A realidade é preocupante, sobretudo quando se sabe que estudos realizados pelos próprios hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) indicam haver “30% a 50% de doentes internados que apresentam risco nutricional”. Isto mesmo é assumido ao DN pelo presidente da Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica (APNEP), Aníbal Marinho, uma das sociedades científicas que subscreve o documento com “10 Recomendações para a Nutrição Clínica”, que será divulgado esta quarta-feira, dia 5, no Fórum Estratégico de Nutrição Clínica, em Lisboa. Segundo o médico, estamos perante “um documento que é o primeiro plano estratégico concertado nutricional, que tem como objetivo sensibilizar políticos, governantes, profissionais e a sociedade em geral para o problema da nutrição clínica - ou melhor, da malnutrição”. Um documento que, além da APNEP, conta ainda com a subscrição e apoio da Sociedade Portuguesa de Oncologia, Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, Sociedade Portuguesa de Endocrinologia Diabetes e Metabolismo, Sociedade Portuguesa de Pediatria e Associação Nacional de Farmácias. Ao todo, seis entidades que mostram assim haver "uma convergência concertada no setor" com esta preocupação. Mas há uma razão de ser para o aparecimento deste documento agora. É que faz precisamente um ano que se atingiu uma das grandes conquistas nesta área, que foi a Portaria n.º 82/2025/1, publicada no Diário da República, 4 de março de 2025, e na qual está definida a comparticipação da nutrição entérica. Só que a divulgação do documento nesta altura também pretende alertar para um facto: “Uma coisa é o que se conquista na legislação, outra é o que se consegue no terreno”, dizem-nos. Isto porque, a primeira avaliação feita pelas seis entidades que subscrevem este documento sobre esta portaria concluiu, precisamente, que “o reconhecimento regulatório foi relevante, mas que a integração transversal da Nutrição Clínica no SNS permanece incompleta”. Rastreio nutricional ainda não se faz em todos os hospitaisDe acordo com esta avaliação, nas instituições do SNS ainda persistem barreiras “estruturais”, que não permitem combater “o risco de malnutrição em doentes internados”. E estas são: “Rastreio do risco nutricional, que não está consolidado de forma uniforme nos hospitais, nos cuidados de saúde primários e cuidados continuados”. O facto de “a Medicina Geral e Familiar ainda não estar plenamente integrada como eixo estruturante da identificação precoce deste risco” e ainda haver outras áreas clínicas, “como a Neurologia, que incluem doentes com patologias neurodegenerativas, frequentemente dependentes de suporte nutricional, como a ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), que ainda não foram explicitamente contempladas no desenho inicial da portaria”. .Três em cada dez portugueses sofrem de malnutrição, a maioria idosos. Tudo isto faz com que Aníbal Marinho destaque ao DN que o objetivo do plano estratégico que agora lançam “tem de ser o de mostrar às pessoas que existe um problema e que temos de o combater, porque, na verdade, não é um problema que seja só a APNEP ou das outras associações que subscrevem a iniciativa, é um problema do governo e da própria sociedade”. O médico relembra que desde 2016 que as iniciativas na área da nutrição clínica têm sido sucessivas, reivindicando até algumas conquistas. “Em 2016, entrámos num projeto europeu chamado ONCA sobre nutrição adequada para todos. Quando ia às televisões falar do assunto chegaram a dizer-me: ‘Vamos falar de malnutrição em África?’. Eu tinha de dizer que ia falar de malnutrição em Portugal, nomeadamente em hospitais, lares e até em casa, porque o risco de termos uma pessoa malnutrida é muito grande”. O presidente da APNEP recorda também que “a falta de literacia nesta área era muito grande, não só na sociedade mas junto dos próprios profissionais”, mas que tal tem vindo a mudar, mas ainda não chega. Na altura, “não tínhamos rastreios nutricionais nos hospitais, portanto não se conseguia identificar a situação nos doentes e isto era uma realidade que depois passava para o tratamento no ambulatório” - agora, tais rastreios são obrigatórios, mas segundo a avaliação feita ainda não estão implementados em todas as unidades. Mas a partir daqui decidiram ir à Assembleia da República e ao Poder Local, autarquias, para que políticos e governantes soubessem o que era a malnutrição. Depois, e no âmbito das unidades do SNS, chegaram aos administradores hospitalares e desde aqui que continuam um processo de sensibilização que consideram fundamental. Aníbal Marinho reconhece que “já conseguiram também que fosse aprovado há um ano a portaria que comparticipa a nutrição entérica nas unidades do SNS, mas há que fazer mais”. Isto porque, “a malnutrição associa-se a maior duração de internamentos, aumento de complicações infecciosas e maior probabilidade de reinternamento” e “não existe uma publicação anual sistemática de dados nacionais que permitam medir o impacto real da malnutrição no SNS.”Para o médico intensivista, a iniciativa que agora estas seis entidades lançam é mais uma para levar a sociedade a pensar no problema, até porque dá como exemplo a toma de posições científicas importantes que não chegam ao conhecimento da população em geral, nomeadamente um documentos assinado recentemente por “sociedades científicas europeias, norte-americanas e da América do Sul em que é afirmado que a malnutrição ou nutrição inadequada é um direito humano, mas do qual ninguém tem conhecimento. E o que pretendemos com este plano estratégico é precisamente alertar para os problemas que existem e trazê-los para fora das sociedades científicas”. As dez recomendações estratégicas para 2026-2028 Neste sentido, foram definidas dez recomendações que vão desde o “alargamento do rastreio sistemático do risco nutricional, a nível hospitalar, nos cuidados de saúde primários e cuidados continuados integrados, através da implementação do Despacho n.º 9984/2023” até à “monitorização dos resultados clínicos e económicos, através da medição dos indicadores definidos no Despacho n.º 9984/2023 (rastreio nutricional)”. Mas não só. De acordo com o documento é ainda “preciso integrar o rastreio nutricional como um indicador de monitorização nos cuidados de saúde primários”, como “publicar anualmente a prevalência do risco nutricional nos cuidados hospitalares, cuidados de saúde primários e cuidados continuados integrados”. É preciso ainda “garantir formação contínua, para as diferentes equipas multidisciplinares hospitalares, de cuidados de saúde primários e cuidados continuados integrados, nos pressupostos da gestão da malnutrição associada à doença”. A terceira recomendação visa “otimizar os cuidados nutricionais hospitalares e garantir a continuidade das terapêuticas nutricionais no ambulatório/domicílio”, além de se “expandir a acessibilidade, no ambulatório/domicílio, aos dispositivos médicos, obrigatórios à administração de nutrição entérica por sonda, e aos suplementos nutricionais orais, que constituem a primeira linha terapêutica na gestão da malnutrição, pela aplicação da Norma Organizacional DGS 017/2020”. .Dia Mundial da Alimentação: Idosos são os mais afectados por malnutrição - estudo. A bem dos doentes, as entidades que subscrevem o documento, defendem que se deve “garantir que a administração da nutrição parentérica possa ser realizada fora do âmbito do internamento hospitalar/hospitalização domiciliária, e criar centros de referência hospitalares para o acompanhamento individualizado destes doentes”. O papel das farmácias comunitárias deve ser “reforçado no rastreio do risco nutricional e no acompanhamento e monitorização da adesão às terapêuticas nutricionais”, devendo-se “promover a literacia em saúde, através de campanhas nacionais dedicadas à malnutrição e à importância das terapêuticas nutricionais nos resultados clínicos e económicos”. Como diz Aníbal Marinho, “a nutrição Clínica constitui um eixo determinante para a qualidade dos cuidados e resultados em saúde, com impacto direto na evolução clínica e na eficiência do sistema de saúde”.