Ricciardi afirma que só soube da existência da ES Enterprises pelos jornais

O antigo presidente do BESI esteve na terceira sessão do julgamento do primo Ricardo Salgado, no âmbito do processo separado da Operação Marquês.

O antigo presidente do Banco Espírito Santo de Investimento (BESI) José Maria Ricciardi reiterou esta terça-feira desconhecer a sociedade offshore ES Enterprises e sublinhou só ter sabido da sua existência pelos jornais com o colapso do Grupo Espírito Santo (GES).

"Não conhecia a ES Enterprises. Vim a tomar conhecimento dessa empresa pelos jornais, creio que já depois de 2014", afirmou o primo de Ricardo Salgado na terceira sessão do julgamento do processo separado da Operação Marquês, no Tribunal Criminal de Lisboa, no qual o ex-presidente do GES responde por três crimes de abuso de confiança, devido a transferências de mais de 10 milhões de euros nesse âmbito.

Na qualidade de testemunha da acusação, o primo de Ricardo Salgado vincou o seu desconhecimento em relação aos pagamentos efetuados por esta sociedade, nomeadamente suplementos remuneratórios. Paralelamente, refutou também qualquer ligação à Espírito Santo International VBI (Ilhas Virgens Britânicas na sigla em inglês), da qual veio a receber dois pagamentos em 2013 e 2014.

"O meu pai, que tinha direito a um prémio de 200 e tal mil euros anual por ser membro do Conselho Superior do GES, veio comunicar que me queria dar metade desse prémio, porque eu nunca tive qualquer remuneração. Portanto, eu recebi cento e tal mil euros. Não me apercebi, pensei que viesse pela conta do meu pai e fui declará-lo às finanças. Nem me apercebi que tinha vindo da ESI VBI. Fiz a minha obrigação: declarar às finanças e pagar o imposto", frisou.

Sem deixar de enfatizar que não está "de relações cortadas" com Ricardo Salgado, José Maria Ricciardi assumiu que já não fala "desde 2015 ou 2016" com o antigo presidente do GES.

"Nunca mais me cruzei com Ricardo Salgado em lado nenhum. Não tive essa oportunidade. Se ele falar, eu falarei", contou o ex-banqueiro, continuando: "Não é uma questão de problema de relação. As nossas vidas seguiram caminhos diferentes e não nos encontrámos fisicamente. Mas não estou de relações cortadas, não sei se ele estará. Estou a falar pela minha parte".

Em resposta à inquirição dos advogados de defesa, o ex-presidente do BESI defendeu também que o poder era completamente centralizado pelo antigo líder do GES e deu como exemplo as reuniões do Conselho Superior, nas quais os elementos agiam como "espetadores" em relação a Ricardo Salgado.

"Esse conselho era presidido pelo meu pai, mas a reunião não começava sem a chegada de Ricardo Salgado, sendo que ele era vogal. Era uma situação em que Ricardo Salgado descrevia o que acontecia e o que se ia fazer e as outras pessoas estavam como espetadores a assistir a isto. E está nas atas que eu perguntei se era para ouvir o que o Ricardo Salgado ia fazer ou se era uma reunião em que se punha a discussão e votação", resumiu.

Qualquer decisão no GES, sustentou José Maria Ricciardi, "dependia de Ricardo Salgado", algo que disse ter tentado alterar, mas recusando a tese de tentativa de "golpe de estado".

"No final do verão de 2013 comecei a redigir um protocolo, onde contestava a maneira como a governança do grupo era exercida. Ricardo Salgado mandava em tudo, só dava as explicações que entendia e não havia transparência ou escrutínio, tanto a nível do grupo como do banco", observou, reforçando: "É absolutamente falso que alguma vez me candidatei ao lugar de Ricardo Salgado. Teriam de ser os acionistas -- e não era só a família -- a decidir quem era o próximo presidente e o meu objetivo na vida era continuar na presidência do BESI".

Confrontado com uma posterior declaração conjunta em que reiterou a confiança na liderança executiva de Ricardo Salgado, datada de 11 de novembro de 2013, quatro dias após a reunião do Conselho Superior na qual havia recusado dar o seu voto de confiança, José Maria Ricciardi explicou que o primo lhe tinha apresentado numa reunião à parte condições que iam ao encontro do que defendia para o GES.

"Ele disse que ia abrir um processo de sucessão, declarar publicamente que eu não tinha feito golpe de estado e eu disse então que, se era assim, eu manifestava a minha confiança, para não criar mais turbulência. Decidi tomar essa decisão", esclareceu, depois de ter relatado também que o antigo presidente do GES chegou a querer retirá-lo de todos os cargos que detinha nas diversas entidades do grupo.

A tarde desta terceira sessão ficou ainda marcada pelas audições do antigo líder da ESCOM Helder Bataglia, que não quis prestar quaisquer declarações, e por Francisco Fino, economista e antigo gestor de conta de Henrique Granadeiro, que falou, essencialmente, sobre o investimento num condomínio de luxo no Brasil, onde é vizinho de Ricardo Salgado, e sobre instruções dadas pelo ex-presidente da PT.

O julgamento de Ricardo Salgado prossegue agora apenas em setembro, após as férias judiciais, com a quarta sessão agendada para dia 6.

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