Portugal é um dos principais exportadores de esteroides ilegais

Seis redes foram desmanteladas no país pela PJ. Fabricavam os comprimidos e ampolas de "encher" em garagens

Foi a maior apreensão de sempre de esteroides anabolizantes em Portugal, revelou ontem a Polícia Judiciária a propósito da operação "Underground Pharma". Em três anos de investigação, a PJ conseguiu confiscar 750 mil comprimidos (tabs) e 50 mil ampolas produzidas em cinco laboratórios clandestinos desmantelados. O valor da mercadoria confiscada: dois milhões de euros.

Jovens dos 18 aos 30 anos, ligados aos ginásios e academias - alguns com experiência e antecedentes criminais no tráfico de droga - treinadores e alguns ciclistas amadores estão entre os 20 suspeitos constituídos arguidos pela Judiciária. Estarão ligados a seis redes de fabrico e venda destas substâncias para moldar o corpo, usadas por culturistas, atletas e também ciclistas, entre outros.

"O negócio ilícito do tráfico destas substâncias movimenta milhões de euros e tem em Portugal um dos principais exportadores europeus", explicou o inspetor chefe Manuel dos Santos, porta-voz da Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC) da Polícia Judiciária, responsável pela investigação.

Essas redes, agora desmanteladas, operavam de norte a sul do país e tinham Espanha como um dos principais países importadores, mas também o Brasil, Canadá, Estados Unidos e outros países europeus. A venda das substâncias produzidas por estes alegados traficantes era feita sobretudo na internet: em 80% dos casos, os comprimidos e ampolas eram contrafeitos.

A investigação não apurou venda direta em ginásios mas sim a existência de profissionais dos ginásios envolvidos no negócio.

"Desde o início da investigação aconteceram três mortes em Portugal por causa da toma de esteroides anabolizantes mas que não foi possível ligar diretamente aos grupos agora desmantelados", referiu o inspetor chefe ao DN.

Mais de 3 anos de prisão é difícil

Nesta fase, os arguidos estão apenas sujeitos ao Termo de Identidade e Residência (TIR). A PJ remeteu para o Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa proposta de acusação por corrupção (ou alteração, falsificação) de substâncias medicinais e tráfico de substâncias proibidas. São crimes que podem ir até aos 8 anos de prisão, no primeiro caso, e até aos cinco, no segundo, mas exigem requisitos específicos e difíceis de prova nesses limites máximos de pena. Para provar a corrupção de substâncias medicinais é preciso demonstrar que houve perigo concreto para a saúde e para a vida do utilizador, o que é complicado porque por vezes demoram-se anos até haver danos graves, como adiantou o inspetor. Pelo que, os 20 arguidos jovens no inquérito da PJ enfrentam mais a possibilidade de três anos por este crime, na parte em que basta provar que fabricaram, alteraram e falsificaram as substâncias por negligência. Quanto ao tráfico de substâncias proibidas, é punido de três a cinco anos e aplicado sobretudo ao doping e desporto profissional - a investigação da UNCC chegou apenas a ligações ao ciclismo amador, para já.

Consumo não é criminalizado

O consumo dos esteroides anabolizantes não é criminalizado, apenas o tráfico é. "Os utilizadores são vistos como vítimas", referiu o inspetor. A PJ fez 34 buscas em várias casas em Lisboa, na Margem Sul da capital, na zona oeste e no norte , tendo fechado laboratórios que funcionavam sem qualquer higiene, em garagens ou até em cozinhas gordurosas, ao lado de cinzeiros cheios de beatas. Foi ainda apreendida matéria-prima para produção: testosterona, óleos, frascos de vidro e plástico, cartonagens, bulas, hologramas, fórmulas de fabricação e máquinas de embalar. Em Espanha, onde estavam alguns dos importadores, a Guardia Civil fez 55 detenções na operação Escudo, contando com a cooperação da PJ. A investigação contou ainda com a colaboração do Infarmed e da Adop (Autoridade Antidopagem de Portugal).

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