Se fossem refugiados levavam fotografias e cachecol do Benfica

Ministro da Educação e Presidente da República também deram o exemplo e participaram na iniciativa "E se fosse eu? Fazer a mochila e partir" que mobilizou 600 escolas

Se tivesse de fugir à guerra João Tomé levava consigo : uma bola porque "uma criança também precisa de se divertir", nestum, ben-u-ron, dinheiro, pasta e escova dos dentes e... um cachecol do Benfica. Este último objeto arrancou uma gargalhada ao Presidente da República e a todos aqueles que enchiam o auditório da Secundária Eça de Queirós em Lisboa. Mas João Tomé, aluno do 6.º ano não está sozinho, muitos colegas acompanham o seu gosto futebolístico e também não prescindiam deste pertence se um dia fossem obrigados a fugir de casa. Mas as mochilas dos alunos portugueses, se fossem refugiados, incluem também livros, terços, fotografias da família, animais de estimação, dinheiro, lanternas e até peças de ouro para vender em caso de necessidade.

Ontem por todo o país 600 escolas mobilizaram os seus alunos para que colocassem numa mochila o que levariam se fossem refugiados. Respondendo assim à iniciativa "E se fosse eu? Fazer a mochila e partir", promovida pela Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR), em colaboração com a Direção-Geral da Educação, o Alto Comissariado para as Migrações e o Conselho Nacional de Juventude. E à qual se associaram o Presidente da República (PR) e o ministro da Educação. Marcelo Rebelo de Sousa confessa que levaria uma mochila com pouca coisa. "Como velhinho que sou trazia livros, talvez papel e caneta, telemóvel e carregador e apesar de ser hipocondríaco não levava medicamentos."

Já o ministro Tiago Brandão Rodrigues levava - contou de manhã na visita à Escola Básica de Vale Rosal, na Caparica - na sua mochila além de bens de primeira necessidade, um rádio e as chaves de casa, para que um dia pudesse voltar. O governante defendeu ainda que a atitude dos alunos significa que eles vão poder dizer aos refugiados: "Podes tirar a mochila que te pesa nos ombros porque estás em casa e agora só vais precisar que ela te leve à escola ou a fazer desporto".

Já o chefe de Estado elogiou o anúncio feito ontem da criação da Agência Europeia para os Refugiados "para coordenar a disponibilidade dos países que os querem receber com as necessidades daqueles países onde eles estão à espera". Questionado pelos jornalistas, sobre o número ainda reduzido de refugiados que o país recebeu até agora, Marcelo Rebelo de Sousa reconheceu que "o processo de acolhimento é muito lento" e que "ficou aquém das expectativas e do que foi definido". Um problema que não tem a ver com a disponibilidade de acolher, sublinhou.

Pelo menos da parte dos jovens que ontem mostraram saber colocar-se na pele de quem sai de casa com a vida inteira numa mochila. É o caso de Filipa, para quem a sua vida e sobrevivência passariam por levar água, roupa, uma toalha, pensos e papel higiénico, documentos e dinheiro, escova e pasta dos dentes e escova do cabelo. A jovem levaria consigo também "uma fotografia da família, duas caixas de medicamentos, uma lata de atum, linha e agulha, o telemóvel e carregador, sabonetes, uma lanterna e duas peças de ouro para trocar no caminho se precisasse". Uma mochila pronta para todos os cenários que levou Marcelo Rebelo de Sousa a concluir que "as meninas são mais organizadas".

Mas foi um aluno do 9.º ano quem mais surpreendeu o presidente. Na sua mochila estava, além dos objetos comuns (bola, produtos de higiene, roupa e comida), uma navalha. "Não vamos iludir-nos num cenário destes temos de pensar na nossa proteção", justificou-se.

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