"Tenho saudades, mas aqui tenho uma boa vida. Ganho mais dinheiro e estou na Europa"

Al Amin trocou a capital do Bangladesh por uma aldeia de Pombal. Conheceu o atual patrão há menos de um ano no Algarve, que lhe deu as mesmas condições que aos portugueses e, ainda, casa. Um exemplo de boas práticas. "Tem muito bom coração", diz.

"Muito bom dia senhor. Tudo bem? Quanto quer?" Palavras que Mohammed Al Amin, do Bangladesh, repete vezes sem conta aos clientes que se abastecem na bomba de gasolina onde trabalha, em Santiago de Litém, no concelho de Pombal. Depósito abastecido e serviço pago, saem de lá com mais três palavras: "Obrigado. Fica bem."

Os habitantes de Santiago de Litém habituaram-se a ver Al Amin, que ali trabalha há sete meses. Percebem que não é português, mas não sabem qual é a nacionalidade e dizem que nem lhes importa. "Não acho bem nem acho mal que seja de fora, desde que faça o serviço. Até ver, tem sido um rapaz porteiro", salienta Manuel Mendes. Acrescenta que há falta de mão-de-obra, "como em todo o lado".

Comenta António Costa, escrivão aposentado, outro cliente. "Fui bem servido. É destas pessoas que precisamos". Argumenta que a falta de trabalhadores disponíveis também tem a ver com a economia local. "É um meio rural, não é possível contratar alguém a tempo inteiro e as pessoas não vão esperar para trabalhar dois ou três dias num mês". Quando lhe dizemos que quem lhe encheu o depósito do trator é natural do Bangladesh, vira-se para o jovem e conversa: "Pensava que eras brasileiro. Falas razoavelmente o português e tens um sotaque. Trabalhas bem."

Santiago de Litém é uma localidade no interior de Pombal, no distrito de Leiria. Registava 2237 habitantes nos censos de 2011 e, na reorganização administrativa, em 2013, agregaram a freguesia a S. Simão de Litém (1382 residentes) e Albergaria dos Doze (1765).

Faz parte de um concelho de emigrantes onde, nas últimas décadas, têm chegado muitos imigrantes, com as tendências migratórias a revelarem-se mais tarde que nos grandes centros urbanos. Cidadãos oriundos da Europa de Leste, mais recentemente do Brasil e alguns da Venezuela. Começa a ver-se um ou outro rosto de países hindustânicos: Índia, Bangladesh, Paquistão e Nepal. E Mohammed Al Amin que, sublinha, veio para ficar.

"O meu patrão é uma pessoa de muito bom coração. Dá-me casa, tudo: mobília, até coisas para comer. Está sempre a dizer: "diz-me o que precisas que eu arranjo". As pessoas são simpáticas e gosto do meu trabalho. O meu sonho é continuar em Portugal, casar e trazer a minha mulher, quero que os meus filhos nasçam aqui", diz. A sorte bateu-lhe à porta quando trabalhava numa loja de souvenirs no Algarve.

De Daca até Viena de Áustria

Mohammed Al Amin, 26 anos, nasceu em Daca, a capital do Bangladesh. Completou o ensino secundário e foi trabalhar para um jardim-de-infância, como auxiliar de educação. Em 2019 decidiu emigrar. "Gostava muito do trabalho em Daca, ensinava crianças, tenho saudades. Mas aqui também tenho uma boa vida. Ganho mais dinheiro e estou na Europa", diz.

O irmão mais velho, que vive em Itália, comprou-lhe a passagem de avião para a capital da Áustria. Mas ficou apenas uma noite em Viena: "Tenho um tio em Lisboa que me disse que Portugal era muito bom, um país bonito, calmo, e onde é fácil ter a residência, acabei por vir." Tem mais dois irmãos, um mais novo e outro mais velho que ele, que continuam no Bangladesh.

Aterrou em Lisboa e foi viver no Cacém, onde trabalhou num minimercado. Meses depois rumou para o Algarve, para Monte Gordo, onde trabalhou "numa loja para turistas". Paulo Mendes, o atual patrão, estava lá de férias e fez algumas compras na loja. "Disse para mim: "Queres ir trabalhar comigo? É um bom trabalho e arranjo-te casa"". Na altura, ficou com o número de telefone de Paulo.

Dois meses depois, Amin deixou de ter emprego na loja e ligou para o número. Rapidamente começou a trabalhar na Petromendes, em Santiago de Litém. O patrão não faltou com a palavra, arranjou-lhe uma casa e deu-lhe as as condições prometidas. "Está toda mobilada, uma cozinha muito boa, tem ar condicionado, não pago água nem luz, estou aqui muito bem. Mas o patrão avisou que é só para mim, que não pode viver aqui mais ninguém. O patrão ainda me traz garrafões de água, levam-me ao supermercado quando preciso de fazer as compras grandes", conta, frisando que já tem autorização de residência. Paulo Mendes, o patrão, argumenta que se limita a fazer o que acha certo, preferindo não se expor.

Custos de instalação que não são descontados no salário mensal do imigrante. Recebe o mesmo que o outro funcionário da bomba e que é acima do mínimo nacional, o que lhe dá uma boa margem de dinheiro para enviar para o seu país. "Oitenta por cento das pessoas de idade não recebem nada do estado, os filhos têm a responsabilidade de ajudar os pais", explica. Chega a mandar 300 e 400 euros por mês. Trabalha em turnos de 7:30 horas, com folgas ao sábado e domingo. Na última semana, esteve de serviço das 07:00 às 14:30.

O que faz nos tempos livres? "Passeio, agora vou todos os dias a Pombal, estou a tirar a carta de condução, comecei há dois meses, nas aulas de código". São cerca de 10 km até à cidade e apenas há uma camioneta de manhã e outra ao fim da tarde. Amin comprou uma bicicleta "novinha" em Coimbra" e é este o seu meio de transporte na localidade. Apanha um comboio regional às 16:26 e regressa às 21:30. Aos fins de semana, viaja para mais longe, nomeadamente até Lisboa, Leiria ou Coimbra. Também conhece Faro e Tavira.

Assim vai passando os dias Al Amin, não parando de repetir que tem "uma vida boa". O futuro passa por ir até ao Bangladesh conhecer uma noiva para casar, provavelmente no início do próximo ano. Alguma mulher que os familiares tratam de selecionar. Defende-se: "Eles escolhem a menina e vou estar com ela, se a menina não gostar de mim, ou se eu não gostar da menina, não há casamento. Só casamos se gostarmos um do outro." Acha as portuguesas bonitas, mas explica que seria difícil viver com alguém que não fosse da sua etnia e religião. É muçulmano.

Quando constituir família, terá de alugar uma casa, mas tem uma ou outra hipótese. Algumas pessoas metem conversa com ele e querem saber mais da sua vida. Também lhe perguntam se conhece alguém para trabalhar. "É difícil porque tem de ser alguém que eu conheça bem e de perceber se vai conseguir fazer o trabalho".

Rodrigo Corga, 23 anos, técnico de análises que trabalha na farmácia local, é outro cliente habitual. Conta que só da primeira vez o jovem teve dificuldade em perceber o seu nome, o que normalmente acontece com toda a gente, uma vez que não é habitual. "Não há muito imigrantes da Ásia em Pombal e muito menos nas aldeias, mas começam a aparecer, Há brasileiros, ucranianos, romenos, do Uzbequistão, também da Venezuela e de outras nacionalidades, por exemplo, há uma grande família de israelitas. É bom para o concelho, há trabalho para toda a gente, não precisamos de ter inveja. A multiculturalidade faz bem, não nos podemos fechar aos outros".

ceuneves@dn.pt

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