Saúde mental. Sabe quando pedir ajuda?

Se por um lado a pandemia aumentou o número de casos de ansiedade e depressão, por outro teve o condão de trazer o tema da saúde mental para cima da mesa. O certo é que, a pouco e pouco, o estigma diminui e as pessoas começam a não ter receio de ir ao médico. Fundamental é reconhecer os sinais, falar sobre eles, cuidar do bem-estar pessoal e não hesitar em recorrer à ajuda profissional.
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Nunca se falou tanto de saúde mental como nos dias de hoje. É verdade que nos dois últimos anos o número de casos de ansiedade e depressão aumentou, fruto de uma pandemia que assolou o mundo. Mas também é verdade que uma doença que era um tabu da sociedade, que era encarada de forma (muito) pejorativa, perdeu (parte) dessa conotação. Hoje as pessoas estão mais atentas e já não têm tanto receio de pedir ajuda.

A explicação, segundo Gustavo Jesus, psiquiatra e docente na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, prende-se com o facto de, no mesmo período, termos sido, todos, submetidos ao mesmo fator de stress, e cujas características fizeram aumentar os níveis de ansiedade (e eventualmente sintomas depressivos). "Foi um fator de stress que se prolongou no tempo", explica o psicólogo, acrescentando que simultaneamente se verificou uma "sensação de ameaça à própria vida". A isto acrescenta-se ainda a imprevisibilidade e a falta de controlo. E tudo isto fez com que a incidência do stress tenha sido muito elevada.

Mesmo porque, acrescenta Clara Meireles, psicóloga na Joaquim Chaves Saúde, os confinamentos foram, para muitas pessoas, muito intensos. O que "aumentou a ansiedade nas relações, nomeadamente as familiares, tendo como consequência a incapacidade de gerir o stress, as discussões, a sobrecarga de trabalho, a imprevisibilidade da situação, as ameaças à própria saúde física, a impossibilidade de fazer o luto de familiares e amigos". Sendo que "a saúde mental é muito reativa à ameaça da saúde financeira", acrescenta.

Mas, alerta Gustavo Jesus, há que saber diferenciar entre sintomas depressivos e/ou de ansiedade e doença. "O que se percebe, da literatura internacional, é que houve um grande aumento de sintomas de ansiedade e depressivos". Certo é que o contexto trouxe para cima da mesa o tema da saúde mental. "Houve muitas pessoas a vivenciá-lo", aponta Gustavo Jesus, referindo que "quanto mais se fala de um assunto menor é o estigma".

Então a que sintomas é importante estar atento? A partir de que momento é imprescindível uma ida ao médico? Sendo que o local para pedir ajuda é "o [consultório do] médico de família, o psicólogo e o psiquiatra".

"Quando a situação - seja os sintomas de ansiedade ou de depressão - seja duradoura no tempo, mais ou menos permanente, recorrente, de intensidade moderada a elevada, mas, principalmente que seja desproporcionada relativamente ao que a gera", explica Gustavo Jesus.

Um exemplo simples: é normal um aluno ficar ansioso no dia de um exame, mas já não faz muito sentido ainda estar ansioso um mês depois do exame. Claramente a proporcionalidade dos sintomas é muito importante. A par, refere o psiquiatra, da intensidade e da abrangência. Se os sintomas afetam várias áreas da vida de uma pessoa, isso é um sinal de alerta, refere. Mas há outros. Quantas vezes as pessoas não dizem "eu não era assim"? Isso significa que há uma "descontinuidade de uma situação anterior para a situação atual". Descontinuidade que é "claramente também um sinal de alerta".

Se a pessoa já tentou ter uma vida saudável, alimentar-se corretamente e mesmo assim não melhora, "é claro que tem de procurar ajuda". Idealmente, refere Gustavo Jesus, deveria ser sempre uma combinação de médico mais psicólogo. O médico -- seja de família ou psiquiatra -- "tem de estar envolvido numa fase inicial, do diagnóstico das perturbações psiquiátricas, porque há muitas coisas que podem ser causadas por motivos físicos que não estão vistas", alerta. "Alterações hormonais, anemia... há todo um conjunto de coisas de que as pessoas nem se apercebem e que podem estar a contribuir para o seu quadro clínico mental".

Há também que compreender que a ansiedade tem sintomas físicos e psíquicos. Na parte dos físicos, "os mais comuns são as palpitações, dificuldade em encher o peito de ar, sensação de inquietação, uma sensação inespecífica de preocupação, de medo, de receio". "Quando a pessoa começa a sentir que está permanentemente preocupada, associado a sintomas físicos, como a tensão muscular, períodos de palpitações, perturbações do sono e do apetite -- o mais frequente é a diminuição do apetite -- todos esses fatores são sinais de que a ansiedade pode estar descontrolada", explica Gustavo Jesus.

Mas, lembra Clara Meireles, o oposto também pode acontecer. A ansiedade tanto pode decorrer da falta de apetite como do excesso. De uma sonolência ou de insónia persistentes. "Tudo o que seja uma alteração ao padrão habitual é sempre sinal de que alguma coisa não está bem", diz.

O corpo também nos dá indicações de que algo não está bem. Dores assintomáticas, por exemplo, que surgem sem fundamento, um aumento de dor muscular, de tensão, de cabeça... "Se começa a acontecer de forma mais regular e que não tem justificação, também pode ser um sinal de que estamos a iniciar um confronto ou uma instabilidade e que o nosso corpo está a acusar algo que, muitas vezes, a mente ainda não tem consciência", aponta Clara Meireles.

O recurso ao médico é fundamental, "caso contrário o risco de agravamento e de a recuperação ser dificultada é elevadíssimo".

Antes de chegar ao estágio em que se tem, obrigatoriamente, de consultar um médico, há todo um conjunto de coisas que as pessoas podem fazer. Quando sentem que estão a viver em stress demasiado intenso (mas não estão doentes) podem optar por estratégias preventivas. Que não são tratamento, explica Gustavo Jesus, mas estratégias complementares.

Tudo começa pela alimentação, seguindo-se o exercício físico - que, como aponta o psiquiatra, "tem uma componente anti-inflamatória sistémica e ajuda a regular a transmissão dos neurotransmissores associados à ansiedade e à depressão, libertando endorfinas que podem melhorar o bem-estar".

A par disso, com evidência já demonstrada, estão as "estratégias de meditação e da linha do mindfulness, que estão associadas a uma diminuição dos níveis de ansiedade".

A isto, Clara Meireles acrescenta o "falar com amigos e pessoas que são próximas". Porque o "interiorizar de uma situação que nos preocupa significa, na prática, estar apenas a escamotear o problema".

O lado positivo da pandemia foi o de trazer para cima da mesa o tema da saúde mental e algo que, para a psicóloga, é fundamental. "A pessoa não ter medo, não ter vergonha de procurar ajuda", afirma, acrescentando que a partilha é "extremamente importante". Porque "quanto mais cedo se procurar ajuda, menor será o confronto com a intensidade da doença".

Se hoje se fala mais de saúde mental, este é um tema que o Festival Mental procura dar a conhecer (e a debater) já desde 2017. Como explica João Gata, responsável pela comunicação do Mental, na origem do festival esteve a consciência de que fazia falta uma iniciativa que maximizasse o acesso à informação, consciencializasse e capacitasse o público em geral sobre a saúde mental.

"O esclarecimento da sociedade civil, fora das vias habituais, tradicionalmente fechadas ou técnicas, sobre o que é Saúde Mental em todas as suas vertentes. Promover a consciencialização da opinião pública no sentido de desmistificar, desestigmatizar e aproximá-la de uma informação capaz, de forma a reconhecer sinais para pedir ajuda sem vergonha ou sentimento de culpa", acrescenta. Para tal o festival recorre às artes (Cinema, Teatro, Dança, Música, Artes Plásticas) e a debates para esclarecer e dar a conhecer as várias vertentes da saúde mental.

A verdade é que, apesar da renitência inicial, o responsável notou uma evolução positiva, com o festival a passar a ser "um lugar de grande importância para a discussão de temáticas complexas e que afligem um cada vez maior número de indivíduos". E o certo é que o Mental já teve, por diversas vezes, casa cheia.

"Quem iria adivinhar isto em 2017 quando era "impensável" fazer um festival com esta temática?", questiona João Gata, revelando que o Mental pretende criar uma rede de cidades ou vilas que abracem o festival todos os anos, para além de Lisboa.

Em plena Serra da Estrela -- mais precisamente em Folgosinho -- encontra-se a New Life Portugal. Designado como um retiro de bem-estar e centro mindfulness adota uma metodoliga que combina terapêuticas clínicas com meditação, ioga, aconselhamento, treino, fitness, natureza, e vida comunitária.

O que diferencia este empreendimento? Antes de mais os programas têm um mínimo de sete dias de permanência, apesar de terem sido entretanto criados pacotes de fim de semana para quem quiser ir apenas conhecer o conceito. Mas há mais: este não é um alojamento onde basta reservar um quarto e já está; o candidato tem de preencher um questionário onde menciona - entre outros parâmetros - se tem alguma doença, se toma medicação, quais são os objetivos neste retiro... O objetivo é perceber se a pessoa em causa tem problemas de ansiedade - e qual o grau, por forma a indicar o programa adequado... Para isso, poderá ser necessário um segundo questionário -- com novos dados -- ou mesmo uma consulta -- via Zoom -- com Karin Bleecker, a diretora do programa. Caso seja considerado que a pessoa vai para além de situações de ansiedade e/ou depressão ligeira a ingressão na New Life é recusada e aconselhada uma ida a um médico especialista.

O centro procura abordar duas situações distintas. Para quem apenas quer descansar ou estar mais atento ao seu "eu" interior, basta subscrever o plano de uma ou duas semanas. No caso de serem detetado episódios esporádicos ou de baixa intensidade de ansiedade e depressão, o sugerido é optar pelo plano de um mês, com acompanhamento clínico.

O centro abriu portas no final do ano passado - a inauguração oficial ocorreu este mês -- e tem estado quase sempre cheio. Na maioria das vezes com hóspedes estrangeiros -- há quem venha de propósito do México -, mas os portugueses também já começam a estar presentes.

dnot@dn.pt

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