Beatriz Lisboa tem 27 anos é licenciada em Estudos Gerais, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, apaixonada pela ecologia e pelas questões ambientais, e pela reflexão, pela Filosofia, que agora estuda no Centro Regional de Braga, da Universidade Católica Portuguesa (UCP). Assumindo que, se agora tivesse que se definir, depois de ter descoberto aos 16 anos que o seu caminho se cruzava com a Fé em Deus, diria que se sente "uma pecadora muito amada"..Da adolescência até agora, Beatriz passou pela conversão ecológica, saiu da cidade e foi para o campo trabalhar numa associação de matriz católica e ecológica, a Casa Velha, descobriu como a cultura de um povo é transformadora e até pode ser a solução para muitos dos problemas da realidade atual, mas é a primeira vez que vive uma Jornada Mundial da Juventude (JMJ), com a responsabilidade de, na manhã do 3 de agosto, num encontro com jovens, ter de falar ao Papa Francisco sobre a sua caminhada e como olha para o futuro..Tomás Virtuoso está nos 29 anos e não se lembra sequer de viver fora da Fé. Nasceu e cresceu no seio de "uma família católica, praticante e militante", como diz. É o mais velho de três irmãos e já vivenciou três jornadas antes de chegar aqui, Madrid (2011), Cracóvia (2016) e Panamá (2019). Esta será a quarta que acompanha, como estudante da UCP e com a responsabilidade de entregar ao Papa um "Manifesto dos Jovens"", que é sobretudo um compromisso para o futuro, e numa fase diferente da vida, já na caminhada para o sacerdócio e pelo "amor maior da sua vida, que é a entrega a Cristo"..As apresentações estão feitas, mas a vida de um e de outro tem muito mais para contar. Mesmo assim, um e outro, confessaram ao DN terem ficado surpresos quando a universidade os convidou para participarem, e desta forma, no encontro que o Papa ai ter com estudantes da Católica. Um convite que para ambos "é uma grande responsabilidade", mas também mais uma missão no caminho de cada um para os outros..Beatriz vai representar o Centro Regional de Braga da UCP. Tomás o centro de Lisboa, mas ao lado deles vão estar Mariana Craveiro, do Centro Regional do Porto, e Mahoor Kaffashiam, estudante iraniana que frequenta a UCP ao abrigo do Fundo Social Papa Francisco, criado no ano em que a universidade completou 50 anos, como forma de resposta ao acolhimento de refugiados e receber estudantes..Os quatro têm uma história a contar, pelo seu percurso de estudante e existencial, como crentes, como cidadãos e ativistas, ou junto de organizações ecológicas e ambientalistas, ou no Movimento Economia de Francisco ou na ação social, junto dos refugiados, e o DN conta aqui as de Beatriz e Tomás, com revelações sobre o futuro e as expectativas da JMJ 2023 que vão viver no próprio país..Quando contactamos Beatriz para sabermos se podemos falar sobre o que vai contar ao Papa Francisco, não recebemos qualquer entrave, apenas um pedido: "Pode enviar-me por msg o que quer só para eu me orientar e não deixar nada de importante de fora do meu discurso, por favor". Pedido feito e aceite. Beatriz dava o primeiro sinal de ser alguém metódico, organizado e gestor de um tempo precioso, nesta fase de organização da JMJ. Assim que a conversa começa percebe-se que o tempo é pouco para contar tudo o que já viveu, que vive e o que espera fazer no futuro, mas a síntese é de alguém que "celebra a vida" e que tem "esperança" num futuro melhor..E como ela própria conta, tudo começou com o batismo ainda bebé, e só por ter recebido esta consagração agradece aos pais, aos avós e bisavós, que, na altura, assim o entenderam, embora, não fossem uma família praticante. "Culturalmente a minha era católica, os valores que transmitiam não estavam longe dos valores cristãos, mas além do batismo que recebi em bebé não tive propriamente uma educação católica, nunca fui à catequese, por exemplo", assumindo que até aos 16 anos nunca teve qualquer prática religiosa.."Diria que espiritualmente e interiormente já tinha feito algum trabalho, sobretudo através da reflexão, mas só aos 16 anos e através de um movimento de reaproximação da minha mãe à Igreja é que começo a ir à missa, e é ao escutar as leituras, que me falavam de uma lei, que identifiquei a minha Fé e a verdade de que tanto andava à procura, a lei que é amor e que vem de Jesus, que é Deus"..É aqui que começa a olhar para trás e a reconhecer que, afinal, "Deus já tinha um papel na minha vida, não como uma imposição, mas claramente como trabalho na minha maturidade, mesmo que não tivesse dado o nome de Deus à realidade que conhecia, pelo bem, que é o que me dava e dá sentido e paz na vida. Portanto, já havia uma relação com Deus que se estava a desenrolar, embora não o entendesse dessa forma. Depois disto, tenho feito o meu processo, gradual, mas de desenvolvimento da fé e de integração na Igreja, tornando-me uma filha de Deus"..Neste percurso, Beatriz destaca "três coisas muito importantes que me despertaram na minha caminhada para a Fé, uma delas, e se calhar por feitio, um sentido muito grande de reflexão e de introspeção, de pensar sobre as coisas e de procurar a sua lógica, associado a um desejo pela busca pela verdade. Talvez por isso esteja a agora a fazer a licenciatura em Filosofia", decisão que diz ter tomado depois de ter estado dois anos a trabalhar na Casa Velha..Olhando para trás, percebe que tudo teve está interligado, desde os dois anos em que se dedicou só à dança, depois de completar o 12.º ano, até à licenciatura em Estudos Gerais, que a levou ao trabalho para fora da grande cidade onde vivia, Lisboa, até Ourém e à associação Casa Velha, até agora à Filosofia, em Braga, na UCP. Porque foi tudo isto que veio mudar a sua vida, dando-lhe "um grande sentido, aquele que nos diz que a vida não é em vão, que o próprio sofrimento não o é, e que há sempre um propósito. Isto foi a confirmação de que não estava só, abandonada ou órfã, porque descobri que existe Deus, que Ele é pai, e isso faz toda a diferença, porque se traduziu na minha prática como uma grande vontade e desejo de alimentar essa relação, que passa por ir à missa, por rezar e por estar atenta aos outros"..É isto que quer dizer ao Papa Francisco. Quer dizer que não sabe como vai ser "a vida no futuro, mas sei que vai ter muito a ver com a caminhada até aqui", pela conversão a Deus e a Cristo, mas também pela conversão à ecologia..Os dois anos na Casa Velha aumentaram as descobertas e já a levaram como ativista a participar, juntamente com outros, em debates e documentários, confessando que esta conversão "foi também uma opção", porque há muito que "sabia que gostaria de ter uma experiência de retirada para o campo, para um local onde pudesse ter a minha horta e estar mais próxima das pessoas", e quando chegou a altura decidiu fazê-lo. "Foi uma decisão bastante rezada e discernida"..De setembro de 2020 até junho de 2022, viveu em Ourém, na Casa Velha, em setembro do ano passado rumou a Braga, para o curso de Filosofia, que queria que fosse numa universidade com um programa em que a Filosofia "não se faz nem se pensa em oposição à tradição. Sabia que, ali, iria receber as bases de que estava à procura". Beatriz, embora nunca tenha feito parte do núcleo duro de alguns movimentos, associou o seu percurso aos que trabalham as encíclicas Laudato Si, muito virada para o ambiente, para o cuidado da criação, e Fratelli Tutti, virada para uma economia sustentada, para "A Economia de Francisco". Precisamente porque "me identifico com todo o trabalho que fazem, que estou a trabalhar para a mesma causa a partir de outros lugares e de outra perspetiva"..Sobre o facto de ter sido uma das escolhidas pela UCP, Beatriz confessa: "Fui apanhada de surpresa, sobretudo por que me foi pedido que transmitisse como é que procuro concretizar as minhas preocupações sociais, económicas e ambientais na minha vida". Sentiu que não seria fácil, mas é uma missão e espera que pelo seu testemunho possa "dar voz a outros jovens. Sinto que não vou falar só por mim, vou falar como membro da igreja e o que vou fazer, em primeiro lugar, é agradecer ao Papa Francisco pelo trabalho que tem feito pela Igreja, pelo mundo e pelo confiança que deposita nos mais jovens"..Depois, vai falar de "cultura, num sentido muito lato e vivida numa escala experimental, como vivi na Casa Velha, que é a cultura da aldeia, das pessoas, da terra e dos cantares como reposta aos problemas atuais das sociedades", e de como este tipo de cultura pode ser o lugar propício para a resolução de problemas ambientais, económicos e sociais"..Beatriz explica que através desta cultura descobriu o papel fundamental da "proporção", aquela que nos faz sentir mais próximos uns dos outros, de pertença a um lugar e do trabalhar em conjunto com alegria, estando atentos aos percursos de cada um. Foi muito isto que fui experimentando na Casa de Velha e que acho que é um caminho para uma solução". Nunca esteve numa JMJ, portanto, diz, "é-me difícil dar-lhe um significado", mas uma coisa espera, que "seja sobretudo uma celebração da vida" e "um grande exemplo para os jovens como construtores do futuro"..Não é a primeira vez que Tomás fala com o DN. Em janeiro de 2019, onde esteve mais de um mês, para viver a jornada por dentro, pela organização e para ver como se fazia, enquanto esperava que o Papa anunciasse Lisboa como o próximo destino, atendeu o telefone para contar a sua experiência. Desta vez, quando atendeu o telefone foi para dar uma novidade: "Continuo a ser estudante da Católica, estou a fazer Teologia e decidi entrar para o seminário"..Uma decisão que diz ter tomado quando estava feliz com a vida que tinha, e pela vida que tinha e que quer. Tomás é o mais velho de três irmãos de uma família católica, "a Fé é uma coisa do berço, nunca me conheci sem fé. A minha família sempre acompanhou muito a vida da igreja, mas o meu percurso também foi muito marcado por um tio avô, ainda vivo e a trabalhar em pleno, que é padre"..Confessa que a decisão de entrar no seminário foi tomada pouco antes de a pandemia explodir no mundo, em fevereiro de 2020, mas que a JMJ do Panamá foi crucial para nesta opção..Tomás licenciou-se em Economia na Católica, fez ali mestrado em Economia Política, uma área que sempre o apaixonou e onde trabalhou ano e meio a fazer consultoria pública, depois voltou à Católica para estudar Teologia. Por isso, acredita, que este seu percurso teve peso no convite que lhe foi dirigido para contar a sua história ao Papa, com a responsabilidade acrescida de lhe entregar um manifesto dos jovens..Ficou surpreso, "não esperava", porque, diz mesmo, "não me sinto capaz de ter palavras inteligentes para dizer ao Papa", mas já decidiu: "Não vou teorizar. Vou falar da minha vida e do que mudou por causa das JMJ que vivi. Às jornadas, devo o amor maior da minha vida, que é Jesus, e a minha grande alegria de viver, que é um dia poder entregar-lhe a minha vida"..Em miúdo, começou logo a fazer parte da Paróquia de Carcavelos, depois andou nos escuteiros e, mais tarde, foi para o Colégio Militar, o que o marcou também, embora assuma que o mais marcante foi a entrada para "o movimento Equipas de Nossa Senhora, um movimento de jovens católicos que está espalhado pelo mundo, mas que tem grande presença em Portugal. Isto foi determinante na minha Fé, porque foi aqui que fiz as experiencias mais decisivas do ponto de vista do crescimento na Fé e onde começou a surgir a questão vocacional para o sacerdócio de uma forma mais clara"..Mas ao falar desta JMJ, no seu país, faz notar que será a quarta em que está presente, tendo todas as outras sido "muito importantes na minha vida de fé, mas vividas sempre de forma muito diferente"..Em 2011, esteve em Madrid. "Tinha 17 anos, era menor, nem podia andar sozinho, mas foi uma jornada absolutamente marcante. Foi a minha grande experiência da presença de Jesus na minha vida", recordando o momento da vigília, debaixo de chuva e trovoada torrenciais, que lhe deram "a certeza profunda que era tão certo estar ali como Jesus existir e estar a dizer-me algo para a minha vida. Foi o primeiro grande momento em que tive a certeza que queria fazer um caminho de amizade com Deus"..Em 2013, "não tinha dinheiro para ir ao Rio de Janeiro", mas, em 2016, "fui a Cracóvia com um grupo de 300 jovens das Equipas de Nossa Senhora, para ajudar na organização. Foi completamente diferente, no sentido em que foi uma jornada menos vivida no seu típico, mas mais vivida pela organização e por poder permitir uma experiência bonita aos outros". Por fim, chegou a JMJ do Panamá, em 2019, que "foi absolutamente decisiva. Fui para lá um mês antes de a jornada começar com outros cinco jovens portugueses, a pedido da Igreja e com alguns padres para trabalharmos como voluntários, e para percebermos como é que uma jornada se punha de pé. Foi a JMJ que vive muito interiormente, do ponto de vista pessoal e como serviço à Igreja"..A entrada para o seminário surge a seguir, embora já tivesse colocado essa possibilidade antes", precisamente quando fazia um percurso profissional que lhe "enchia as medidas"..Ou seja, "a minha experiência de ir para o seminário não é a de uma pessoa que está infeliz na vida e vai à procura de outro lugar, encontrando algo no sacerdócio, o que acontece muito e temos grandes padres com este caminho. A mim Nosso Senhor apanha-me o coração numa fase da vida em que estou extremamente feliz, envolvido nas equipas de jovens e na JMJ, e tomo a decisão interior de entrar para o seminário poucas semanas antes da pandemia. Há um tempo em que a decisão fica comigo e com o padre que me acompanhava, depois falo com os padres do seminário para oficializar a minha entrada e só depois contei à família e às pessoas mais chegadas, recebi reações de grande diversidade, mas sobretudo de grande felicidade"..É este o percurso que vai contar ao Papa Francisco, em versão "mini-discurso e com o que me parece importante". E para o fazer pareceu-lhe importante voltar ao contacto com a encíclica Laudato Si, "voltar a lê-la integralmente, a rezá-la e a interpretá-la para ver o que dizia da minha vida, e retirei três coisas em dimensões diferentes: uma como é que a própria Universidade Católica me tinha ajudado a viver a Laudato Si ao longo do meu percurso estudantil, outra que desafios pessoais e à minha geração é que lançava a Laudato Si e que critérios e olhar para o futuro lançava à humanidade". Será este o foco das suas palavras ao Papa, até para lhe dizer que "já se fizeram imensas coisas a partir da Laudato Si"..Mas há outra dimensão que agora retira deste regresso à Laudato Si, "uma dimensão antropológica e teológica", percebendo como esta "nos ajuda a olhar para o Homem de uma forma diferente do que temos olhado e para os bens naturais, como a água e as florestas, no sentido em que se olha para o que Deus cria como um fim e não como um meio que se pode deitar fora"..Por tudo isto espera que a JMJ 2023 seja "um tempo de encontro da diversidade que existe no mundo e que cada jovem que a está a viver seja tocado pela experiência que faço todos os dias, que é descobrir em Jesus a alegria maior para as suas vidas".