Rede cortada alertou guarda para fuga de três presos em Caxias

Dois chilenos e um luso-israelita serram grades e saltaram pela janela da cela. Sindicatos denunciam falta de pessoal. Ministério da Justiça vai avançar com a formação de 400 guardas

Pela uma da manhã deste domingo, o chefe dos guardas da prisão de Caxias estava a fazer a ronda pelo exterior de um dos pavilhões quando se apercebeu de que existia um problema na rede que circunda esta cadeia: estava cortada.

Dado o alarme, os guardas que estavam de serviço aperceberam-se que três presos - dois chilenos e um luso-israelita, todos arguidos em processos por furto e roubo - tinham fugido pela janela de uma cela, cujas grades já vinham a serrar há algum tempo. Saltaram, a distância ao solo não era muito grande, aproveitaram o fosso junto à prisão para se esconder e desapareceram pelo descampado que existe naquela zona. Perto há uma zona de pinhal que os ajudou a não serem vistos. A partir daí, o Grupo de Intervenção e Segurança Prisional, PSP, GNR e Polícia Judiciária foram alertados e durante o dia procuraram o trio. Que à hora de fecho desta edição ainda não tinha sido encontrado. Foi ainda iniciado um processo de averiguações, a cargo do Serviço de Auditoria e Inspeção da Direção-geral de Reinserção e Serviços Prisionais.

De acordo com as fontes consultadas pelo DN, na cela estava um quarto recluso - de nacionalidade brasileira - que terá dito aos guardas não se ter apercebido de nada pois tinha tomado medicação.

Por apurar estava a hora da fuga, que terá sido preparada há algum tempo até pela necessidade de serrar as grades durante alguns dias. Mas terá ocorrido a partir das 22.00/23.00, quando se apagam as luzes. Como foi dito ao DN, os presos - muitos em prisão preventiva, como os três agora procurados - conhecem as rotinas dos guardas e o tempo que demoram a efetuar a ronda pelos edifícios da prisão - são dois. Por isso, como terá ocorrido neste caso, podem ir serrando as grades e até disfarçar essa intervenção - "basta colocarem pastilha elástica branca e os guardas não se apercebem do corte", sublinham as fontes, frisando que não é possível ir bater em todas as grades das celas, já antigas e degradadas, para ver se estão inteiras.

Certezas também não existiam, ontem à noite, sobre a possibilidade de terem recebido ajuda do exterior. Até porque, dos homens que fugiram - com idades entre os 29 e os 30 anos - só o natural de Israel teve visitas desde que deu entrada no estabelecimento prisional. A mais recente no dia dos namorados.

Terceira fuga desde outubro

Esta foi a terceira vez desde outubro do ano passado que reclusos tentam fugir de Caxias - esta prisão do concelho de Oeiras é considerada pela Direção-geral como de alta segurança e, segundo dados oficiais de dezembro de 2015, tinha 518 presos quando devia ter 334. Todavia, nas duas vezes anteriores, essas fugas foram iniciadas de dia, quando há muito mais guardas na cadeia e em ações de vigilância, e, portanto, os detidos foram vistos e apanhados. Sendo que, pelo menos um, já teria passado a rede.

Esta rede - recorde-se que Caxias não tem um muro à volta da prisão - é, segundo garantiram ao DN, "fácil de cortar". "É uma rede normal. Até mais fácil que as grades", acrescentaram.

400 guardas vão para formação

Esta fuga foi aproveitada pelos sindicatos para acusarem o Governo de não reforçar a guarda prisional, lembrando que faltam elementos em todas as prisões nacionais.

"Para sermos rigorosos temos de ver o que diz o mapa de pessoal da Direção-geral que está junto ao Orçamento de 2017. Referem 4903 elementos no corpo da guarda prisional e neste momento o mapa de pessoal tem 4040. Há 1500 guardas por dia para 14 mil reclusos nas cadeias nacionais. É um desgaste muito grande", salientou ao DN Jorge Alves, presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional.

Análise confirmada tanto pela Associação Sindical de Chefias do Corpo da Guarda Prisional, cujo presidente, Mateus Dias, lembrou que o que se passou é o "reflexo das más condições em que se encontra o sistema prisional. Há uma situação dramática de falta de guardas".

Já Júlio Rebelo, presidente do Sindicato Independente dos Guardas Prisionais, disse à SIC que esta situação "poderia ser prevista já há algum tempo. Porque o contingente de guardas é muito reduzido".

Em resposta a estas críticas, o Ministério da Justiça garantiu que em março vai iniciar-se um curso de formação para 400 guardas prisionais - que terá a duração de seis meses - e que 366 guardas vão ser promovidos à categoria de guardas principais.

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