"Quando aqui estou, esqueço-me de tudo"

O cansaço é muito mas a maior inimiga dos peregrinos ontem era a chuva. Apesar disso, muitos estão acampados, outros dormem nos carros. O mais importante é a devoção a Nossa Senhora. A grande enchente será hoje, com a chegada de Francisco

A mesa ainda está posta. O almoço foi arroz de cabidela. Cozinhado num fogão de campanha por Maria Bonança. Na noite anterior o jantar tinha sido caldeirada, para a noite de ontem o plano era fazer pataniscas. "Trazemos tudo, panelas, comida, e o que nos falta vamos comprar ao supermercado", explica a cozinheira do grupo. À volta da mesa, sentam-se 12 pessoas, das quais apenas dois são homens. Vieram de Vila do Conde e Póvoa de Varzim numa viagem organizada por Maria de Fátima, este ano como no ano passado, tal como costuma ser todos os 13 de maio "há muitos anos", tantos que ninguém sabe dizer exatamente quantos. "Este ano está cá o Papa mas se não estivesse a gente vinha à mesma."

A mesa está no centro do acampamento. Em volta dela ficam as tendas de todas as cores, cobertas por oleados, presas por cordas. O acampamento está montado num terreno baldio, à saída do Santuário: "Ficamos sempre no Parque 11 mas este ano, por razões de segurança, não nos deixaram ficar lá. Muitos peregrinos foram para o campo de futebol mas é muito longe. Nós conseguimos este lugar aqui, foi uma sorte", explica Maria de Fátima. Mesmo sem eletricidade nem água corrente, sem casas de banho por perto ("mas nós trazemos sempre uns baldes, já estamos habituados"), o grupo diz que teve sorte. Tem o autocarro estacionado mesmo ali ao lado, para dar apoio. E já fizeram amizade com os donos de uma das casas, o que lhes permite ir buscar água.

"Não é muito confortável mas não faz mal, vale a pena", diz a organizadora. O grupo é composto sobretudo por mulheres, todas com mais de 40 anos, algumas muito mais velhas. Como Deolinda, que tem 83 anos, e já vem a Fátima há seguramente mais de 40 anos. Ou Maria Madalena, que tem ao pescoço uma medalha com a imagem de João Paulo II: "A Nossa Senhora dá-nos sempre coragem para continuar, apesar de todas as dificuldades. Ela é que intercede por nós junto de Jesus." E, depois, para além da oração, há a amizade e toda a alegria em estarem juntos: "Somos como uma família."

Enquanto se descascam maçãs e laranjas para a sobremesa começa a chover torrencialmente. Maria de Fátima ajeita os oleados que cobrem as tendas. Dá a volta ao acampamento para garantir que os fechos estão corridos e que não se molham os sacos-cama. "Choveu toda a noite e fez muito vento. Mas sobrevivemos." Hoje há de chegar o resto do grupo, que veio a pé, e juntos irão rezar: "Ficamos cansadas mas a cabeça fica muito leve, saímos daqui como novas", diz Deolinda. E levanta-se. É tempo de lavar a loiça nos alguidares.

Tudo a postos

Quinta-feira é um dia ainda relativamente tranquilo no Santuário de Fátima. No seu briefing ao final do dia, o major Bruno Marques, da GNR, garante que apesar de "um ligeiro aumento no trânsito" ainda se circula fluentemente na Cova da Iria. "A maioria dos peregrinos vai chegar amanhã [hoje]", diz, aconselhando todos os que trazem os seus veículos a deixá-los nos parques de estacionamento antes da entrada na cidade.

Quinta-feira à tarde ainda há quem esteja a montar o seu acampamento. Descarregam-se sacos da camioneta, ouvem-se os martelos a bater nas estacas. A família Gomes tem quatro tendas montadas numa roda, um oleado cobre a pequena praça central, que, quando tudo estiver pronto, será como uma sala de estar. Numa das cordas já está pendurado um cachecol do Espinhense, o clube da sua terra. São 12 pessoas, entre elas três crianças: o Rodrigo, de 6 anos, o Paulo, de 4 anos, e o Tomás, de apenas 3 meses, que vem pela primeira vez a Fátima e está a beber o seu leite ao colo da avó Margarida.

Enquanto os crescidos arrumam "a casa", protestando por causa da chuva que deixou tudo molhado, as crianças entretêm-se com uma bola ou a brincar com setas. Mariana Gomes, filha de Margarida, lamenta que este ano esteja tudo um pouco mais confuso: "Tenho 34 anos e desde sempre que me lembro de vir a 13 de maio. É a nossa fé. É uma coisa que temos de fazer. Os outros só vêm este ano por causa do Papa, nós vimos sempre."

Na enorme tenda amarela do INEM montada numa das entradas do santuário já está tudo a postos. A Dra. Teresa Brandão garante que estão prontos para "resolver todas as situações" e "no caso de ser necessário estabilizar os doentes antes de os levar o hospital de campanha que fica a três quilómetros". A estrutura vai funcionar 24 horas por dia, com oito pessoas permanentemente. "Por agora está tudo calmo", garante a médica.

Os grupos de peregrinos entram no recinto a cantar, facilmente identificados pelas cores das blusas ou pelas bandeiras que transportam. Famílias param para tirar uma selfie com a igreja ao fundo. Grupos mais pequenos visitam o local como que fazendo turismo. Apesar dos apelos dos responsáveis para que as pessoas tentem manter o silêncio e respeitar os locais sagrados, os telemóveis estão sempre presentes, mesmo junto à Capelinha das Aparições.

Isabel Ribeiro, de 55 anos, que veio de Vila Nova de Gaia com o marido, já garantiu o seu lugar junto à grade, o mais perto possível do altar e o mais perto possível do Papa Francisco. "Venho todos os anos há 15 anos", diz. "Sou uma grande devota de Nossa Senhora, ela ouve-me e já me salvou de dois AVC." Isabel chegou na sexta-feira e vai ficar até sábado à tarde, ora sentada no seu banquinho, ora a dormir no carro. Nem a chuva, que tem caído em grande quantidade em Fátima, a demove. "A chuva não me incomoda. Nem a chuva, nem o sol, nem o frio. Quando aqui estou, esqueço-me tudo."

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