"Precisamos da ajuda de todos, os ucranianos querem vir para Portugal e é muito difícil"

Os imigrantes ucranianos desdobram-se entre os pedidos de ajuda de familiares e as ofertas de apoio. A dificuldade é perceber quem conseguirá fugir da Ucrânia e chegar a Portugal.

Os 40 mil ucranianos que vivem em Portugal, dos quais um em quarto também tem a nacionalidade portuguesa, desdobram-se entre os pedidos de ajuda de familiares e as ofertas de apoio em Portugal. O principal problema é perceber quem conseguirá fugir da Ucrânia, maioritariamente as mulheres, as crianças e os doentes. Os homens entre os 18 e 60 anos são obrigados a ficar para lutar pelo país, mesmo os que também têm a dupla nacionalidade.

"Está muito complicado, muito difícil, as pessoas não conseguem fugir. São mulheres, crianças, doentes, quem está completamente desprotegido. Precisamos de muita ajuda, precisamos da ajuda de todos, são muitos os ucranianos que querem vir para Portugal e está a ser muito difícil. Precisam de casa, de apoio médico, de conselhos jurídicos". É o pedido angustiante de Olga Garasmsku, vice-presidente da Associação de Ucranianos em Portugal.

Essa ajuda tem surgido de todos os lados, não só através de donativos para contas bancárias como da disponibilização de meios dos organismos oficiais, organizações não governamentais e associações profissionais, nomeadamente psicólogos.

"Temos muitas famílias que se disponibilizaram para nos ajudar com bens, roupas e casas para acolherem essas famílias", acrescenta a dirigente associativa. Entre os possíveis contactos para os donativos, há a página da associação (spilka.pt). "A Ucrânia precisa da sua ajuda. Não temos escolhas", as frases principais que justificam o pedido de apoio.

O site da Embaixada da Ucrânia em Portugal deixou de estar operacional. Os avisos que deixam para quem foge da Ucrânia são através das redes sociais. "Tenham água, alimentação, agasalhos e combustível de reserva caso se desloquem em viatura própria. Igualmente, deve ter consigo os seus documentos de identificação e de viagem". Inclui os números de telefone alternativo e o contributo de uma operadora de telecomunicações que oferece chamadas para a Ucrânia, bem como um pacote de televisão com os canais ucranianos.

A comunidade imigrante acompanha à distância a guerra iniciada na madrugada de 5.ª feira, com a invasão russa na Ucrânia. Estão permanentemente em contacto com os familiares e amigos, esperando recebê-los o mais rápido possível. Não são esperados homens entre os 18 e os 60 anos, uma vez que o decreto da Lei Marcial os mobilizou para a guerra, mesmo que tenham a nacionalidade ucraniana e portuguesa.

Aconteceu com seis cidadãos que viajavam no "comboio" organizado pela Embaixada de Portugal em Kiev e que foram impedidos de sair. Na noite desta sexta-feira, 48 portugueses deixaram a Ucrânia, 35 pela fronteira com a Roménia e 13 através da Moldávia (entre estes, o nutricionista do Shakhtar Donetsk, que o DN noticiou). Espera-se que este último grupo se reúna aos que estão na Roménia, para organizar o voo de repatriamento para Portugal, disse este sábado o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. Acrescentou que outros 40 pretendem sair e 15 já pediram ajuda à Embaixada de Portugal para fazer a viagem.

A Embaixada referia a existência de 300 portugueses no país antes do início do conflito armado, mas, segundo o MNE, eram 240, entre os quais 40 só com a nacionalidade portuguesa. Entretanto, 40 deixaram o país antes da invasão russa e, posteriormente, 48, o que significa que se encontram no país 152 cidadãos, quase exclusivamente com a dupla nacionalidade.

Solidariedade portuguesa

As manifestações em defesa da Ucrânia e de protesto contra a Rússia têm sido diárias em Portugal, particularmente em frente à Embaixada da Rússia, em Lisboa, e do consulado russo no Porto. Ontem, às 17:00, organizou-se um cordão humano em Belém, unindo a Praça da Itália, onde está a estátua do poeta ucraniano Taras Schevchenko, um símbolo de resistência, ao Palácio de Belém. Foram recebidos por Marcelo Rebelo de Sousa, com o Presidente a manifestar a sua solidariedade com o povo ucraniano, recordando que "o povo português também resistiu, lutou e afirmou a sua independência e liberdade". Por isso, sublinhou, "estamos a acompanhar de forma solidária a vossa luta pelo território e direito à independência".

Para este domingo, estão previstas ações de protesto em frente à Embaixada da Rússia, às 15:00, e 30 minutos antes, terá início uma manifestação de apoio aos ucranianos na Praça do Comércio.

ceuneves@dn.pt

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