Se dúvidas houvesse, os dados lançados pelo Registo Oncológico Nacional (RON) há pouco mais de 15 dias vieram comprovar que a pandemia teve, de facto, impacto negativo na prestação de cuidados à doença oncológica, nomeadamente no que toca aos rastreios, diagnóstico precoce e tratamentos.. Segundo o relatório do RON, relativo ao ano de 2020, divulgado a 15 de janeiro, foram registados 52 723 novos casos de cancro, quando as estimativas apontavam para cerca de 60 a 65 mil, uma diferença de menos 15% a 24%, que deverá ter expressão nos dados relativos a 2021 e 2022, traduzindo mais morbilidade e mortalidade..Isto mesmo foi assumido pela diretora do RON, Maria José Bento, que se mostrou preocupada com os atrasos nos diagnósticos e nos tratamentos. Mas os dados referentes a estes dois últimos anos ainda não são conhecidos..O mesmo relatório não deixa dúvidas também quanto ao facto de o cancro ser a segunda causa de morte no país, responsável por mais de 28 mil mortes, 23% do total de 2020. .A boa notícia, e após o período da pandemia, em que a população, com o receio da covid-19 deixou para trás a realização de exames de diagnóstico ou descurou sintomas, não procurando o médico assistente, é que os rastreios aos três tipos de cancro (mama, colo do útero e colorretal), que se fazem em Portugal, estão a aumentar em termos de cobertura geográfica e populacional. .Mas, e como diz o diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, da Direção-Geral da Saúde, José Dinis, “ainda há muito a fazer para se homogeneizar as mesmas práticas a nível nacional e para se melhorar a adesão da população”..Rastreio é uma das prioridades da estratégia nacional.Os dados que hoje vão ser divulgados pela DGS, para assinalar a data de 4 de fevereiro, Dia Mundial do Cancro, revelam que o rastreio ao cancro da mama atingiu a taxa de cobertura mais elevada de sempre - ou, pelo menos, desde que há este programa: 100% de cobertura geográfica, com Unidades Funcionais no Continente e Ilhas, e 99% de cobertura populacional, “o que significa que ultrapassámos largamente a meta de 90% prevista no Plano Europeu de Combate ao Cancro que é de 90%”, sublinha José Dinis, que, reforça o seu apelo, “peço à população que adira aos rastreios, porque estes salvam vidas”. .Esta é uma das razões que levaram a que os rastreios aos três tipos de cancro sejam uma das prioridades da Estratégia Nacional de Combate ao Cancro, aprovada no final de dezembro, e que outros três sejam lançados nos próximos tempos, nomeadamente aos cancros do pulmão, do estômago e da próstata..José Dinis, que hoje irá divulgar os dados relativos aos rastreios no ano de 2022, destaca que graças a estes foi possível diagnosticar precocemente na zona Norte 409 cancros do cólon, reforçando que o objetivo é que tal seja possível em todo o país..“Conseguimos apurar na zona Norte, porque é aqui este rastreio é feito maioritariamente”, explica, acrescentando: “O rastreio do cólon é feito a partir de um exame pedido pelo médico de família para detetar sangue nas fezes, ora se há mais de um milhão de pessoas sem médico de família, e se estas estão, maioritariamente na região Sul, ora estas nunca serão rastreadas”..Daí que reforce a necessidade da criação de um “Núcleo Coordenador para os Rastreios, como ficou definido na estratégia, que avalie a capacidade instalada nas diferentes zonas do país, que avalie os obstáculos e que defina soluções para se percorrer o caminho que é preciso para se alcançar as metas europeias”..O médico destaca ainda que “Portugal tem grandes responsabilidades no que toca aos rastreios do colo do útero e do cólon, pois está longe de conseguir convocar 90% da população, que é o que a União Europeia pretende”. O objetivo final do caminho que tem vindo a ser feito nesta área “é reduzir a mortalidade por cancro em cerca de metade até 2030”. .Relativamente a 2022, os dados que hoje serão apresentados revelam que o rastreio do cancro do colo do útero tem uma cobertura geográfica de 100% nos AceS (Agrupamentos de Centros de Saúde) e em 91% das Unidades Funcionais de Portugal Continental, enquanto nas Regiões Autónomas, apenas os Açores o disponibilizaram à população. A cobertura populacional aumentou 13 pontos percentuais (64%) face a 2021 (51%), “mas ainda está longe dos 90% previstos na meta europeia para 2025”, refere o médico..Em relação ao rastreio do cancro do colorretal, a taxa de cobertura geográfica é de 100% nos AceS e de 89% nas Unidades Funcionais de Portugal Continental com programa implementado e de 100% na Região Autónoma dos Açores. “Nos últimos anos este rastreio foi o que mais evoluiu em termos de cobertura geográfica, mas a nível da cobertura populacional só aumentou ligeiramente (33%) face a 2021 (26%), o que ainda é muito pouco”, refere o diretor do programa. “Há unidades para realizarem o rastreio, mas depois as pessoas não são convocadas”, explica. .É preciso aumentar a adesão da população aos rastreios.Mas é isto que José Dinis diz que se pretende mudar com a criação do Núcleo Coordenador de Rastreios. “O nosso objetivo é que o doente tenha o mesmo acesso ao rastreio, ao diagnóstico e ao melhor tratamento quer esteja no Algarve, Braga, Porto ou Lisboa”, reforçando que o país tem de fazer o caminho da “homogenização dos rastreios”..Por outro lado, lembra, que a taxa de adesão as rastreio do cancro colorretal “foi apenas de 41%, o que representa uma diminuição significativa face a 2021 (51%). Não pode ser. É preciso mudar isto”. .Por isso mesmo, e quando lhe perguntamos se tem alguma mensagem a deixar para assinalar esta data, José Dinis refere que esta vai para a população. “É um apelo, para que adira aos rastreios, porque o combate à doença oncológica vive de um binómio, tempo e qualidade”..E para se fazer o caminho que irá levar o país a atingir as metas europeias em termos de mortalidade, é preciso ainda que as normas que definem os rastreios sejam atualizadas e adaptadas, defendendo mesmo a criação de “uma central”, tal como aconteceu durante a pandemia para a vacinação, que convoque toda a população elegível para os rastreios, não se deixando ninguém para trás. “Um dos grandes desafios deste programa é a equidade, não podemos deixar ninguém para trás”, diz ao DN. .O rastreio ao cancro em números.Portugal dispõe de três rastreios oncológicos de base populacional, nomeadamente para o cancro da mama, do colo do útero e do cólon e reto. Estes programas encontram-se em fases diferentes de aplicação, e com assimetrias na cobertura territorial e populacional. Cancro da mama. Em 2022, a população convocada para o rastreio atingiu os 98%. A taxa de adesão foi de 51%, com um total de mulheres rastreadas de 423 260. No continente, foram 398 517, 16 585 na Região dos Açores e 8158 na Região da Madeira. Das mulheres rastreadas, 1,6% tiveram um resultado positivo e 2997 foram referenciadas para cuidados hospitalares. .Cancro do colo do útero. A média da população elegível era de 553 661 mulheres/ano, a taxa de cobertura populacional foi de 64%, mas a taxa de adesão ao rastreio foi de 94%. Ou seja, foram rastreadas 330 859 mulheres, 321 889 no Continente e 8970 na Região dos Açores. Das mulheres rastreadas, 5% foram referenciadas para cuidados hospitalares. . Cancro do cólon e reto. Tem uma população elegível média de cerca de 1,5 milhões de utentes/ano, a taxa de cobertura populacional foi de 33%, e a taxa de adesão de 41%. Foram rastreados 206 754 utentes, 199 354 no Continente e 7400 na Região dos Açores. Dos utentes rastreados, 0,8% foram referenciados para cuidados hospitalares. .52 723 novos cancros em 2020. Estes são os últimos números divulgados recentemente. Destes, sobressai o cancro da mama com 7504 novos casos, o do colorretal com 6680, o da próstata com 5776 e o do pulmão com 4737..28 000 mortes por cancro em 2020. Este número representa 23% do total de óbitos da população. O mais mortífero é o cancro do pulmão com 15,4% do total das 28 mil mortes, segue-se o cancro colorretal que provocou 13,3% das mortes, o do estômago causou 7,9%, enquanto o cancro da mama foi o principal responsável pela mortalidade feminina.