A presidente do Tribunal de Contas (TdC) considerou esta terça-feira, 24 de fevereiro, que a transparência "pode paradoxalmente tornar-se matéria-prima para a desinformação", alertando para riscos como a instrumentalização política da informação.Filipa Urbano Calvão apontou que fatores como a desigualdade no acesso à educação, nos níveis de literacia económica e financeira, a complexidade técnica de muitos domínios da política pública e os incentivos das plataformas digitais "criam um terreno fértil para leituras distorcidas", numa intervenção na conferência “Transparência orçamental em tempos de desinformação: o papel das Instituições Orçamentais Independentes (IFI)”, promovida pelo Conselho das Finanças Públicas (CFP), em Lisboa.A responsável identificou riscos como a "simplificação abusiva de dados orçamentais", que retirados de um quadro mais amplo podem sustentar conclusões erradas, bem como a "instrumentalização política da informação transparente"."Dados e indicadores corretos podem ser utilizados para sustentar narrativas que apoiam e narrativas que contestam regras orçamentais, que fundamentam ou que minam reformas estruturais, que suportam ou que questionam princípios de sustentabilidade, omitindo deliberadamente os pressupostos técnicos subjacentes", advertiu a presidente do TdC.Neste contexto, defendeu a importância do papel das instituições como o CFP e o TdC, bem como a responsabilidade para que as mensagens sejam "compreendidas, reconhecidas e valorizadas por cidadãos".Entre as medidas que poderão contribuir para esta dinâmica e a confiança dos cidadãos, Filipa Urbano Calvão destacou a promoção da literacia financeira nas escolas, o reforço da presença em canais digitais, a interação proactiva com os órgãos de comunicação social e a explicitação acessível das análises produzidas.