Red Man. Oficial da GNR punido por lesionar 26 instruendos teve louvor por dar sangue

O alferes João Semedo, que ficou conhecido por Red Man, está a cumprir 121 dias de suspensão determinados pelo Ministro da Administração Interna, por proposta da IGAI, por ter agredido e provocado lesões a 26 instruendos num treino de bastão extensível

O oficial da GNR que está a cumprir uma suspensão disciplinar de 121 dias por ter agredido e provocado lesões a 26 instruendos (não apenas seis ou dez como temos vindo a noticiar) durante treinos de bastão extensível da Escola da Guarda em Portalegre, conforme concluiu a Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) no seu inquérito, recebeu um louvor do comandante-geral da GNR, tenente-general Rui Clero.

A informação, que não é pública, chegou esta semana ao efetivo através de uma ordem de serviço interna e revela o motivo da distinção: o alferes João Semedo deu sangue dez vezes, a primeira em 14 de agosto de de 2015, mais três em 2016, duas em 2017, duas em 2018 e outras tantas em 2019, a última das quais a 11 de dezembro.

" louvo o Alferes de Infantaria João Miguel Pacheco Semedo, daquela Unidade, por ter efetuado, gratuita e voluntariamente, dez doações de sangue (...) a doentes que dele careciam, demonstrando com tão generoso procedimento possuir exemplar consciência cívica e elevado espírito altruísta, a par de grande abnegação e profundos sentimentos de solidariedade em prol da vida do seu semelhante"

"Por proposta do Comandante do Comando Territorial de Lisboa, louvo o Alferes de Infantaria João Miguel Pacheco Semedo, daquela Unidade, por ter efetuado, gratuita e voluntariamente, dez doações de sangue (...) a doentes que dele careciam, demonstrando com tão generoso procedimento possuir exemplar consciência cívica e elevado espírito altruísta, a par de grande abnegação e profundos sentimentos de solidariedade em prol da vida do seu semelhante, qualidades que muito o dignificam e é de inteira justiça salientar", assina Rui Clero.

Questionado pelo DN sobre o motivo pelo qual foi atribuído um louvor a um oficial que está a cumprir uma pena pesada por a sua conduta violenta ter sido considerada pela IGAI como gratuita e desproporcional contra camaradas numa situação de vulnerabilidade, além de muito desprestigiante para a própria instituição GNR, o porta-voz de Rui Clero, não faz qualquer referência a este castigo.

Remete o motivo para a própria ordem de serviço e acrescenta que "a GNR considera extremamente relevante que os seus militares e civis efetuem dádivas de sangue, medula óssea e de outra natureza, tratando-se de atos voluntários e altruístas, que, como tal, merecem ser reconhecidos. Assim, é neste alinhamento, e com a consciência de se tratar de comportamentos que salvam vidas, que existem normativos internos que visam incentivar estes comportamentos, onde se encontra previsto a atribuição de louvor aos militares ou civis da Guarda que efetuem 10 dádivas de sangue".

A GNR não explicou, mas o DN sabe que os louvores por dádivas de sangue e também de medula óssea são praticamente automáticos, sendo a intervenção do comandante-geral apenas proforma.

As regras estão descritas numa designada Norma de Execução Permanente, um regulamento interno reservado. Os militares têm direito a 12 horas de folga após uma dádiva; têm cinco dias de licença se fizerem três doações de sangue ou uma de medula óssea; após dez doações de sangue ou três de medula óssea, o comandante do militar está obrigado a enviar ao comando-geral uma proposta de louvor, acompanhada com os comprovativos.

Se haveria forma de travar louvores que se aplicam a militares castigados, não foi possível saber. Neste caso, apesar de as doações terem sido entre 2015 e 2019, apenas foi agora publicado o louvor. Se teve alguma coisa a ver com os factos da escola de Portalegre, não foi dito pelo comando-geral.

João Semedo ficou em primeiro lugar no seu curso da Academia Militar e teve três dezenas de testemunhas abonatórias da GNR, camaradas e superiores hierárquicos que lhe destacaram qualidades pessoais e profissionais - o que para a IGAI lhe aumentou a responsabilidade na sua atuação, mas também serviu para atenuar a pena.

Os factos que levaram ao inquérito da IGAI tiveram lugar no final de outubro de 2018 e até essa altura o oficial já tinha dado sangue oito vezes.

Mas a investigação da IGAI, que ouviu cerca um uma centena de testemunhas, foi mais atrás e identificou que aquela prova de bastão extensível - conhecida por Red Man porque instrutor está vestido com um fato almofadado vermelho, com capacete, género Robocop - já tinha feito outras vítimas por outros instrutores, além de João Semedo.

Ao alferes, a IGAI deu como provado que tinha provocado lesões a 26 instruendos de diferentes pelotões em três provas realizadas em outubro de 2018. Narizes partidos, sangramentos no rosto, fraturas em várias partes do corpo resultaram na perda de sentidos em, pelo menos, quatro instruendos e na necessidade de cirurgias para outros tantos.

O caso mais grave conhecido, foi o de Salvador Cabecinhas, cuja história o DN contou na edição do dia 21 de junho. Hoje guarda em Torre de Moncorvo, foi pontapeado e socado em várias partes do corpo, entre as quais o rosto.

Um dos socos desferido no olho direito fê-lo perder a visão momentaneamente e fraturou a zona da órbita. Teve de ser submetido a uma cirurgia e colocada uma placa de platina no interior ósseo da cavidade ocular. A 14 de dezembro de 2018, Cabecinhas fez o juramento de bandeira ao lado dos seus camaradas de pelotão (na foto), incluindo outros que também tinham ficado feridos no mesmo dia.

Foram vários os militares que, nos seus testemunhos à IGAI, revelaram que os equipamentos de proteção que usavam estavam em mau estado e que a maior parte das vezes nem tinham capacete para os proteger dos golpes dos instrutores que, naquela prova, cumpriam a função de "adversário" e tinham de avaliar a capacidade de reação dos futuros guardas.

Apesar de, inicialmente ter sido noticiado que o número de feridos tinha sido cerca de uma dezena e de a GNR ter reduzido esse número para meia dúzia, afirmando em junho passado ao DN que "em consequência das lesões verificadas na prova de situação, ministrada no âmbito do Curso de Bastão Extensível, foram instruídos seis processos por Acidente em Serviço a seis militares que recuperaram totalmente das lesões", o número de vítimas identificadas pela IGAI goram 26, num total de três provas em que este alferes era responsável.

O Ministério Público também abriu um inquérito em novembro de 2018, mas desconhece-se o resultado.

valentina.marcelino@dn.pt

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