Teatro Thalia. O salão de festas do Conde de Farrobo

Chegou a ser o salão de festas mais apetecido pelas elites lisboetas. Por lá passava a família real e diz-se que D. Maria II tinha particular gosto pelos espetáculos que ali decorriam. O Teatro Thalia - que tomou o nome à musa da comédia - foi um dos grandes responsáveis pela reputação de estroina do seu excêntrico proprietário, Joaquim Pedro Quintela, o Conde de Farrobo. Uma fama que chegou até aos dias de hoje imortalizada na expressão "forrobodó" (corruptela de "farrobodó"). Um lugar algo injusto na História para um homem que foi um dos mais interessantes - e importantes - personagens do seu tempo.

Na Estrada das Laranjeiras, à esquerda de quem segue de Sete Rios, mesmo ao lado do Jardim Zoológico, o Palácio das Laranjeiras é hoje sede do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Em frente ao edifício seiscentista, que sofreu grandes obras de remodelação já no século XIX, ergue-se o Teatro Thalia. Ambos integravam a Quinta das Laranjeiras, que em oitocentos se situava nos arredores de Lisboa e funcionava como uma casa de campo (a residência habitual da família era o Palácio Quintela, na Rua do Alecrim, que é atualmente o Palácio Chiado).

Construído em 1820, o Thalia torna-se nas décadas seguintes um ponto incontornável da vida cultural e social. Sendo um pequeno teatro privado nos arrabaldes, recebe alguns dos nomes mais sonantes da época, sobretudo na ópera - que era, a par da música, uma das grandes paixões do conde. Joaquim Pedro Quintela chegou, aliás, a ser diretor do São Carlos, promovendo um dos períodos áureos do teatro, muitas vezes a expensas da sua fortuna (e, do São Carlos, as atuações passavam por vezes ao Thalia, com a particularidade de que o conde integrava repetidamente o elenco). O teatro, com o seu salão de baile revestido a espelhos de Veneza, era também palco de festas faustosas. João Pinto de Carvalho (Tinop) descreverá mais tarde as "Festas do Farrobo" apontando "as ricas inumeráveis luzes de gás que iluminavam esses salões" , os "espelhos gigantescos nas molduras douradas", os "florões do teto tão delicadamente desenhados e de uma douradura admirável" - uma "reunião de objetos sedutores" que "dava lugar às mais deliciosas sensações".

Em 1842, Joaquim Pedro Quintela chama o arquiteto Fortunato Lodi (o mesmo que desenha o Teatro Nacional D. Maria II, com óbvias parecenças) para renovar o Thalia. Dura 20 anos: em 1862 é devastado por um incêndio. Quintela ainda dá ordem de reconstrução, mas por essa altura já estava às portas da ruína e o teatro é deixado ao abandono.

O Conde de Farrobo

Joaquim Pedro Quintela nasce no palácio da família, na rua do Alecrim, em 1801. Desde muito novo que é notória a sua paixão pela música, a que juntará as artes cénicas. O segundo Barão de Quintela (o título de conde chegará bastante mais tarde) toca contrabaixo, violoncelo, é um reputado executante de trompa. Mecenas das artes, financia artistas, seja pela encomenda de obras ou pelo patrocínio de estadas no estrangeiro. Mas o Conde de Farrobo distinguiu-se também a outros níveis. Foi uma figura com peso no destino político do país, na primeira metade do século XIX, e um empresário que se dividiu por diversas atividades, sempre à procura do último passo tecnológico da época (o Palácio das Laranjeiras teve iluminação a gás duas décadas antes da cidade).

Partidário de D. Pedro, usou a sua fortuna para financiar as lutas liberais. Em 1831 recusou-se a contribuir para um empréstimo forçado que D. Miguel decretara, pelo que este manda retirar-lhe todos os títulos e honrarias. Serão devolvidos com a vitória de D. Pedro, acrescentados do título de Conde de Farrobo.

Com negócios em áreas tão distintas como os seguros, as minas de carvão ou o gás, o Conde de Farrobo terá gasto muito dinheiro nas suas festas e no seu estilo de vida faustoso, mas em última instância não foi isso que lhe arruinou as finanças - foi uma demanda comercial em torno do monopólio do tabaco, que se arrastou durante décadas nos tribunais e que, quando finalmente foi decidida em desfavor de Quintela, orçava numa quantia astronómica, mesmo para uma grande fortuna.

Quase 150 anos ao abandono

A Quinta das Laranjeiras acabou vendida em hasta pública em 1874 (já depois da morte do conde, em 1869). Desde então foi passando de mãos e se o palácio foi tendo obras de conservação, o Teatro Thalia foi deixado ao abandono. Em 1940 o palácio é comprado pelo Ministério das Colónias, com a intenção de vir a servir de sede ao museu da Marinha. Acabou por albergar vários ministérios até chegar à posse da Secretaria-Geral da Educação e Ciência, que em 2010 lança o projeto de requalificação do teatro (do pouco que restava dele). Com projeto de arquitetura de Gonçalo Byrne, Patrícia Barbas e Diogo Lopes, foi restaurada a fachada original, que se mantinha de pé. No interior foram mantidas as paredes já em ruína do que em tempos terá sido o palco e plateia e foi construído um corpo novo no edifício, em betão terracota, que enquadra o que ainda resta da construção original. Atualmente, o Teatro Thalia serve de palco a eventos, de instituições públicas ou privadas. Tem recebido mensalmente concertos da Orquestra Metropolitana de Lisboa. O espaço pode ser alugado por empresas ou particulares por 2500 euros/dia ou 500 euros/hora.

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