Parece simples mas gera muito dinheiro. Diretor da PJ diz que pirataria de conteúdos audiovisuais é criminalidade altamente organizada

Parece simples mas gera muito dinheiro. Diretor da PJ diz que pirataria de conteúdos audiovisuais é criminalidade altamente organizada

Carlos Cabreiro lamentou ainda que em Portugal existam "elevados níveis" que recorrem à pirataria para assistir a conteúdos como séries, filmes ou desporto. Em 2025 procedeu-se ao bloqueio de 1600 domínios.
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O diretor da Polícia Judiciária (PJ) defendeu esta terça-feira, 28 de abril, que a pirataria de conteúdos audiovisuais se trata de criminalidade altamente organizada, que "fomenta o branqueamento de capitais" e vai além da violação dos direitos de autor.

"Não estamos a falar só de direitos de autor, não estamos a falar só da divulgação de conteúdos ilegais. Estamos também a falar de algo que fomenta o branqueamento de capitais e que gera muito dinheiro", sustentou Carlos Cabreiro, à margem do IV Colóquio Internacional sobre Pirataria de Conteúdos Digitais, que esta terça-feira decorre na sede da PJ, em Lisboa.

O dirigente precisou que, embora "aos olhos dos cidadãos" a pirataria pareça "algo que é muito simples e que só provoca vítimas individuais ou que afeta as empresas", em causa estão estruturas que se organizam "de forma a disseminar os lucros que provêm da atividade criminosa".

Carlos Cabreiro, até há cerca de um mês diretor da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime da PJ, lamentou ainda que em Portugal existam "elevados níveis" que recorrem à pirataria para assistir a conteúdos como séries, filmes ou desporto, realçando a importância de campanhas de prevenção.

Entre estas, destacou a que foi lançada há cerca de um ano pela PJ em parceria com a Sport TV com o mote "Não é só um jogo. É crime. És criminoso?", contra serviços de transmissão gratuita de jogos de futebol, um conteúdo pago.

"Cerca de 34% dos jovens [em Portugal] dizem que consomem conteúdos ilegais e isso por si só é preocupante", frisou.

IGAC com 2100 denúncias de pirataria 'online' em 2025

Neste colóquio, o diretor da Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC) anunciou que o organismo recebeu em 2025 mais de 2000 denúncias de pirataria ‘online’, que levaram à remoção de cerca de 80% dos conteúdos e o bloquio de 1600 domínios.

O IV Colóquio Internacional sobre Pirataria de Conteúdos Audiovisuais, que decorre hoje na sede da Polícia Judiciária, em Lisboa, abordou, entre outros temas, a “Influência do Regulamento dos Serviços Digitais no combate à pirataria”.

O Regulamento dos Serviços Digitais (DAS - Digital Services Act) é uma lei da União Europeia (UE) que estabelece regras para tornar a Internet mais segura, transparente e responsável, obrigando plataformas digitais a controlar melhor conteúdos ilegais e a remover rapidamente esses conteúdos ilegais (como pirataria ou discurso de ódio), proteger utilizadores e garantir mais transparência nos seus sistemas.

Questionado sobre o que muda com este regulamento - aprovado pela União Europeia em 2022 e plenamente aplicável desde 2024 - Luís Sande e Silva, diretor de Serviços de Inspeção e Fiscalização da IGAC, reconheceu que “impõe um conjunto de obrigações muito exigentes, que não existiam”, designadamente de “colaboração entre várias autoridades, quer a nível nacional, quer a nível comunitário”, mas que está aquém do desejável ao nível de respostas concretas.

Pegando nos dois exemplos citados anteriormente por Paula Cabriz, consultora principal na Direção-Geral de Regulação da ANACOM, de utilização do regulamento em França e Itália, o responsável do IGAC destacou que “a pirataria continua [naqueles países], portanto, não foi erradicada”.

“Percebemos que não conseguimos erradicá-la e, portanto, nessa linha, o quadro só pode ser um quadro de maior exigência regulatória, de maior colaboração a nível nacional e comunitária. E temos de fazer mais, espero que todos estejamos cientes de que temos de fazer mais. Cada um no seu papel”, afirmou Luís Sande e Silva.

Apontando números nacionais relativos à pirataria ‘online’, o responsável revelou que “no ano passado, a IGAC tratou cerca de 2100 denúncias, que culminaram no bloqueio de 1600 domínios”.

Nos bloqueios em direto e ao vivo, nós ordenámos o bloqueio de cerca de 3500 domínios”, acrescentou, sublinhando contudo que este é “um bloqueio temporário, porque estamos a falar de situações de eventos em direto e ao vivo, eventos desportivos, no quadro de uma colaboração que existe há vários anos”.

Pegando nestes números, Luís Sande e Silva questionou se “são suficientes”, para logo de seguida responder: “Todos sabemos que não. As medidas são suficientes? Sabemos que não”.

“É um trabalho que é feito, produz resultados, mas não, se calhar, os resultados que todos pretenderíamos”, salientou.

Também o coordenador da Polícia Judiciária (PJ) José Ribeiro corroborou esta opinião.

“O DSA, de facto, representa um avanço normativo genuíno, mas se olharmos para aquilo que consideramos conteúdos terroristas, os conteúdos de pornografia infantil ou incitamento ao ódio. Encontramos, de facto, muitas vantagens, mas não é aquilo que nos traz aqui hoje, que é esta questão da pirataria”, afirmou.

Enquadrando “esta problemática”, o coordenador da PJ assinalou tratar-se de um “ecossistema de infratores identificados, normalmente fora do espaço da União Europeia”.

Segundo o responsável, o DSA tem aplicabilidade no espaço da União Europeia e está orientado sobretudo para conteúdos alojados em plataformas digitais e redes sociais, sendo menos eficaz no combate à pirataria em transmissões em direto, em tempo real.

José Ribeiro acrescentou ainda que, além do problema de o regulamento só ter aplicabilidade dentro do espaço da UE, trata-se de “estruturas criminosas altamente sofisticadas, não só do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista jurídico também, porque dominam todas estas questões”.

“Onde é que vamos localizar as nossas infraestruturas? Onde vamos colocar os nossos colaboradores ao serviço? Tudo isto é importante”, assinalou.

Outros aspetos apontados neste painel pelos intervenientes, que contou também com o presidente da direção do MAPINET, Paulo Santos, foram o facto de o ciberespaço não ter fronteiras, a dificuldade de identificar criminosos (normalmente o que se identifica são as estruturas), a incógnita sobre como lidar com as ‘boxes’ pirata, ou a convicção de que a solução penal deve ser a última das soluções.

No fecho do painel e à laia de conclusão, o moderador, Nuno Oliveira, presidente da direção da FEVIP, considerou que resultam desta conferência a necessidade de mais “colaboração, cooperação e sinergias” entre entidades e autoridades nacionais e comunitárias, bem como “ações de pedagogia e sensibilização", para acabar com a “tolerância social que existe em relação a este fenómeno criminoso, que é a pirataria”.

A conferência é coorganizada pela PJ e pela FEVIP - Associação Portuguesa de Defesa de Obras Audiovisuais.

Parece simples mas gera muito dinheiro. Diretor da PJ diz que pirataria de conteúdos audiovisuais é criminalidade altamente organizada
Portugal ainda sem estratégia para combater a pirataria de conteúdos audiovisuais
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