Com a Cimeira do Clima das Nações Unidas a debater questões de Saúde Pública, pela primeira vez, as consequências da poluição do ar foram um dos focos de discussão presente, desde logo, no título da sessão deste ano, Viver com doença em Portugal: Desafios ambientais, sociais e económicos. Erik King, diretor-geral da GSK Portugal, justificou "que a realidade mostra que os doentes, sobretudo os crónicos, são os mais vulneráveis e quem mais dificuldades sente". André Mendes, country manager da ViiV, empresa dedicada exclusivamente à área do VIH, completou a explicação com o estigma ainda associado à doença. "A falta de informação contribui para a discriminação e para os mitos que prejudicam as pessoas que vivem com estes problemas.".Estigma e preconceito foram amplamente abordados por Ana Rita Goes, da Escola Nacional de Saúde Pública, confirmando com números a persistência na sociedade portuguesa. "São altamente preocupantes! Quase 40% das pessoas com HIV já viveram alguma forma de estigma ou discriminação. No caso da doença mental, há comportamentos discriminatórios transversais em toda a sociedade incluindo nos cuidados de saúde.".Rui Costa, que já coordenou o Grupo de Estudos de Doenças Respiratórias da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, contextualizou as consequências das alterações climáticas para as principais doenças crónicas, começando por afirmar que 99% da população mundial respira ar poluído. "Talvez até os profissionais de saúde fiquem surpreendidos, mas em grande parte do planeta o ar ultrapassa os níveis de segurança definidos pela OMS, a partir dos quais há desenvolvimento de várias doenças.".As doenças respiratórias, alérgicas e a insuficiência cardíaca são as mais afetadas, agravadas agora na época de inverno pelo conceito da tripla epidemia (conjugação de vírus da covid 19, da gripe e do Sincicial Respiratório)..A interação entre ambiente e saúde tomou igualmente lugar na mesa-redonda com Luís Campos, do Conselho Português para a Saúde e Ambiente, a alertar para "os principais desafios que a sociedade vai enfrentar nos próximos anos". O presidente da associação, que reúne diversas organizações empenhadas em mitigar o impacto das alterações climáticas na saúde humana e reduzir a pegada ecológica do setor, questionou muitas das atuais políticas que "apostam pouco na prevenção" e apontou a necessidade de todas as decisões do Estado, dos serviços, das empresas e dos cidadãos terem preocupação com sustentabilidade ambiental..Dominar estes temas ajuda a prevenir e a proteger quem vive com doença: esta foi a conclusão generalizada, porque até os profissionais de saúde foram acusados de estarem alheados do fenómeno, tal e qual como acontece em alguns casos de literacia em saúde..A necessidade de aumentar conhecimento, mesmo entre profissionais, foi a tónica da intervenção da presidente da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde. "É preciso transformar o jargão técnico em linguagem acessível, clara e simples", pediu Cristina Vaz de Almeida aos técnicos. "Não se trata de infantilizar, mas de facilitar a vida a todos nós", disse citando um estudo de 2016 em que 36% dos profissionais de saúde revelou falhas de literacia. Para melhor intervir e ajudar a alterar o "estado da arte", Cristina Vaz de Almeida reivindicou mais representatividade para a sociedade que preside..Por sua vez, os doentes representados pela Plataforma Saúde em Diálogo, que agrega mais de 60 entidades do setor, já não se queixaram de falta de representatividade, o que significa uma evolução relativamente a outras edições desta iniciativa. A crítica agora é outra: Ana Sampaio acusou as estruturas que decidem a saúde em Portugal de chamar as associações quando as resoluções já estão tomadas. "Queremos integrar as decisões que nos dizem respeito. Temos de lutar mais por este direto". O pedido é para acompanhar e integrar, desde o primeiro momento, as equipas que desenvolvem estratégias e os planos que envolvam doentes ou as associações representativas. "Não nos basta chegar quando já existe um documento e nos pedem para o avaliar, queremos fazer parte do grupo que o redigiu, porque temos contributos fundamentais.".Carla Pereira, em representação da diretora-Geral da Saúde, aproveitaria a sessão de enceramento para apontar uma dificuldade ligada às questões de representatividade. "Há diferentes níveis de responsabilidade e representatividade das associações de doentes e poucas têm âmbito nacional e, para nós, esse é um problema porque interessa-nos a participação de todos, mas contemplando também as diferenças regionais." A chefe de Divisão de Planeamento e Melhoria da Qualidade da DGS considerou que já existem algumas associações nacionais, mas exortou à criação de muitas outras..Maria de Belém Roseira, outra participante no debate, lembrou que foi no tempo em que chefiou o Ministério da Saúde que o doente ganhou estatuto e passou a fazer parte do sistema e que, cada vez mais, isso faz sentido. A este propósito citou palavras ainda recentes do psiquiatra Júlio Machado Vaz que disse não gostar de ter o doente no centro do sistema, mas o sistema centrado no doente. Ao comentar a atual situação e ainda temas ligados à contínua falta de interesse dos decisores por adotar mais políticas de prevenção, a antiga ministra sublinhou a falta de operacionalidade entre ministérios que, na maior parte das vezes, travam políticas e projetos que poderiam facilitar o quotidiano dos doentes..Esta síntese do Encontro GSK | ViiV Healthcare que teve o apoio do DN e TSF fica completa com a referência à intervenção dedicada à literacia financeira. A fintech Doutor Finanças dedicou uma ação de formação breve, mas focada especialmente nos conceitos de poupança a pensar nos doentes crónicos e nas necessidades de aforro para períodos de carência e reforma..A sessão foi transmitida em streaming e pode ser visualizada no endereço https://encontrogskviivassociacoesdoentes.pgm.pt/vod.