Saúde é componente essencial numa cidade inteligente 

Redes integradas de cuidados de saúde, de acesso personalizado e transversal a toda a comunidade, eficientes e sustentáveis serão fundamentais nas smart cities do futuro. Sem a componente da saúde e do bem-estar, apoiada por tecnologias emergentes como a inteligência artificial ou a IoT, nenhuma cidade será verdadeiramente "amiga do cidadão".

A cidade inteligente é aquela que se preocupa com os cidadãos". A frase, proferida por José Ribau Esteves, presidente da Câmara de Aveiro, durante a participação na Smart Cities Summit, que decorre desde terça-feira e que termina hoje na FIL, em Lisboa, resume o conceito de que cada vez mais se fala, em nome da sustentabilidade ambiental, económica e social. E é, precisamente, neste último pilar que o tema da saúde e do bem-estar ganham importância e protagonismo. A pandemia veio desvendar e ampliar fragilidades na área da saúde que, em muitos casos, podem e devem ser solucionadas pelos governos locais e de proximidade. A par com o ambiente, a mobilidade ou os serviços eficientes, a saúde é também um elemento fundamental para garantir a qualidade de vida das pessoas nas cidades que se posicionam como inteligentes.

Mas, apesar da visibilidade que a pandemia trouxe ao tema da saúde e do bem-estar, o desafio de prestar mais e melhores cuidados aos cidadãos, com maior eficiência e personalização, torna-se mais difícil de encarar quando se olha para previsões como as que apontam que, em 2050, 80% da população mundial habite em cidades, ou para os dados preocupantes, divulgados esta semana, que revelam que há em Portugal 40 mil idosos em situação de isolamento, muitos deles em grandes cidades. Adicionalmente, um estudo realizado pela Santa Casa da Misericórdia, no âmbito do projeto de políticas públicas na longevidade, conclui que 86% das pessoas gostariam de terminar os seus dias em casa. Dados que, em conjunto, traçam um panorama que exige soluções transversais, muito apoiadas pela tecnologia, e por entidades próximas do cidadão como as autarquias, as IPSS, associações, etc. "A pandemia demonstrou que só quando atuamos juntos, e aplicamos soluções diretamente na população, temos bons resultados", defende Nuno Marques, presidente do Algarve Biomedical Center (ABC), centro académico de investigação e formação biomédica. Aliás, esta é precisamente a missão da instituição que, através de um conjunto de projetos com impacto na população, visa contribuir para a melhoria da saúde da comunidade. A prová-lo está o contrato que assinou recentemente com a Agência Europeia do Medicamento (EMA), que lhe confere a responsabilidade pela realização de estudos pré-clínicos de qualidade, eficácia e segurança de medicamentos, durante os próximos cinco anos.

A par com o ambiente, a mobilidade ou os serviços eficientes, a saúde é também um elemento fundamental para garantir a qualidade de vida das pessoas nas cidades que se posicionam como inteligentes.

O responsável pelo ABC foi um dos presentes no debate sobre Saúde e Bem-Estar, que abriu a tarde de ontem no Smart Cities Summit, onde apresentou alguns dos projetos que está a desenvolver na vertente do envelhecimento ativo. Destaque para o projeto inovador que inclui a aplicação de um videojogo, criado pela Universidade de Johns Hopkins, à comunidade de idosos. Com mecanismos de inteligência artificial, o jogo, que replica os movimentos das pessoas, visa acompanhar a recuperação depois de um AVC, ou para quem perde capacidades ao longo da vida, melhorando a sua capacidade cognitiva e física. O ABC prevê instalar, no próximo ano, o primeiro centro de aplicação deste jogo na cidade de Tavira.

Tecnologia simples e para todos

Outro dos projetos apresentado durante o painel Saúde e Bem-Estar foi a Jane. Trata-se de uma aplicação, que pode ser disponibilizada no telemóvel do idoso, com vista a monitorizar um conjunto de parâmetros importantes para garantir a sua segurança, aumentando a sua qualidade de vida. Christophe Moortgat, responsável pelo projeto, explica que esta solução é especialmente indicada para os seniores que vivem sozinhos, apesar de poder ser igualmente uma ferramenta de apoio em instituições de saúde ou residências assistidas. "É uma solução assente na cloud e que tira partido da inteligência artificial", diz. No fundo, acrescenta, "faz uma avaliação quantitativa da saúde e do bem-estar, uma vez que deteta, prevê e notifica padrões de comportamento". Com esta solução, as pessoas podem manter-se nas suas casas até mais tarde, com evidente redução de custos para as famílias e também para o Estado.

Mas para que a estadia em casa possa alargar-se até uma idade mais avançada, é necessário promover estilos de vida e alimentares mais saudáveis. O projeto Saúde.Come, da Nova Medical School, procura dar motivação e orientação a pessoas de todas as idades para que, individualmente, contribuam para a melhoria da saúde e para evitar situações de doença crónica. Ana Rodrigues, responsável pelo projeto, não tem dúvidas de que a promoção de um estilo de vida saudável contribuirá para o desenvolvimento de um sistema de saúde mais preventivo. "E há aqui um potencial enorme de redução de custos", salienta. Na perspetiva da investigadora e médica, "este é também o papel das smart cities: fazer chegar o conhecimento aos cidadãos, mas também promover atividades educativas que promovam a adoção de estilos de vida saudáveis", conclui.

dnot@dn.pt

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