Um homem de 78 anos esteve no dia 6 de janeiro, no Seixal, mais de três horas à espera de socorro de emergência, e acabou por morrer. No dia 7, uma idosa com cerca de 70 anos, residente na Quinta do Conde, Sesimbra, em paragem cardiorrespiratória esteve mais de uma hora à espera da ambulância que foi acionada para a socorrer e que era dos bombeiros de Carcavelos, por falta de meios na Margem Sul. No mesmo dia, ao final da tarde, um homem de 68 anos sentiu-se mal em casa em Tavira - o filho pediu socorro ao INEM -x, acabou por morrer depois de ter estado mais de uma hora à espera de ambulância. Estas três mortes estão a colocar em causa o dispositivo de macas e de ambulâncias no país e até mesmo a articulação entre unidades hospitalares, INEM e corpos de bombeiros. No primeiro caso, os técnicos ainda colocaram a hipótese de na origem da espera alargada poder estar o novo sistema de triagem do INEM em vigor desde 2 de janeiro, mas, “agora, já não nos parece que seja essa a causa”, afirmou esta quinta-feira ao DN o presidente do Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (STEPH), Rui Lázaro, assumindo que a falta de macas e de ambulâncias “é um problema”, sobretudo “nesta época do ano”, devido ao aumento da procura de cuidados pelas infeções respiratórias. Mas este cenário era previsível, alerta ainda, sublinhando: “Alertámos para a situação no início do mês de dezembro a sr.ª ministra da Saúde e no dia 27 dezembro o presidente do INEM e poderiam ter sido adotadas algumas medidas para mitigar os constrangimentos que já se anteviam, nomeadamente o facto de os hospitais nesta altura reterem mais macas e ambulâncias”, mas, pelos vistos, “nada foi feito”.De acordo com Rui Lázaro, no país existem cerca de 600 ambulâncias, “100 são do INEM, 54 Viaturas Médicas de Emergência e Reanimação (VMER) e 46 ambulâncias de suporte de vida. Depois, há mais cerca de 500 dos corpos dos bombeiros que trabalham com o INEM”. No entanto, destaca, o problema é que “muitas destas estão paradas, posso dizer-lhe que só na cidade de Lisboa há dez encerradas por falta de técnicos”. O DN questionou o INEM sobre o total de ambulâncias no país e como estas estão distribuídas por regiões, e quantas do total estão paradas. No entanto, não obteve resposta até ao fecho desta edição. .Idosa morre em Sesimbra após esperar 40 minutos por ambulância que veio de Carcavelos, a 35 km de distância. IGAS abre inquéritos.O certo é que a falta de macas e de ambulâncias está a afetar o socorro de emergência, e sobretudo nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo, com maior pressão na Península de Setúbal, e Algarve. O dirigente sindical confirma-o e destaca que nas reuniões tidas com a ministra e com o presidente do INEM “sugerimos que pudessem ser disponibilizadas aos hospitais, onde isto acontece com mais frequência, mais macas iguais às que utilizamos para o caso de estes não terem condições para manter o doente numa maca sua ou cama. Assim, a ambulância deixava a maca que levava e pegava noutra, não havendo macas, equipas nem ambulâncias retidas”.Técnicos propuseram usar macas de ambulâncias paradas e turnos extras Mas tal não foi acautelado. Rui Lázaro explica: “Propusemos que o INEM fosse buscar as macas que estão nas ambulâncias de reserva ou nas oficinas e colocá-las nos hospitais, nem era preciso o próprio INEM comprar mais macas, mas isso não foi feito. O que ouvi, do coordenador da Comissão de Trabalhadores do INEM, numa rádio, é que a secretária de Estado da Saúde assinou um despacho autorizando a compra de mais camas e macas para os hospitais, mas também não sabemos se isso foi feito”. O DN confrontou o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH), Xavier Barreto, sobre este despacho e se os hospitais se tinham preparam neste sentido. “Provavelmente, as camas foram compradas só que, se calhar, já não são suficientes para as necessidades atuais”, justificou.O presidente do STEPH sublinha ao DN que não foi por falta de alertas que não se previu e planeou esta situação, até porque “é assim nos últimos três anos, durante o inverno”. Por isso mesmo, na reunião com o presidente do INEM “apresentámos uma proposta para tentar colmatar as falhas de técnicos nas ambulâncias da região de Lisboa, que visava a mobilidade de técnicos da região Norte, onde o quadro de pessoal está preenchido e não há meios parados, para fazerem turnos extraordinários nessa região, o que evitaria as dez ambulâncias paradas por falta de equipas”, mas não obtiveram resposta. “A região de Lisboa é das mais afetadas porque o reforço de meios de recursos humanos que teve foi muito pequeno e não se refletiu no funcionamento. Por isso, continuamos a ter a maior parte das ambulâncias da cidade de Lisboa paradas por falta de técnicos. A opção deste presidente do INEM foi priorizar o preenchimento dos postos de atendimento nas centrais de emergência. Foi uma opção, e, neste momento, não temos conhecimento que as chamadas não estejam a ser atendidas”, admitiu. Apesar das tragédias ocorridas esta semana Rui Lázaro reconhece que, “desde julho do ano passado, quando entraram ao serviço os novos 149 técnicos de emergência pré-hospitalar, que a resposta do INEM melhorou, como disse no atendimento de chamadas, tendo sido as regiões Norte e do Centro as mais reforçadas em recursos humanos, que têm os seus mapas de pessoal completos”. Administradores não negam “casos de retenção de macas” O presidente da APAH - que disse ao DN não comentar as situações concretas que estão a dar azo à discussão sobre a falta de articulação entre hospitais e emergência pré-hospitalar, porque “têm detalhes que desconheço” - acaba por reconhecer que “existem casos de retenção, não o vou negar”, mas se tal acontece “não é porque os hospitais ou os seus profissionais querem”. É porque, argumenta, “na maior parte dos casos, os hospitais ficam também sem stock de macas e de camas nos serviços de urgência, por não terem também capacidade de poder drenar alguns doentes para os internamentos”.Xavier Barreto diz mesmo que “esta drenagem da urgência para os internamentos está cada vez mais dificultada, precisamente por conta da não-existência de camas livres”. E explica: “Se num dia ou numa noite nos chegam dezenas de doentes ao mesmo tempo, num curto espaço de tempo, a equipa do hospital não tem capacidade para triar, fazer a primeira observação e passar os doentes da urgência para o internamento com a rapidez que todos desejaríamos, a equipa e os meios são naturalmente limitados. Portanto, é sempre expectável haver algum tempo de retenção em função dos aumentos de procura de doentes.”Por tudo isto, o representante dos administradores hospitalares defende ser “demasiado simplista estar a tentar atribuir a responsabilidade, de forma exclusiva às Unidades Locais de Saúde e aos hospitais, a retenção de marcas”, considerando que o problema deve ser avaliado, em primeiro lugar, do ponto de vista do “dispositivo disponível, em termos de número de ambulâncias, e o adequado para o país face à procura e às necessidades das populações, o que também varia ao longo do tempo. Há locais do país que por conta de encerramento de urgências, por conta da centralização de alguns serviços precisam de mais transporte de ambulâncias e outros não”..Morte no Seixal. Bombeiros acusam INEM de ter mudado regras de triagem sem acordo prévio.Ou seja, “os dispositivos devem ser sempre pensados com alguma margem de segurança para que, no fundo, possam acomodar as variações da procura. Mas, quando começam a ser solicitados para novas necessidades que não existiam antes, como transporte entre hospitais, devido ao encerramento de urgências, essa margem de segurança pode ser consumida. E parece-me que é isso que está a acontecer”.Para o presidente da APAH, está a assistir-se “a uma espiral de degradação que tem de ser interrompida. Só se resolve indo à raiz dos problemas. E, do lado dos hospitais, uma das causas é claramente, a ocupação de vagas nos internamentos por doentes que não deviam lá estar”, relembrando, mais uma vez, que “há muito pouco tempo o diretor executivo do SNS indicou haver cerca de 2800 doentes sociais internados nos hospitais, são muitos doentes a consumir recursos”. No entanto, assume, “é claro que os bombeiros têm toda a razão quando dizem que uma maca não devia ficar retida, que uma equipa não deve ficar retida durante meia dúzia de horas. Isto é um absurdo, mas os meios têm um limite”. Mas, após três mortes em dois dias, ao final da tarde desta quinta-feira, já havia mais meios para o socorro de emergência, mais 275 viaturas para o INEM, num investimento de 16,8 milhões de euros aprovado pelo Governo. O anúncio foi feito por Luís Montenegro logo no início do debate quinzenal, na Assembleia da República, onde lamentou também as mortes ocorridas. Ao todo, “são 63 ambulâncias, 34 VMER e 78 outros veículos”. A Liga dos Bombeiros Portugueses e o INEM também chegaram a acordo para reforçar os meios na região de Lisboa, sobretudo na Margem Sul, “com ambulâncias que estão a fazer turnos de 12 horas, fazerem 24 horas, por exemplo”, explicou o presidente da Liga António Nunes à saída da reunião com o presidente do instituto. Luís Mendes Cabral explicou, por sua vez, que “ficou acordado um reforço permanente de meios para a região de Lisboa, com um foco inicial na margem sul do Tejo, havendo um compromisso para transformar em contratos permanentes os contratos sazonais de reforço de meios. Ou seja, “transformar ambulâncias que são contratualizadas pelo INEM, do ponto de vista sazonal, ou seja, que são apenas, numa determinada altura do ano, em ambulâncias definitivas”, acrescentou.Em relação às três mortes, a justificação continua a mesma: “O INEM cumpriu todos os procedimentos definidos e assegurou o acompanhamento permanente da situação, não tendo a resposta sido mais célere devido à indisponibilidade de meios na região”. Mas já há um instaurado pelo Ministério Público, à primeira morte, e três processos de inquérito instaurados pela Inspeção Geral das Atividade em Saúde para apurar as causas. .INEM e Liga de Bombeiros acordam reforço de meios com foco na margem sul de Lisboa.Ordem dos Médicos pede explicações ao INEM sobre alterações do modelo de triagem