Portugal vai estar abaixo de zero na quinta-feira. Mas é normal

Só Lisboa, Porto e Faro vão escapar às temperaturas negativas. Meteorologista Costa Alves garante que não há qualquer anomalia

Portugal vai assistir a descidas de temperaturas máximas de oito a dez graus, de terça para quarta-feira, e enfrentar temperaturas mínimas negativas na quinta-feira, com exceções apenas em três distritos: Lisboa, Porto e Faro. O recorde de frio está previsto para Bragança (Trás-os-Montes) e Braga (Minho), ambas com -6º C, logo seguidas de Vila Real, -5º C, e de Leiria, -4º C.

O frio será de bater o queixo, sim, mas estará dentro dos valores esperados para a época, "sem qualquer anomalia", como garante o meteorologista Costa Alves. "Essas temperaturas negativas estão integradas numa situação de tempo muito frio que tem atingido a Europa e também Portugal, ainda que muito perifericamente", sublinhou.

O escudo protetor do país é o de sempre: o anticiclone dos Açores. "Como o anticiclone está posicionado muito próximo da Península Ibérica, tem-nos protegido da vaga de frio polar que atinge a Europa", adiantou. Mesmo ao lado, em Espanha, a situação é mais acentuada com neve, ventos fortes e grandes ondas.

Variações extremas

Ainda assim, as variações das temperaturas máximas de terça para quarta-feira são significativas, com previsão de menos dez graus (de 15º C para 5.º C na quarta) em Vila Real, de menos nove em Viseu (de 14º C para 6º C) ou de menos oito em Santarém (de 17º C para 10º C) ou na Guarda (de 9º C para 1º C). É o impacto da vaga de frio no país, mas também é mais do que isso. Para quem estuda a evolução do clima, como Costa Alves, essas variações extremas não se podem analisar só em função do inverno corrente. "Já são vinte ou trinta anos a notarmos que a atmosfera se comporta de um modo variável e que as situações extremas são mais intensas e frequentes do que anteriormente. Temos, por exemplo, uma maior variabilidade dos meses de janeiro ou de março."

Por outro lado, o meteorologista explica que as temperaturas noturnas muito baixas a que temos assistido são típicas deste fenómeno de vaga de frio. "O pouco calor que existe durante o dia é perdido por emissão na superfície terrestre."

Década de janeiros secos

Mas os grandes contrastes de temperaturas máximas e mínimas e o clima seco do primeiro mês do ano não está a ser extraordinário. "Desde há dez ou quinze anos que verificamos um maior número de janeiros secos. Está a ser mais frequente. Com a falta de chuva, já evidente no país em dezembro, é de prever um agravamento dos problemas para setores como a agricultura e a pecuária."

Desvalorizando um pouco o ambiente de alarmismo propagado em torno do frio polar, Costa Alves lembra que "vagas de frio na Europa acontecem quase todos os anos". Em cada dez anos verificam-se pelo menos três invernos com vagas de frio na Europa, referiu.

Mas as situações extremas, que confirmam os impactos do aquecimento global, têm sido mais devastadoras no verão. "As ondas de calor no verão são muito mais frequentes. De 2003 até ao verão passado assistimos a grandes ondas de calor com um número de mortos muito elevado e a mais três ondas de pequena e média intensidade." Antes de 2003, só nos verões de 1981 e 1991 se tinha notado o fenómeno da vaga de calor, que passou depois a ser frequente. Não é possível fazer uma previsão do que vai acontecer no verão de 2017 porque a margem de erro seria muito grande, justificou Costa Alves.

Valores acima do normal

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prevê descida moderada das temperaturas, mas no seu resumo para janeiro antevia até "valores acima do normal para todo o território". No seu boletim de dezembro avaliou a temperatura mínima do ar, 5,5º C em média, com uma anomalia de -0,50º C, mas apontava que "valores inferiores aos deste mês ocorreram em cerca de 50% dos anos", desde 1971.
Também na previsão sazonal, de janeiro a maio de 2017, o IPMA refere que "na temperatura média trimestral preveem-se valores acima do normal, em todo o território, para os três trimestres compreendidos entre janeiro e maio de 2017".

Para os meses de janeiro, fevereiro e março o IPMA não identifica um "sinal estatisticamente significativo" quanto à precipitação. Tempo seco, portanto. Mais: a probabilidade de a temperatura média trimestral ser superior à mediana é de 60% a 70%, indica o instituto de meteorologia. As mesmas previsões são válidas para o trimestre de fevereiro, março e abril, bem como para o trimestre de março, abril e maio.

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