GNR agredido em treino e que quase cegou é guarda em Torre de Moncorvo

Salvador Cabecinhas estava na prova final do seu curso de admissão à GNR, quando num treino de bastão extensível foi atingido violentamente no olho pelo punho do oficial instrutor. Partiu o osso ocular e ficou temporariamente cego. A GNR assume que outros seis instruendos sofreram lesões nesse treino. Todos estão hoje na GNR. Vítimas e agressor.

Foram 15 segundos o tempo que durou aquele treino de Salvador Cabecinhas na Escola de Portalegre. Nesse dia, o instrutor, alferes João Semedo, cuja fama de alguma agressividade o precedia, parecia fora de si.

Antes de Cabecinhas enfrentar aquela figura de fato vermelho à robocop, que simulava um delinquente agressivo que tinha de ser imobilizado, já meia dúzia de colegas tinham sofrido ferimentos e havia narizes a sangrar.

Era 26 de outubro de 2018. Tinha 24 anos e o sonho de entrar na GNR.

Quando Cabecinhas, farda de aluno, sem qualquer proteção na cabeça, e um bastão de borracha revestido a esponja na mão, se aproximou do Red Man - assim apelidaram esta prova porque o equipamento era de cor vermelha - este apresentou-se com luvas de boxe, chumaços, caneleiras e capacete protetor, para lutar com os recrutas, que se encontravam indefesos.

Mal teve tempo de respirar.

O que contou aos seus camaradas (este texto é feito com base em testemunhos indiretos pois o Comando-Geral da GNR não autorizou que falasse ao DN) é que em 15 segundos sentiu um "craque" no rosto e "ficou tudo negro".

Não sentiu dor, mas o desespero dominou-o quando abria os olhos e só viu escuridão. Amparado pelos colegas do pelotão, esteve assim, naquele breu, uma meia hora, tendo depois, devagarinho começado a recuperar a visão.

Ao contrário do que foi noticiado erradamente, incluindo pelo DN, sem que a GNR retificasse, Cabecinhas só cegou momentaneamente e não parcial ou definitivamente, como foi escrito e repetido.

Era uma sexta-feira e mandaram-no para casa passar o fim de semana com a advertência de por gelo e tomar paracetamol. Sábado, quando abriu os olhos, via tudo a dobrar e apesar de continuar sem sentir dores, decidiu ir ao Hospital de S. José, em Lisboa.

Não desistir, doa o que doer

Observado pela equipa de cirurgia maxilofacial o diagnóstico foi rápido. "Lesão de pugilista", terá dito a chefe de equipa, quando olhou a radiografia e viu o osso ocular partido. Ficou internado no mesmo dia e sujeito a uma complexa cirurgia, na qual lhe foi colocada uma pequena placa de platina no interior ósseo da cavidade ocular.

Em cerca de duas semanas recuperou, apenas com uma pequena cicatriz disfarçada nas rugas inferiores do olho e com um pensamento a dominar-lhe a atenção: voltar à Escola de Portalegre, concluir o curso e entrar na GNR. Doesse o que doesse.

"O Salvador tem uma enorme determinação e todos os camaradas e o alferes comandante lhe deram força, para que não desistisse. Teve todo o apoio quando voltou", relata um militar próximo de Cabecinhas. Nunca revelou revolta contra o instrutor, dizia só que a melhor resposta que tinha que dar era mesmo "concluir o curso e entrar da GNR".

Quando o caso veio a público, noticiado pelo JN a dois de dezembro, Salvador já tinha regressado à Escola, depois da operação, e aplicava-se afincadamente a recuperar a matéria perdida.

Assistiu às notícias na televisão do bar da Escola, contam os camaradas, "sem revelar emoções" e não demorando a regressar à camarata para estudar.

O curso que saiu mesmo "do corpo"

A 15 de dezembro, Salvador Cabecinhas fez o juramento de bandeira ao lado dos seus camaradas de pelotão, incluindo dos outros que também tinham ficado feridos no mesmo dia.

Estava emocionado, com a presença da família, incluindo tios reformados da GNR. Salvador já tinha nessa altura uma licenciatura em gerontologia na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Bragança. Em 2015, tentara entrar na PJ, e em 2017 na PSP e estava decidido a não falhar desta vez. Ironizava até com os amigos a dizer que lhe tinha mesmo "saído do corpo" este curso.

Foi colocado perto da sua terra, no posto de Torre de Moncorvo, onde cumpre serviço de patrulhas, sem quaisquer limitações, pois da lesão, só tem as memórias que se mantém vivas. Diz que está feliz e se sente muito realizado.

A GNR, como já foi referido, não permitiu ao DN contactar com este guarda, mas confirmou a sua recuperação e admissão nesta força de segurança. "O militar que sofreu uma lesão diagnosticada como fratura ocular no olho direito, foi intervencionado cirurgicamente e recebeu alta médica no espaço de um mês, tendo sido considerado totalmente recuperado e sem qualquer incapacidade em 22/11/2018, pelo que concluiu com aproveitamento o Curso de Formação de Guardas sem qualquer lesão que limitasse o seu futuro e desempenho profissional, bem como a sua integração na instituição", refere o porta-voz desta instituição.

Acrescenta que "a colocação do militar em questão decorreu de um processo normal de colocação, no âmbito do qual os militares são ordenados de acordo com a sua classificação final e escolhem, na sua vez, uma das vagas disponíveis nas Unidades da Guarda Nacional Republicana".

Revela que "em consequência das lesões verificadas na prova de situação, ministrada no âmbito do Curso de Bastão Extensível, foram instruídos seis processos por Acidente em Serviço a seis militares que recuperaram totalmente das lesões, tendo sido considerados totalmente aptos para o serviço, sem quaisquer limitações, tendo todos eles concluído com aproveitamento a formação e, por isso, ingressado na GNR".

Até aqui, a GNR nunca revelara o número exato de feridos. O JN tinha avançado com 10 e esse foi o número que foi sempre sendo noticiado, sem desmentidos.

Questionado sobre a situação atual do instrutor, que continua na GNR, o porta-voz não se pronunciou. O alferes, conforme o DN já noticiou, foi alvo de um inquérito criminal do Ministério Público, o qual ainda não foi concluído passados quase três anos, e de um processo disciplinar da Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI), já concluído.

Ambos os inquéritos, note-se, só foram instaurados depois de o caso ter vindo a público, pois a GNR, na altura liderada pelo General Botelho Miguel (atual diretor nacional do SEF), na pior versão da cultura castrense, não terá comunicado o ocorrido a autoridades externas.

Só com o escândalo a nu, o comandante da Escola foi demitido, alegadamente por pressão de Eduardo Cabrita, que percebeu que tinham de rolar cabeças. Ainda assim, esse oficial foi passado pouco mais de um mês promovido a diretor da Direção de Formação, do Comando da Doutrina e Formação da GNR.

Castigo 850 dias depois

A sentença da IGAI decretou a Semedo 121 dias de suspensão, acrescidos pela descida à última classe de comportamento ("mau"), o que impede que seja promovido, mais perda de dois terços do vencimento e suplemento (durante este cerca de meio ano terá pouco mais de 400 euros mensais de salário), foi assinada pelo ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, a 31 de março passado - 850 dias depois de aberto o inquérito.

Nestes dois anos e meio, enquanto o guarda Cabecinhas patrulhava as sinuosas estradas transmontanas, o alferes João Semedo comandava em Sintra, primeiro como comandante do subdestacamento da GNR, depois como adjunto do comandante do destacamento, cargo que ocupa até agora.

A 5 de junho último o dispositivo foi informado, em ordem de serviço, que o castigo começara a ser executado nesse dia - 921 dias depois de instaurado o inquérito.

"O que este caso nos leva a concluir é que há dois pesos e duas medidas na GNR. Para uns, nas categorias inferiores, as punições são sempre muito rápidas, para outros, como oficiais, a justiça é mais lenta", assinala César Nogueira, o presidente da Associação de Profissionais da Guarda.

Este dirigente associativo está desde dezembro de 2018 constituído arguido em processo disciplinar em queixa-crime instaurados pelo comandante-geral da altura (Botelho Miguel) por ter comentado o caso, criticando a GNR por não ter informado a IGAI e o MP.

Nessa altura, em comunicado oficial, o ministério da Administração Interna salientou que, a confirmarem-se, os factos ocorridos na Escola da GNR, em Portalegre,"não são toleráveis numa força de segurança num Estado de Direito democrático".

Salvador Cabecinhas não voltou a ver João Semedo e, asseguram ainda as mesmas fontes, "acredita que a justiça tem o seu tempo, pode demorar, mas que será feita em sede própria, nos tribunais".

Sabe que o que aconteceu não foi um acidente. "Não há seis "acidentes" daqueles num treino", indignam-se as nossas fontes.

Sabe que o que aconteceu é uma exceção, que não é assim que atuam os oficiais da GNR, muito menos os instrutores. Ele e os camaradas daquele pelotão, principalmente os que ficaram feridos também, gostavam que não houvesse mais deste género de oficiais na GNR.

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