O VIH é hoje uma condição crónica, por isso não basta saber quem foi diagnosticado. É essencial acompanhar o percurso da pessoa ao longo do tempo, e isso significa ligar dados, seguir momentos críticos e sinalizar falhas. Por exemplo, se uma pessoa deixa de levantar medicação ou falta às consultas, o sistema deve permitir identificar essa situação rapidamente e atuar. Além disso, sabemos que a infeção por VIH está muitas vezes relacionada com outras necessidades clínicas e sociais, que exigem igualmente capacidade de monitorização e resposta do sistema, de uma forma mais integrada”. O alerta é deixado ao DN por Ricardo Mestre, professor da Escola Nacional de Saúde Pública, (ENSP), da Universidade Nova de Lisboa, um dos cerca de 30 peritos que participou no estudo realizado pela instituição no âmbito do Projeto HIVision, cujo relatório final é apresentado publicamente na manhã desta quinta-feira, dia 25. A principal conclusão é clara: “É preciso melhorar a monitorização da doença para se obterem melhores resultados.”Segundo defende o especialista, que também foi um dos que assumiu a função de coordenador do projeto, “Portugal tem resultados globalmente positivos, mas as avaliações internacionais destacam a dificuldade em medir com precisão o cumprimento das metas 95-95-95 (diagnóstico, tratamento e controlo do vírus)”. Ou seja, “existem hoje estimativas e dados parciais, mas que não dão uma visão completa de todos os elementos do sistema. E para eliminar o VIH como problema de saúde pública, é preciso medir melhor para intervir de forma mais eficaz e eficiente”, reforça ainda.Nas conclusões do estudo HIVision - Diagnóstico sobre a monitorização do VIH em Portugal, é mesmo referido que “o país já dispõe de dados relevantes, experiência técnica e conhecimento acumulado nesta área”, mas o principal problema “é que essa informação continua dispersa, pouco articulada e nem sempre devolvida de forma útil a quem decide, planeia ou presta cuidados”. Uma situação que levou os especialistas a defenderem que para “Portugal dar um salto qualitativo na resposta ao VIH é preciso criar condições para transformar dados dispersos em informação útil para cuidar melhor, planear melhor e decidir melhor”.Para a professora da ENSP Teresa Magalhães, uma das especialistas que assumiu também a coordenação da equipa do projeto, o país precisa de melhorar a monitorização do VIH enquanto doença. E tal deve passar pelo “reforço da capacidade de ligar, articular e usar a informação existente, permitindo acompanhar o percurso das pessoas e identificar barreiras de acesso ao longo da resposta em saúde”. E dá exemplos: “Hoje em dia um hospital, um centro de saúde, um laboratório ou uma organização comunitária podem ter informação sobre a mesma pessoa, mas essa informação não está ligada. E melhorar a monitorização é juntar essa informação e perceber se alguém com um teste positivo entrou no tratamento a tempo, ou se houve abandono dos cuidados. No fundo, é acompanhar o percurso das pessoas e agir sobre atrasos ou interrupções.” A especialista especifica ainda que, no entanto, “ligar todos os sistemas que existem e que produzem dados, não é substituir tudo o que existe, mas apenas integrar toda a informação clínica, laboratorial, farmacêutica e comunitária. Uma pessoa pode ser testada numa ONG, tratada num hospital e levantar medicação numa farmácia. A arquitetura de informação tem de permitir acompanhar este percurso de forma contínua e completa, e não de forma fragmentada”, defendendo ainda que “Portugal já mostrou que consegue responder de forma robusta ao VIH. O que este trabalho demonstra é que também pode monitorizar melhor essa resposta, com mais integração, mais continuidade e mais capacidade de transformar dados em ação.”Ricardo Mestre reforça até que “monitorizar melhor não é apenas contar casos. É compreender o percurso das pessoas, devolver conhecimento útil aos profissionais e apoiar decisões mais inteligentes. Quando isso acontece, ganha a saúde pública, ganham os profissionais e ganham as pessoas. Este é um trabalho que as instituições podem e querem desenvolver, se tiverem condições para o concretizar”.Esta conclusão está a funcionar como um alerta e levou os especialistas que participaram no estudo a definir seis prioridades estratégicas, “consideradas essenciais para que Portugal se alinhe com as metas internacionais até 2030”. A saber: reforçar e clarificar a governação da informação em VIH, promover liderança clara, articulação institucional e responsabilidade partilhada; Estruturar a arquitetura de informação para o VIH; Implementar a monitorização longitudinal do percurso da pessoa; Valorizar e integrar dados comunitários; Consolidar e operacionalizar a matriz de indicadores para o VIH; Disponibilizar informação estruturada para apoio à decisão.Ao DN, Ricardo Mestre defende mesmo que tais prioridades implicam que, na prática, “as entidades responsáveis definam e publiquem um modelo formal de governação da informação em VIH, com regras claras e estáveis, que assegure coordenação efetiva e prestação de contas entre as diferentes entidades”. Isto, porque “ na governação da informação sobre o VIH existem várias entidades envolvidas, desde as entidades centrais do Ministério da Saúde aos hospitais, cuidados de saúde primários, organizações comunitárias e até autarquias, os seus papéis têm de estar claramente definidos. Para isso, é preciso clarificar funções, harmonizar regras e garantir que os dados são consistentes e usados para decisão”, reforça ao DN. Mas não só. O professor da ENSP considera ainda que neste trabalho de articulação entre as várias entidades é preciso “reforçar a capacidade de intervenção do Programa Nacional e garantir responsabilidade partilhada entre os diferentes atores. O foco deve estar na utilização dos dados para acompanhar melhor os doentes, e não apenas no cumprimento de obrigações de reporte nacional ou internacional”.Segundo os especialistas, que “mais do que um diagnóstico” este estudo do HIVision é uma proposta de “agenda nacional para a melhoria da monitorização do VIH, baseada num roteiro faseado e orientado para resultados”. Os números da doença DOENTES.Estima-se que atualmente existam cerca de 49.699 pessoas a viver com VIH em Portugal. Destas, cerca de 94% conhecem o diagnóstico. Os dados mais recentes divulgados pelo Instituto Nacional Ricardo Jorge (INSA) indicam que de acordo com a informação recolhida até 30 de junho de 2025 tinham sido “notificados 997 casos de infeção por VIH com diagnóstico em 2024, dos quais 951 com diagnóstico em Portugal.Evolução.Os dados revelam ainda que, entre 2015 e 2024, se registou uma redução de 35% no número de novos casos de infeção por VIH e de 43% em novos casos de SIDA. A maioria (72,3%) dos novos casos de infeção VIH em adolescentes e adultos (≥ 15 anos) registou-se em homens. A taxa de novos diagnósticos mais elevada registou-se no grupo etário dos 25-29 anos (28,5 casos/105habi- tantes) e em 25,2% dos novos casos a idade ao diagnóstico foi igual ou superior a 50 anos. Foram ainda notificados três casos de infeção VIH em crianças com idade <15 anos. Transmissão.A forma mais frequente de continua a ser por via de relações heterossexuais (52,5%), mas os casos em homens que têm sexo com homens (HSH) corresponderam à maioria dos novos diagnósticos em homens (60,6%).Diagónsticos Tardios. Até junho de 2025, 53,9% das pessoas diagnosticadas com VIH apresentaram-se tardiamente nos cuidados de saúde, sendo que 65,4% tinham 50 ou mais anos. .Mais casos de VIH diagnosticados tardiamente em homens acima dos 50 anos e heterossexuais.Ao fim de três anos, programa prioritário da DGS para infeções sexualmente transmissíveis e VIH volta a ter diretora