Roubos violentos em noites que juntam mais de 100 mil pessoas

Clientes de bares denunciaram 13 seguranças privados de agressão. Ministério Público acusou-os e começaram a ser julgados. Mas crimes continuam. Moradores queixam-se

Muito mais do que a lotação de um estádio de futebol, muito mais do que o público de um grande concerto rock, a multidão nas noites do Cais do Sodré, em Lisboa, chega às 100 mil pessoas, garantem os moradores. E o domínio deste palco caótico, com epicentro na "rua cor-de-rosa", a Rua Nova do Carvalho - onde fica a maioria dos bares -, esteve durante anos, alegadamente, nas mãos de 13 seguranças privados que trabalhavam nos vários bares do Cais do Sodré.

O grupo começou a ser julgado esta semana, em Lisboa, por agressões a pelo menos 30 clientes e detenção de armas proibidas, segundo o Ministério Público. Armas como facas, soqueiras e correntes terão sido usadas para agredir, muitas vezes em grupo, frequentadores dos bares, durante os três anos a que reporta a acusação (2009 a 2011). Pelo menos três dos seguranças privados arguidos, que aguardaram em liberdade o julgamento, continuam a exercer essas funções na noite, confirmou o DN, enquanto outros disseram em tribunal estar a trabalhar como "relações públicas" em estabelecimentos noturnos. Só um dos arguidos falou na primeira sessão do julgamento. Os outros preferiram manter o silêncio, tal como os advogados, que responderam ao DN apenas que não querem falar dos processos nesta fase.

Mas o que mudou no Cais do Sodré desde que este grupo de seguranças se dispersou? A zona noturna mais na moda em Lisboa continua a registar casos de violência mas mudaram os protagonistas e a forma de atuar. A PSP tem levado a cabo "muitas detenções por roubo a clientes dos bares", feitos por bandos de jovens da periferia de Lisboa que ali se deslocam, de propósito com esse objetivo, adiantaram fontes policiais. "É uma zona com uma população flutuante muito grande e que cresce às quintas, sextas e sábados. Vem gente de muitos sítios, é um chamariz", acrescentou uma das fontes consultadas. Por isso, a polícia teve de mudar de estratégia para lidar com os grupos de assaltantes que esperam pelas saídas de jovens dos bares para atacarem nas ruas adjacentes. "O que temos feito, e com bons resultados, foi incidirmos naquela zona em determinados horários, reforçar a visibilidade e atacar na repressão." Em contrapartida, com os seguranças privados a PSP "não tem tido problemas ultimamente". Na altura a que reportam os crimes agora em julgamento, os seguranças dos vários bares "atuavam com uma frente visível e uma menos visível, que era apoio de retaguarda". Isso mudou e os atuais vigilantes deixaram de atuar em bando.

Segundo a acusação do Ministério Público, sempre que um deles discutia com um ou mais clientes, os arguidos "contactavam-se via rádio e chegavam, inclusive, a fechar o bar onde exerciam funções para ajudar outros seguranças a agredir as pessoas com quem se desentendiam. "Muitas das vítimas não apresentavam queixa, algumas por serem estrangeiras, e muitas outras não se mostravam capazes de reconhecer todos os agressores, devido ao número (...), à violência das agressões e ainda à estratégia utilizada pelos arguidos, que (...) trocavam de roupa para dificultarem o reconhecimento pelas vítimas e, por vezes, ausentavam-se do local para não serem identificados."

Quanto aos problemas de segurança atuais, a PSP diz estar a atuar e a reprimir a criminalidade na zona, mas os moradores do Cais do Sodré garantem que essa atuação policial "não existe". Isabel Sá da Bandeira, do Movimento Aqui Mora Gente, que representa os moradores do Cais do Sodré e Santos, queixa-se dos "atos de vandalismo frequentes, nos automóveis, nos edifícios, com os caixotes do lixo caídos, desaparecidos ou incendiados". Da janela "vemos grupos a saltar em cima do nosso carro, a pontapear outro carro, a atirar pedras ou garrafas pelo ar, há insultos e cenas de pancadaria que muitas vezes acabam com a chegada da ambulância", relata, considerando que é necessário reforçar a segurança na zona.

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