Nascida em plena pandemia para “limpar” o lixo espacial e evitar colisões em órbita da Terra com recurso a Inteligência Artificial, a Neuraspace ombreia hoje com os gigantes da Defesa mundial na deteção de ameaças militares reais – desde a perturbação de sinais de GPS (jamming) e ciberataques, a satélites até à aproximação física de aparelhos hostis. Para prosseguir a sua missão e responder à crescente procura do setor militar, a startup portuguesa acaba de ir ao mercado captar uma nova ronda de financiamento no valor de 15,6 milhões de euros, uma operação que a CEO da empresa, Chiara Manfletti, admitiu em entrevista ao Diário de Notícias contribuir decisivamente para a consolidação da vertente de Defesa da empresa.A operação financeira combina investimento privado de capital de risco (venture capital) com verbas não-diluíveis do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Chiara Manfletti faz questão de esclarecer que não se trata do programa inicial que está a encerrar, mas sim de uma nova tranche estratégica: “Este é o ‘PRR 2’, que está a direcionar-se para atividades de defesa específicas. É um novo projeto que começou em julho passado e vai decorrer durante dois anos. Os dois financiamentos são complementares”.O financiamento agora anunciado refere-se a uma nova candidatura ao PRR, apresentada no âmbito da nova linha dedicada à Economia de Defesa e Segurança, não se tratando da continuação do projeto anterior. O objetivo é desenvolver a NeuraspaceDEF, uma nova área de negócio focada em Defesa Espacial, que transpõe para o setor da Defesa capacidades já desenvolvidas pela startup na gestão e monitorização de satélites para o mercado comercial.Por isso, após registar um crescimento de receitas na ordem dos 350% no último ano, a prioridade da Neuraspace não é atingir de imediato o break-even, mas sim o ganho acelerado de escala. “Como ainda somos jovens, queremos continuar a crescer. Queremos atingir o ponto de equilíbrio a certa altura, mas fundamentalmente a chave é a expansão”, diz a CEO de 47 anos.O contrato secreto europeuA criação da oferta NeuraspaceDEF não representa uma mudança de rumo abrupta, mas a maturação do modelo de negócio. Afinal de contas – como se ficou a saber em junho de 2025 –, a Neuraspace foi a empresa selecionada como coordenadora nacional em Portugal do projeto europeu EMISSARY (European Military Integrated Space Situational Awareness and Recognition Capability). Trata-se de uma iniciativa do Fundo Europeu de Defesa, avaliada em cerca de 160 milhões de euros, em que a tecnológica portuguesa trabalha diretamente com os maiores colossos da indústria de Defesa europeia (coordenados pela gigante italiana Leonardo) para criar um sistema de soberania e inteligência espacial militar para a União Europeia.A função da startup portuguesa neste consórcio é liderar o desenvolvimento do Shared Data Store Service (SDSS) – o pilar central de dados do projeto – utilizando os seus algoritmos de Inteligência Artificial e machine learning.Por isso, Chiara Manfletti reitera: “Nós não estamos necessariamente a mudar o foco. O espaço é sempre de dupla utilização (dual-use). Não é algo onde se possa separar o civil da Defesa.” E acrescenta: “Se houver uma compreensão do que os objetos em órbita estão a fazer, pode-se usar um projeto para fins civis, mas também para fins de Defesa. Para nós, isto foi sempre claro desde o princípio.”A estratégia inicial da Neuraspace, explica a CEO, passou por ganhar tração no mercado comercial, onde os ciclos de decisão são mais curtos, preparando em simultâneo a entrada no setor governamental. “O ciclo de aquisição é muito mais longo com os governos e a Defesa. Chegámos a um ponto em que temos blocos de construção que podemos realmente trazer para a Defesa. Mantemo-nos fiéis a dois pilares: o comercial e o governamental. O financiamento de Defesa é cíclico; se uma empresa se focar apenas na Defesa, o que acontece quando o orçamento desce?”. Com a criação da NeuraspaceDEF, o software da startup portuguesa já não serve apenas para monitorizar lixo civil, passou a ser especificamente desenhado para detetar e reagir a armas antissatélite (ASAT), espionagem orbital e aproximações suspeitas de satélites não-cooperativos, ataques de jamming e spoofing (bloqueio ou falsificação de sinais de comunicações e GPS) e ciberataques direcionados a infraestruturas de controlo espacial.A consolidação deste pilar traduziu-se já em contratos concretos. A CEO de origem italiana revelou ao DN a existência de um projeto de relevo no espaço europeu: “Temos um contrato principal com um Ministério da Defesa europeu. Vamos divulgar os detalhes mais tarde este ano, em setembro, mas está obviamente ligado à nossa capacidade situacional espacial.”. E como é gerida a segurança e confidencialidade numa plataforma que monitoriza, em simultâneo, clientes comerciais civis e operações de Defesa para a NATO e Força Aérea Portuguesa? A resposta parece simples: a empresa adapta a sua arquitetura tecnológica. “Para clientes comerciais, eles estão bastante felizes por usar uma solução em nuvem (cloud), ao passo que os clientes de Defesa preferem ter soluções no local (on-premises)”, explica Chiara Manfletti. “A nossa arquitetura de software varia com base no cliente e nas suas condições de fronteira”, avançou a gestora, cujo percurso incluiu a passagem pela Agência Espacial Europeia (ESA) e a liderança da Agência Espacial Portuguesa (Portugal Space), antes de assumir a direção executiva da Neuraspace, em 2024, precisamente a tempo de comandar a estratégia global de expansão da empresa, que incluiu então a recente instalação dos telescópios no Chile e a abertura de novos escritórios no Luxemburgo. Antes disso, em 2021, a engenheira aeroespacial ingressara na empresa para assumir a Direção de Operações.IA, novos radares e a expansão para os AçoresEm setembro de 2024 – três meses antes da ativação do seu 'colega' do chile –, a Neuraspace inaugurou o seu primeiro telescópio ótico avançado para rastreio espacial, instalado na Base Aérea N.º 11, em Beja, fruto de uma parceria firmada com a Força Aérea Portuguesa. Um equipamento que funciona em articulação direta com as Forças Armadas, fornecendo dados acionáveis e em tempo real para a tomada de decisões táticas de segurança nacional e dos aliados da NATO.Assente em Inteligência Artificial, o núcleo tecnológico da Neuraspace existe para acelerar a tomada de decisão, prever riscos e tem-se aperfeiçoado para conduzir o setor rumo à navegação autónoma, como revelou ao DN Chiara Manfletti. “Reintroduzimos a Inteligência Artificial como uma forma de ir do manual para um aparelho espacial mais automatizado e, a certa altura, autónomo. A ideia é poder detetar anomalias e avisar para que um operador de satélite hoje – e o próprio satélite no futuro – possa proteger-se de tais anomalias, detetando padrões de vida de objetos em órbita e prevendo o seu comportamento futuro.”. Esta capacidade preditiva exige uma vasta rede de sensores. Atualmente, a empresa opera dois sensores óticos próprios – o já referido em Beja e outro no Chile – complementados por uma rede de parceiros globais. O novo financiamento do PRR 2 vai permitir dar o salto para a tecnologia de radar. “Nós acreditamos que o sucesso é mais bem alcançado quando se combinam dados de diferentes fontes: observações óticas, dados de radar e informação dos próprios satélites”, sublinha a CEO, revelando os próximos passos de expansão em território nacional: “Estamos a complementar os dois locais óticos que temos e vamos colocar radar. Atualmente estamos a olhar potencialmente para a localização dos Açores também.”O objetivo final é monitorizar a totalidade do ecossistema orbital. Rastreando atualmente mais de 600 satélites, Chiara Manfletti aponta ao topo: “Há cerca de 15.000 objetos ativos em órbita. Se me pedir para ser ambiciosa, eu quero, obviamente, poder apoiar e monitorizar todos os satélites ativos que estão em órbita.”Soberania europeia e o “mito” do país pequenoA dependência europeia face aos catálogos de dados espaciais dos Estados Unidos é um diagnóstico assumido por Manfletti. “Os EUA começaram muito cedo a mapear e catalogar objetos em órbita. Hoje a Europa está a investir mais e espero que, com o próximo Quadro Financeiro Plurianual da UE (QFP 2028), haja mais investimento para apoiar a autonomia e soberania de dados europeus, tendo um catálogo próprio mais forte.”E como pode um país com as dimensões de Portugal rivalizar com os orçamentos gigantescos norte-americanos ou chineses? A CEO desmistifica de imediato o cenário. “Esta é uma pergunta muito portuguesa, porque parece que, por Portugal ser um país pequeno, não há possibilidades. Uma das coisas que aprendi é que, se é uma empresa portuguesa, tem de se tornar bem-sucedida globalmente para conseguir isto. Tem um mercado de Defesa nacional mais pequeno, o que significa que tem de ser mais inteligente a obter clientes no mundo. A adversidade é a mãe de todas as invenções.”.Com recurso a IA, a Neuraspace já ajuda a acelerar decisões e a prever ameaças de Defesa vindas do espaço, mas agora quer avançar para satélites autónomos, que não necessitem de operador para se protegerem.. A retenção de talentos é outro dos problemas do mercado português, mas captação de engenheiros e especialistas em tecnologia enfrentou uma alteração no pós-pandemia. “Com o teletrabalho pós-covid, os salários mudaram dramaticamente porque de repente podia-se estar em Portugal a trabalhar para fora e a ganhar muito mais. As coisas estão a normalizar agora, mas foi certamente um desafio”, admite a CEO.Ainda assim, o setor espacial atua como um íman para os jovens quadros nacionais. “As pessoas que se juntam a uma startup acreditam na história e querem construir algo connosco. O espaço é um assunto fascinante. Tenho muitos jovens a candidatar-se a estágios e estou ansiosa por poder oferecer ainda mais postos de trabalho aos jovens talentos portugueses que vêm das diferentes universidades.”Com um percurso ligado à liderança da Agência Espacial Portuguesa e à passagem pela Agência Espacial Europeia (ESA), Manfletti conclui que o seu estilo de gestão focado na inovação se mantém, agora enriquecido pela exigência do mercado privado: "Aprendi, na minha própria pele, que é muito difícil construir uma empresa. É um grande desafio, precisa de ter uma grande equipa que acredite num sucesso partilhado. Como diz o ditado: o sucesso tem muitas mães e pais", conclui.