Saúde, música e vida nova em Serpa. "O Alentejo como terra mãe"

Os incentivos a médicos que decidam deslocar-se para o interior do país deram um impulso aos planos de Vasco e Joana, profundos admiradores da música e cultura alentejana.

O parque está cheio de miúdos. Correm em direção ao escorrega, segurando nas mãos aquelas misturas estranhas de guloseimas. Júlio, filho mais novo de Joana Dourado e Vasco Nogueira, faz uma mistura com bolachas e batatas fritas que vai mordiscando enquanto corre atrás dos amigos. As crianças, já se sabe, têm aquela particularidade de fazer amigos em tempo recorde e o facto de, em Serpa, em plena pandemia, se ter visto chegar um casal novo com filhos pequenos, ajudou a estabelecer uma rede de apoios a toda a família.

"Devemos muito à comunidade, que se organizou para nos ajudar", explica Joana. Até ao verão passado a vida da família sempre foi em redor de Coimbra. Ele médico psiquiatra e ela engenheira civil a desenvolver um trabalho de doutoramento, não tinham descanso. "Passávamos os dias a andar de carro", explica Vasco. Com os filhos na escola em Coimbra e Vasco a trabalhar no Hospital da Figueira da Foz, era a rede familiar que dava suporte à logística diária. Os dias eram passados atrás do volante na cidade dos estudantes.

O ano passado, enquanto existia um alívio das medidas de combate à pandemia, começaram a sentir-se cansados da vida que levavam. "Existe uma certa ingratidão pelas pessoas" nas cidades do litoral do país, explicam. Privilegiadas geograficamente, nas infraestruturas e no investimento financeiro por parte do estado, estas urbes esquecem-se das pessoas e da qualidade de vida: "São cidades que desperdiçam uma geração inteira". Saturado dos quilómetros e da vida "sem tempo", Vasco decidiu aproveitar algumas das medidas de incentivo aos médicos que se desloquem para regiões carenciadas. Como Joana podia trabalhar no doutoramento em qualquer lado, decidiram em família dar o passo em frente. Deram um "salto para o interior e para sul", a 370 quilómetros de Coimbra, num movimento que família e amigos assumiram ser um devaneio radical de ambos.

Chegaram em novembro, ele colocado num projeto inovador de cuidados com a saúde mental do Hospital de Beja e ela à espera de saber resultados de um concurso para admissão à função pública. Apanhados pela segunda vaga da pandemia, que nesta região teve grande impacto, a família viu-se obrigada a novo confinamento em Serpa. Vasco foi incorporado no Hospital de Beja, mas nos serviços de emergência à covid. "Foi um bocado duro para todos" explica Joana. "Chegámos com tudo às costas e, de repente, tudo fechou".

Com dois miúdos pequenos em casa e sem apoio da família "valeu o apoio da comunidade" que, apesar do confinamento, tentou auxiliar no que podia o casal recém-chegado.

Vasco e Joana já conheciam algumas das pessoas de Serpa desde do tempo de estudantes em Coimbra. Os seus percursos já se tinham cruzado num organismo ligado à Associação Académica que impressiona pela sua vitalidade e longevidade: o Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra - Gefac. Fundado em 1966, tem um dos trabalhos mais longos e profundos de estudo e interpretação das danças e músicas tradicionais portuguesas. Tem semeado o respeito e a curiosidade pela cultura popular em gerações sucessivas de estudantes. Gente que se envolveu em projetos musicais como a Brigada Victor Jara ou as Segue-me à Capela, de que Joana Dourado faz parte. Mas não foi só na divulgação da cultura popular que o Gefac se destacou. No que toca ao amor também deixou frutos. "Parece uma agência matrimonial" confessa Vasco a rir.

Esta paixão pela música e a tradição popular alentejana, que ambos nutrem, é um dos grandes incentivos para terem feito esta opção. Como nos explica Vasco, há aqui um apelo a algo mais forte: "O Alentejo como terra mãe". Impressionados "pelo dinamismo social e cultural" que sentiram em Serpa, depois do período mais crítico da pandemia, elogiam a resiliência da comunidade. Esta é "uma região, historicamente muito discriminada" e com uma tradição de resistência. Uma coragem para enfrentar a inclemência dos elementos, para desafiar a ditadura, para combater o afastamento dos decisores e minimizar o isolamento social. Como exemplo desta ostracização, referem as assimetrias nas infraestruturas: "o Hospital de Beja está a cair. É mantido graças à diligência das pessoas que lá trabalham".

E prosseguem: "A autoestrada para aqui nunca foi acabada, a estrada nacional está em muito mau estado e a ligação ferroviária é obsoleta" o que obriga a um "trabalho gigantesco das autarquias". Um desses exemplos é Serpa, que conseguiu manter muitos serviços essenciais como as escolas, o centro de saúde, correios, entre outros. Creem que é possível "repovoar e fixar pessoas no interior, mas é preciso investir nesta região e corrigir as assimetrias", conclui Vasco.

Serpa

A cidade pertence ao distrito de Beja, inserida na subregião do Baixo Alentejo. É sede de município, dividido em cinco freguesias..

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