal seria muito fácil", afirma este bengali, que está acompanhado pela mulher, Thamina Akter, acabada de chegar a Portugal. "Hoje viemos tratar do NIF (número de identificação fiscal) da minha mulher", revela o homem, que é licenciado em Ciência Política, mas no nosso país trabalha num restaurante italiano. A mulher irá estudar Português. "Para ela conseguir um trabalho melhor tem de falar a língua do país", constata.

Outros têm melhor sorte. É o caso de Muhammad Salam, também oriundo do Bangladesh, que está há sete anos em Portugal e montou o seu próprio negócio: uma mercearia e talho halal. "Sei quem é o Cristiano Ronaldo, gosto muito dele e resolvi saber mais sobre Portugal. Descobri que é um país muito bom", diz o comerciante. "Agora é mais difícil arranjar casa do que quando cheguei. Mas estou bem, vivo só com a minha mulher, não preciso de partilhar casa. E quero ficar em Portugal, este país já é o meu." Todos os seus empregados são de países asiáticos. "Fazemos o que os portugueses não querem: trabalhamos com as mãos".

Mahi Uddin, 37 anos, chegou do Bangladesh em 2015 e está empregado num bazar. "O meu sonho é ter uma loja de souvenirs", confessa. Em frente, na barbearia, está Lovepreet Singh, barbeiro indiano. Fascinado por Portugal tatuou o seu nome, em português, no pescoço. "Sou apaixonado por Portugal. Na Índia também era barbeiro, mas não conseguia arranjar trabalho. Aqui ganho bem", afiança o homem, de 31 anos.

isabel.laranjo@dn.pt

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