"Solteiras vêm bem informadas"

A psicóloga Ana Pereira trabalha na AVA Clinic, em Lisboa, e faz o aconselhamento a dadoras, a casais heterossexuais, mulheres solteiras sem parceiro ou casais de lésbicas que decidam ter um filho recorrendo à procriação medicamente assistida.

Desde o início do ano que está a trabalhar com mulheres solteiras, a maioria com cerca de 40 anos, que estão bem informadas sobre o tema. Já deu 20 consultas desde janeiro.

No que consiste o seu trabalho com as dadoras e com os candidatos a pais?

O que faço é o aconselhamento. Em relação às dadoras, há uma entrevista de avaliação psicológica da estabilidade, da motivação, dos riscos para elas. Quanto aos casais heterossexuais e de mulheres, tem a ver com ajudar a tomar decisões quanto ao tratamento, perceber o grau de informação que têm e de consciência das implicações. Não há grandes diferenças entre um casal de mulheres e um casal heterossexual, a não ser algumas nuances relacionadas com o registo da criança.

No caso de um casal de mulheres, o registo da criança tem apenas o nome de uma delas ou das duas?

A criança é registada com o nome das duas mulheres. Quanto a uma mulher solteira com companheiro, consta do consentimento que já não é aberto o processo de determinação da paternidade porque fez uma intervenção com esperma de dador. Nos casos das solteiras sem companheiro, a criança é sempre registada apenas com o nome da mãe.

E fala com estes vários candidatos sobre se devem contar aos filhos como foram concebidos?

Enquanto nos casais heterossexuais eles têm a opção de contar ou não contar, é evidente que uma mulher sem companheiro ou um casal de mulheres está nos olhos do mundo que a criança surgiu de alguma outra forma. É uma história que é suposto contar-se. Depois decidem se contam se foi com esperma de dador, se preferem contar outra história.

A partir de que idade se deve contar a uma criança?

Quando as crianças começam a colocar questões sobre como nasceram, que é aos quatro ou cinco anos. Mas claro que nos casos das solteiras ou casais de mulheres, não é assim tão fácil porque a criança vai perguntar onde está o pai. Mas há várias estratégias: recomendo livros que estão disponíveis sobre as várias formas de famílias que existem hoje em dia.

Tem notado, desde o início do ano, muita procura por parte das solteiras e dos casais de mulheres?

Sim, muita procura sobretudo de mulheres sem companheiro. Eram pessoas que já ponderavam isto há algum tempo mas incomodava-as a ideia de ir a Espanha, da ilegalidade.

Parece-lhe que as solteiras ou casais de mulheres têm maior risco de estigma social?

Nem por isso. Acho que é mais estigmatizante uma mulher casada com um homem assumir que se fez um tratamento de esperma dador porque o marido é infértil, por exemplo. De resto, precisam apenas de ter apoio e suporte social ou familiar à volta.

Qual o perfil das mulheres sem parceiro que vos procuram?

São mulheres com 42 ou 43 anos, com boas carreiras, e que não quiseram ter um filho com qualquer homem. Nos casais de mulheres têm vindo com 34 ou 35 anos. Já fiz 20 consultas desde o início do ano.

Nos casais de mulheres, quais os papéis de cada uma com o filho?

O que acontece naturalmente é que há sempre uma divisão de papéis. Tal como nos casais de heterossexuais, em que há um mais rígido, normalmente o pai, e outro mais flexível. Mas nas relações há sempre alguém com mais peso nas decisões.

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