"Solução não pode ser só aumentar o número de médicos, é ter uma medicina de qualidade"

Helena Canhão é a primeira mulher a liderar a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Um cunho de pioneirismo que não é estranho na sua carreira, pois foi a primeira mulher doutorada e agregada na especialidade de Reumatologia. No seu mandato, vai supervisionar a mudança de currículo do curso de Medicina e a ida da faculdade para o novo campus de Carcavelos.

Qual é a sensação de ser a primeira mulher diretora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa?
Nós temos uma faculdade que este ano faz 45 anos e realmente sou a primeira mulher diretora da faculdade. Mas penso que nós mulheres, cada vez mais, vamos tendo lugares de chefia e vamos naturalmente atingir estas posições. A Universidade Nova tem nove faculdades e três delas são lideradas por mulheres, eu sou a terceira, já tínhamos a Escola Nacional de Saúde Pública e a Faculdade de Direito. Mas depois de tantos anos em que a liderança é sobretudo do homem e em que há muito mais professores catedráticos homens, etc., é natural, apesar de tudo, que não haja ainda muitas mulheres, mas eu penso que isto vai mudar com o tempo. Não é que eu distinga muito o facto de ser mulher ou homem, acho que as pessoas têm de estar nas posições pelas competências que têm e pelo trabalho que vão desenvolvendo, mas acho que é importante também como exemplo para as outras mulheres perceber-se que nós temos lugares de chefia. Isso ao longo da vida aconteceu-me, apesar de cada vez mais haver mulheres médicas, na minha especialidade fui a primeira doutorada, fui a primeira agregada, não há muitas mulheres chefes de serviço também nos hospitais. Isto acaba por ser um caminho que se vai desbravando, mas que acho que para as nossas filhas as coisas vão ser muito diferentes e felizmente que sim. É um orgulho, sobretudo, e é também perceber que é uma oportunidade que nós temos na universidade e na faculdade de desempenhar o nosso papel.

Recentemente, num debate da Women in Global Health in Portugal discutiu-se como é que uma liderança feminina pode moldar o setor da saúde. Na sua opinião, como é que uma mulher pode moldar o setor da saúde?
A exercer a liderança obviamente que isso depende da personalidade das pessoas. No setor da saúde, já em termos profissionais, e agora não estou a falar de faculdade, estou a falar de profissionais de saúde, há muitas mulheres, quer enfermeiras, que houve sempre esse domínio, quer médicas, quer outras profissionais de saúde. Porque, apesar de tudo, nós sempre associámos a mulher ao cuidar, ao cuidar dos outros e, portanto, há uma apetência grande para os profissionais de saúde, ainda que antes havia sobretudo homens, agora há mulheres. Na academia, também, apesar de haver muitas mulheres, o número de mulheres percentualmente que atingem lugares de liderança continua a ser inferior na generalidade dos casos. Eu penso que a liderança no feminino tem - em termos de competências, conhecimento, etc., não acho que haja diferença entre homens e mulheres -, mas na forma talvez da interação com os outros e da forma como se exerce o poder, a forma como se inclui as pessoas nas decisões, na tomada de decisão, como se pensa no outro, podem aí haver algumas diferenças. Porque nós somos educadas, quer queiramos quer não, desde sempre para olhar para o outro, para cuidar, e mesmo o nosso papel ao longo da vida, nós cuidamos dos filhos, obviamente com todas estas atividades partilhadas, cuidamos dos filhos e depois cuidamos dos pais e aí então, no cuidar dos pais, ainda há uma grande diferença entre os homens e as mulheres. E, portanto, as mulheres são cuidadoras e também transportam isso para os locais de trabalho, uma preocupação pelo outro, pela organização, e menos centrada em si próprio. Mas isto é de uma forma genérica, depois cada caso é um caso.

Como diretora, vai apanhar a mudança da faculdade para Carcavelos. Já há data?
Já temos as plantas, temos o local, vamos começar as obras e a construção, provavelmente, estará concluída em 2024 e iremos mudar no ano letivo de 2024/2025. Portanto, vai ser um mandato de preparação para a mudança do campus e, por isso, temos que continuar atentos, porque estamos a viver aqui e quem está a estudar, a trabalhar, a investigar aqui tem que estar com todas as condições. Ao mesmo tempo, temos que estar a planear e a construir um novo campus que vai ser complemente diferente deste e esse trabalho tem de ser feito em paralelo e tem de ser excelente nas duas vertentes. Por outro lado, estamos a fazer uma reforma curricular para preparar os novos profissionais para o futuro e achamos que se pode melhorar o currículo.

Como vai ser o novo currículo do curso de Medicina da Nova?
Nós estamos a estruturar um curso integrado e que funciona um bocadinho em espiral. Por exemplo, falamos de enfarte do miocárdio, mas para se perceber porque é que alguém sofre um enfarte é preciso perceber bem as artérias do coração e como é que o coração é estruturado, portanto tem de se saber anatomia, como é que o coração funciona, a fisiologia, depois o que é que pode afetar o coração, a fisiopatologia, e depois que doenças é que há, nomeadamente, o que é um enfarte, quais são os seus sintomas, o que a pessoa sente, como é que reconhecemos um enfarte, vamos ensinando e vamos tentando incluir em cada um dos temas os vários componentes que fazem com que o aluno aprenda de uma forma muito mais integrada. Portanto, temos o ensino mais focado nos sistemas do que propriamente na unidade curricular. Depois, temos algo que não tínhamos antes e que em Portugal é pouco usado, que é uma ferramenta de mapeamento curricular, em que nós definimos primeiro os objetivos. Nós queremos que um aluno ao fim do sexto ano, quando tem o mestrado em Medicina, tenha estas competências, tenha estes conhecimentos, e temos o mapeamento curricular em que sabemos que no primeiro ano, no segundo semestre, na aula X, dá este bocadinho da matéria, depois no quarto ano, dá este, e fazemos o puzzle do que é o nosso conteúdo. E, portanto, os conteúdos são desenhados de acordo com os objetivos que queremos e não ao contrário. Isso é a mudança no currículo.

Também vão ter aulas em inglês.
Nós vamos querer cada vez mais ter a internacionalização da escola. Nos alunos de Medicina do pré-graduado em Portugal a legislação não permite ter alunos internacionais, mas nós queremos desenvolver a pós-graduação com alunos internacionais e também com portugueses, obviamente. Nós queremos desenvolver, por exemplo, um centro de treino cirúrgico onde é possível, com cadáveres, os internos de cirurgia e os cirurgiões praticarem as cirurgias, desenvolver a simulação com atores que são preparados para simular doenças e desenvolver a parte de comunicação, etc. Todos estes cursos - de treino cirúrgico, de cadáver, etc. -, que são de pós-graduação, podem ser feitos para um público internacional, e, por isso, queremos desenvolver esse componente das aulas em inglês, aumentar a notoriedade da escola e trazer pessoas de fora de Portugal para essa formação.

As alterações curriculares têm uma data definida?
Nós estamos a proceder a ajustes e temos um grupo de pessoas que está a olhar para o currículo para, no próximo ano, fazermos já algumas alterações, porque qualquer novo currículo, quando há mudanças profundas, tem de se submeter à agência A3ES. Nesse ano letivo de 2024/25, quando mudarmos para Carcavelos, começamos pelo primeiro ano, depois fazemos o segundo ano, vai ser gradual, para acompanhar sempre o mesmo corte de estudantes.

Este ano letivo abriu o primeiro curso de Medicina numa universidade privada e o ministro do Ensino Superior falou na abertura de três novos cursos no público. Precisamos de mais cursos? Precisamos de mais médicos? Ou precisamos de melhores cursos de Medicina?
Eu acho que precisamos de ensinar os alunos de Medicina com qualidade. Isso é universal e fundamental. Nas faculdades temos muitos alunos, temos cerca de 300 alunos. Por vezes, há uma pressão para nós aumentarmos o número de vagas dos alunos, mas estas faculdades para darem um ensino de qualidade... Porque ensinar Medicina, e isto não tem a ver com lóbis, implica que os alunos estejam à volta de um doente, que coloquem questões, apalpem barrigas, os auscultem - apesar de podermos usar a simulação e cada vez mais tecnologias -, mas nós temos que pensar que um dia a sociedade vai ser tratada por aquelas pessoas, isto é de uma responsabilidade enorme. Portanto, eu acho que a preocupação das faculdades de Medicina tem de ser ensinar com qualidade para termos médicos de qualidade. A seguir, há um problema do nosso país, de organização e estrutural, que é estes alunos que saem das faculdades têm um mestrado em Medicina, mas não são especialistas, precisam de ir para as unidades de saúde e formarem-se, porque a sua formação vai continuar. E, portanto, o que temos de ver é se nós temos depois especialistas suficientes, de cuidados de saúde primários, de especialidades hospitalares, e se podemos formar todos os alunos que saem das faculdades, porque isso é essencial. Não interessa só abrir a torneira do lado do "vamos ter mestres em Medicina" e depois não pensar no resto, que é o Ministério da Saúde que trata da formação. Se nós estamos a formar para estes alunos, depois profissionais saírem para o estrangeiro porque cá não têm formação, ou se ficam tarefeiros a vida toda a fazer urgência mas sem mais especialização, não estamos a fazer um bom trabalho no nosso país. Eu penso que o que é importante, em termos de quem nos governa, é pensar neste planeamento que passa por mais do que um ministério. A solução não pode ser só aumentar o número de médicos que saem das faculdades, é ter uma medicina de qualidade ao longo da vida para toda a população, que é isso é isso que nós precisamos.

Estamos perto das legislativas. Como conhecedora dos setores da saúde e do ensino superior, o que é que o próximo governo precisa de fazer urgentemente nestas áreas?
Em relação à área do ensino, nós, as universidades públicas, de uma forma geral, estamos muito suborçamentadas. E isso acontece porque, felizmente, as propinas são baixas para podermos ter um ensino inclusivo e era muito bom que em Portugal não houvesse pessoas que não podem estudar porque não podem pagar. O que nós precisamos em termos de faculdade é ter, por um lado, mais orçamento do Estado, mas, por outro lado, ter também mais agilidade para poder ter receitas próprias, porque nós precisamos de ter bons professores, de reter os bons professores, e de ter um ensino de qualidade.

E em relação à Saúde?
O Sistema Nacional de Saúde tem tido uma sobrecarga enorme - mas já vinha de antes da pandemia, porque nós, todos os invernos, tínhamos a gripe - e, portanto, há que, por um lado, aumentar a capacidade de resposta dos hospitais em termos de, por exemplo, exames complementares, de acesso a consultas, mas também reter os bons profissionais, acho que isso é fundamental, que muitos estão a sair para fora do país. Depois ter mais locais de cuidados continuados, investir muito na reabilitação, nós precisamos de um investimento enorme na reabilitação motora das pessoas, dos idosos, ter nas autarquias também centros de apoio social, permitir que as pessoas vivam cada vez mais tempo em casa de forma autónoma, e isso também se faz com uma rede de mais proximidade. Acho que há aí imenso trabalho a fazer, mas sobretudo tem de haver comunicação entre os vários parceiros e entre os vários ministérios. Não podemos estar em silos, porque enquanto nós pensarmos que um ministério está num silo, outro no outro, e mesmo as autoridades centrais, locais, as várias estruturas, se elas não comunicarem e continuarem no seu silo só estamos a duplicar esforços, a aumentar custos e não melhoramos a saúde das populações, que é o que nós queremos.

ana.meireles@dn.pt

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