Comunidade muçulmana receia tornar-se "dano colateral"

Ataques a mesquitas, prisões preventivas e insultos às mulheres que usam véu são alguns dos efeitos sentidos pela comunidade devido ao estigma que está associado ao islamismo

A comunidade muçulmana de Manchester, no noroeste de Inglaterra, receia tornar-se um "dano colateral" do atentado terrorista de segunda-feira que matou 22 pessoas e feriu 64, afirmou hoje um representante.

"Receio pelo que possa acontecer no rescaldo, quando a comunicação social sair da cidade, e o impacto que isto possa ter na comunidade muçulmana", afirmou Mohammed Ullah, capelão na Universidade Metropolitana de Manchester, à agência Lusa.

O atentado foi perpetrado na segunda-feira, às 22:33 locais (mesma hora em Lisboa), por Salman Abedi, um britânico de origem líbia de 22 anos, que se fez explodir junto a uma das saídas da Arena de Manchester, onde estava a terminar um concerto da cantora 'pop' norte-americana Ariana Grande.

O atentado foi reivindicado pelo grupo extremista Estado Islâmico, mas não existe uma confirmação oficial.

Porque o responsável do atentado foi identificado como muçulmano, Ullah prevê que "depois da angústia venha a raiva" e receia que a comunidade desta religião se torne num "dano colateral".

"Dizem-nos que temos de fazer mais para combater o extremismo, mas a comunidade já está a fazer muito. Não é possível extinguir a maldade", declarou à Lusa, reivindicando o estatuto de cidadão de Manchester que é muçulmano.

Ataques a mesquitas, prisões preventivas e insultos às mulheres que usam véu são alguns dos efeitos sentidos pela comunidade devido ao estigma que está associado ao islamismo.

"As pessoas dizem que têm medo de nós, mas nós também temos medo! Ele [Salman Abedi] não representa ninguém a não ser ele próprio", acusou.

Um vídeo partilhado hoje na plataforma YouTube mostra um homem a confrontar um jovem muçulmano perto da mesquita de Didsbury sobre o atentado terrorista.

Era aquele templo que Salman Abedi, de 22 anos, frequentava. Hoje à porta da mesquita, conhecida por Centro Islâmico de Manchester, encontravam-se jornalistas e agentes da polícia.

"Vocês precisam de resolver isto na vossa comunidade", afirma o homem, ao que o jovem, identificado como Mohammed Fadeil, responde: "Ele não faz parte da nossa comunidade".

Num comunicado divulgado hoje, a mesquita condenou o "incidente horrível" e manifestou solidariedade com as vítimas e população de Manchester em geral.

Também a comunidade anglo-líbia de Manchester repudiou o ato de Abedi, cujos pais são de origem líbia.

"O autor matou pessoas inocentes e indefesas, incluindo crianças. Este ataque foi um ataque a todos nós. Atos tão imorais não têm fundamento no Islão", sublinha o comunicado, publicado na rede social Facebook.

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