Praxe amedronta docentes da Universidade do Minho

Professor de Psicologia enviou e-mail a toda universidade em que se queixa de ter sido humilhado quando tentou intervir numa praxe que considerou abusiva. Presidente da Associação Académica diz querer caso apurado
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"Sabes o que é o caralho?" Foi a pergunta que António Rui da Silva Gomes, professor auxiliar do departamento de Psicologia Aplicada da escola de Psicologia da Universidade do Minho (UM), diz ter ouvido de um "praxador" quando na tarde de quinta-feira advertiu os membros de uma praxe de que o que estavam a fazer "não tinha graça e não era permitido na Universidade."

Em resultado, conta num mail anteontem enviado a toda a Universidade, "passei eu a ser o objeto da praxe questionando-me agora a mim o aluno se sabia o que era o que descrevi acima. Fiquei estupefacto com a situação e dirigi-me a ele perguntando-lhe se tinha confiança comigo para me falar daquele modo; ao aproximar-me fui abordado fisicamente por outro aluno, que me agarrou (imagino que a pensar se iria agredir o seu colega, coisa que obviamente não era minha intenção)." Enquanto estava manietado, a pergunta referida ter-lhe-á sido endereçada mais algumas vezes.

A cena terá terminado sem o professor conseguir impor-se ou invocar a autoridade da Universidade. Diz ter ponderado chamar a polícia, mas acabado por desistir para não prolongar a “ridicularização” de que foi alvo. “Será que banir estas atividades depende agora das ações de cada um de nós, que tem de prescindir do seu tempo de trabalho para iniciar processos judiciais que têm por objetivo essencial iniciar processos internos disciplinares?”, pergunta. “É que mais do que a questão judicial era a questão académica que me importava, ou seja, banir do ensino quem nada aprende com ele...”

Do ocorrido foi dado, em pormenor, conhecimento a toda a Universidade ainda no mesmo dia, num mail enviado pelo professor e mais tarde partilhado no Facebook por alguns professores e alunos: “Hoje durante a tarde ao entrar no Complexo Pedagógico II deparei-me com uma praxe. Peço desculpa por descrever o que faziam os alunos, mas é importante para compreender os seus argumentos a seguir: basicamente tinham os alunos alinhados e um deles perguntava alto e bom som se sabiam o que era o “cara…” Quando após a sua intervenção e o que se seguiu ficou enfim com os movimentos livres, foi chamar um segurança. Tendo voltado para junto do grupo de alunos com o dito, foi confrontado com a versão dos “praxadores”: “Estavam simplesmente a conversar com os caloiros (ao que um deles
corrigiu rapidamente dizendo que estavam a falar com “colegas”) a explicar o que era o que referi (pelos vistos, um “mastro central de um
barco”), que eu me tinha intrometido e que tinha tentado agredir um deles; também argumentaram que eu era um ignorante (textualmente),
para gáudio de todos os presentes.”

Afirmando-se “já completamente desesperado”, Rui Gomes diz ter pedido ao segurança para identificar o aluno e relatar a situação à reitoria. Mas este terá alegado não poder fazê-lo. Posto o que “o  aluno recusou-se a identificar-se e até me desafiou a identificar-me eu próprio… E isto, uma vez mais, para gáudio de todos os presentes… E para continuar, ainda me informou que poderia chamar as autoridades pois o pai dele era polícia.” O docente cujo currículo académico é comentado por um colega como “impressionante” e entre as várias obras de que é autor conta com o título “Promoção de experiências positivas em crianças e jovens: Programa de competências de vida”, termina o mail confessando: “No caminho para a casa fiquei horrorizado a pensar que os meus dois
pequenos filhos terão de passar por aquilo se um dia chegarem à universidade, uma escola de valores baseados sempre no respeito pelos
outros… Hoje, pela primeira vez desde que estou nesta casa, senti-me envergonhado por cá estar…”

Vários colegas responderam ao mail com indignação e solidariedade, narrando situações de conflito com as praxes. Uma das professoras admitiu ter medo das alunas, enquanto outra comentava ser difícil dar aulas a pessoas que vira a praxar: “É como vermos alguém a roubar na rua e depois irmos ao banco e sentarmo-nos com essa pessoa e fazer de conta que não se passou nada.” Outro docente conta que uma aluna acabou por pedir transferência para outra universidade por “não suportar a praxe.” Um dos últimos mails, enviado ontem, transpira revolta: “Não é possível que uma pessoa de bem, uma pessoa que aqui trabalha, tenha ido para casa no estado que as palavras do Rui deixam entrever.” Questionando a atuação do segurança, todos estão de acordo quanto à necessidade de o assunto dever ter consequências.

O DN contactou Rui Gomes, que comunicou ter reportado o assunto à Reitoria, preferindo remeter-se ao silêncio “até ao final do processo de averiguação”, mas referindo no entanto que o mail enviado à Universidade “é público”. Outros professores que participaram na troca de mails aludida não responderam aos contactos do DN. Já o presidente da Associação Académica da UM”, Carlos Alberto Videira, garante “querer o caso esclarecido” e defende “prudência: “Não deverão ser retiradas conclusões precipitadas, por ser um assunto bastante sensível.” Mas vai adiantando que “a versão dos estudantes não é a mesma do professor em causa” e que quer ver o relatório da segurança da UM para “aferir o que realmente se passou”. “Deve decorrer agora um período de averiguações”, acrescenta, “em que ambas as partes possam ter oportunidade de dizer qual a sua versão dos factos e depois que se apurem responsabilidade sobre o que se passou, se for caso disso.”

Praxe amedronta docentes da Universidade do Minho
"A praxe é uma coisa muito estranha"
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