Quantas Páscoas há no país? Muitas. Em tradições de Norte a Sul

Da via-sacra à Pascoela. De Idanha-a-Nova a Tavira. Nem parece o mesmo povo. Tudo é diferente, até o dia grande dos festejos.

De norte a sul há tradições muito próprias de celebrar a Páscoa. Os rituais - e até os dias dos festejos - são tão distintos que nem parece o mesmo país. Cada região olha com orgulho para as suas tradições e até há quem as queira elevar a Património Cultural da Humanidade da UNESCO. É o caso do desertificado concelho de Idanha-a-Nova - que guarda Monsanto, a aldeia mais antiga de Portugal - que prepara a candidatura da representação cénica de Maria Madalena.

E qual é o segredo de Idanha? "É tudo feito pelo povo, ninguém ensaia nada. E é verdade que muitos dos filhos da terra que estão fora regressam nesta altura, para assistir e até participar nalgumas das atividades", conta ao DN Alexandre Gaspar, o coordenador do Fórum Cultural e Centro de Artes Tradicionais do município de Idanha. Por estes dias da Semana Santa, não há mãos a medir naquele concelho do distrito de Castelo Branco.

A candidatura será apresentada em breve, com o apoio de Paulo Lima - que já deu suporte às candidaturas do fado e do cante alentejano -, e tudo acontece por ali a partir das 20.30 de amanhã, quando são esperados milhares de pessoas. O serão começa com a representação cénica de Maria Madalena, personagem bíblica muito acarinhada em Idanha. No coração da aldeia, uma rapariga vestida de preto enverga um xale vermelho aos ombros, flores no cabelo a condizer. Ao lado, no púlpito, um padre faz a pregação. É quando ela tira as rosas do cabelo, atira o xale para o chão e corre para os pés de Jesus, em sinal de arrependimento. "É um momento muito forte", sublinha Alexandre Gaspar, acrescentando outros que fazem parte de toda a representação cénica de amanhã: os santos passos, em Penha Garcia, uma procissão protagonizada por um grupo de mulheres descalças; o canto de Verónica e o enterro do Senhor.

Em Idanha moram cerca de 9700 pessoas, mas a população multiplica-se por esta altura. "Por outro lado, temos muitos visitantes que vêm assistir a estas festividades, nomeadamente espanhóis", sublinha Alexandre Gaspar.

Via sacra em Ourém e Ansião

Se há um momento no concelho de Ourém em que o protagonismo da sede de concelho se sobrepõe à mediática freguesia de Fátima, é este, agendado para amanhã à tarde: a via-sacra que percorre o interior da vila medieval de Ourém. O presidente da câmara não gosta de embarcar "nesse tipo de competições", até porque acredita que "o que é bom para um, é bom para todos". Paulo Fonseca diz que o momento significa "o cumprimento de uma tradição que já está hoje consolidada na vida cultural do concelho. Na vila medieval de Ourém, este é um momento de atração turística em que somos visitados por milhares de pessoas. Temos um orgulho coletivo na sua realização". Os figurantes são populares e o pontapé de saída desse momento acontece logo em janeiro, "num jantar em que organizamos todo o evento". O autarca reconhece, no entanto, que aquele é "um dos momentos de visibilidade para a vila medieval de Ourém, que merece e justifica mais do que tem", aquele que foi o condado de D. Nuno Álvares Pereira. Agendada para as 15.00, a via-sacra é o culminar de todo o programa da Semana Santa. Esta recriação pascal começou a ser encenada em 1999 e tem vindo a ganhar dimensão graças ao ambiente pitoresco, mas também devido aos figurinos realistas e às interpretações bem conseguidas de vários dos seus elementos.

Não muito longe, em Pousaflores, uma freguesia do concelho de Ansião, do vizinho distrito de Leiria, há um evento similar que cresce de ano para ano. A iniciativa pertence à Associação Cultural de Pousaflores (ACREP), que desde 2015 transformou aquele momento de forte carga religiosa e emocional num fenómeno mais abrangente, para o que contribuem mais de 70 figurantes e que se inicia, às 10.00, junto à igreja de Pousaflores. O trajeto recria as 14 estações do Caminho de Jesus até à crucificação, que acontece junto à Ermida do Anjo da Guarda, já no alto da serra da Portela.

No Algarve, em Tavira, a semana é vivida de forma intensa, mas é a procissão do enterro do senhor, na Sexta-Feira Santa, que mobiliza milhares de pessoas. "É uma procissão de grande solenidade, porque é à noite, sai da Igreja da Misericórdia e percorre as ruas da Baixa da cidade, com milhares de pessoas a assistir, com as luzes das ruas apagadas", conta ao DN Jorge Botelho, presidente da Câmara de Tavira. Naquela cidade - onde há 21 igrejas só no centro histórico - o momento desperta sempre grande interesse, a partir das 21.00. Paralelamente, há um programa cultural que acompanha estas celebrações, com destaque para o concerto de Páscoa, domingo, às 18.00, com cantores líricos do Teatro Nacional de São Carlos.

Os piqueniques de segunda-feira

As festas de São Gregório e Santa Bárbara dominam a segunda-feira de Páscoa em Borba, no Alentejo. Há um misto de ritos pagãos com a cristianização dos festejos, que nos últimos anos se fazem sentir ao longo de toda a semana: os jovens acampam na mítica aldeia de São Gregório, em plena serra da Ossa, há música e animação que antecede a procissão de segunda-feira, feriado municipal, quando a população mantém o costume de ir para o campo "comer o borrego assado ou ensopado", disse ao DN fonte da Câmara Municipal de Borba.

Além deste exemplo alentejano, também no litoral minhoto a segunda-feira de Páscoa é dedicada ao convívio nos campos, em forma de piquenique, como acontece em Vila do Conde, Esposende e Póvoa de Varzim. De resto, naquela região muitas empresas optam por se manter em funcionamento na sexta-feira, feriado oficial, folgando na segunda-feira, também conhecida naquela zona como Dia do Anjo. Já em Trás-os-Montes é a Pascoela que ganha peso (no domingo seguinte à Páscoa), com as visitas do pároco a casa dos fiéis. Por toda a parte, muitas regiões mantêm a tradição do folar, seja em forma de bolo ou de outra dádiva dos padrinhos aos afilhados.

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